quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Capítulo 08: “Acabou Pedro”


(Pedro)

Desde o final do dia anterior que um estranho pressentimento aprisionava Pedro. Sentia que algo não estava bem. Não sabia explicar porque o sentia, nem porque a sensação teimava em não desaparecer. Já o tivera antes, mas nunca durante tanto tempo. Certificou-se que estava tudo bem com os que mais amava. Com a sua família estava tudo bem, com os amigos mais próximos também, e a namorada também estava de perfeita saúde. O único senão que podia haver, era a estranha fase que o seu namoro atravessava. Pedro gostava da sua namorada, embora não a amasse. Mas o sentimento crescia, embora Matilde não acreditasse realmente no que ele sentia por ela. Sofia era e sempre seria uma “inimiga” ao futuro daquela relação.
Pedro continuava a gostar de Sofia, embora não o admitisse, e Matilde sabia-o. Conhecia-o muito bem. Mas amava-o demasiado para acabar aquela relação e se afastar dele.
Todos os dias da semana, Pedro acordava mais cedo e ia buscar a namorada a casa e levava-a até á escola, e apesar de tudo, aquele dia não era excepção. A sair de casa, enviou uma mensagem a Matilde:

“Amor, estou a sair de casa”

Foi até ao carro e depois de o ligar, o telemóvel apitou uma mensagem, mas não a abriu. Continuou caminho, até casa da sua namorada. Depois de alguns minutos de viagem, chegou ao destinatário. Matilde aproximou-se do carro, ele abriu o vidro:

-Olá amor! – Disse Pedro esperando um beijo de cumprimento da namorada.

-Olá Pedro! – Respondeu friamente e não o beijando. – Não viste a minha mensagem, está claro.

-Não, já vinha a caminho. Mas porquê? – Entretanto um carro parou atrás de Pedro e ele foi obrigado a estacionar o carro e Matilde sentou-se no lugar ao lado do namorado.

-Porque disse que não precisavas de me vir buscar, vou bem de autocarro, ou a pé.

-Qual é a necessidade? Sempre te vim buscar e levar á escola, não percebo porque hoje seria excepção.

-Qual é a necessidade? Não precisas de me exibir só para dizer que já esqueceste a Sofia.

-Se não gostasse de ti não namorava contigo, e não estaríamos juntos há já 4 meses.  
-Isso não quer dizer nada Pedro! – Disse entristecida. – Podes perfeitamente estar a usar-me para a esquecê-la e para demonstrares aos outros que já a ultrapassaste. Quantos casos não vimos de pessoas que se casam até por interesse, ou por dinheiro!

-Mas tu conheces-me bem, sabes que não faria isso.

-É por te conhecer bem que sei que ainda a amas.

-Matilde, eu gosto de ti. Não percebo esta tua indecisão de repente, passou-se alguma coisa?

-Sim Pedro, eu conheço-te bem e sei que ainda a amas. – Pedro não sabia o que mais responder. Gostava de Matilde, mas ainda não esquecera Sofia, e não queria mentir-lhe. Beijou-a com amor e depois sussurrou:

-Gosto muito, muito de ti! – Deu-lhe as mãos e ela sentiu-se amada, talvez ele estivesse mesmo a gostar dela. Pedro conduziu até á escola da amada e deixou-a lá, depois seguiu o caminho até ao Caixa Futebol Campus, onde teria treino.

Pedro era sempre o primeiro a chegar ao balneário e volvido alguns minutos começavam a chegar outros colegas, sendo que todos os dias variavam. Aos poucos e poucos começaram a chegar, e reparou que duas pessoas que não se costumavam atrasar, ainda não tinham chegado. Diogo tinha ido passar a noite a casa de Filipe e ainda nenhum tinha chegado. Já muito próximo da hora do treino, chegou o segundo. Aproximou-se e perguntou:

-Então puto porque é que só chegaste agora? E que é feito do minorca?

-O Diogo hoje não vem, a Sofia, a irmã do Diogo, está internada no hospital. – Depois de ouvir aquelas palavras, Pedro sentiu como que o mundo a sair-lhe dos pés. Filipe continuou a falar, mas ele já não o ouvira. – Pedro estás a ouvir-me? Estás bem?

-Sim, sim. Ele foi até ao norte para a ver?

-Não. A Sofia está cá. – Pedro não queria acreditar no que estava a ouvir, ela tinha regressado e nem tentara entrar em contacto consigo? E Diogo era cúmplice, tinha-se limitado a não lhe dizer? Como era possível continuar a amar Sofia depois de tudo o que acontecera? – Mas agora vou vestir-me para não chegar ainda mais atrasado.
Pedro saiu do balneário e deixou Filipe a preparar-se para o treino, não sabia muito bem como pensar ou como reagir. Gostava de Matilde, mas não conseguia esquecer Sofia, apesar de tudo o que ele lhe fizera, de tudo o que lhe sofrera, depois de um ano de desaparecimento e depois de reaparecer e nem ter tentado falar consigo. Mas sabia que como profissional não podia deixar transparecer o que sentia. Aplicou-se no treino e acabou por sair mais cansado do que era habitual.

-Que se passou hoje contigo Pedro? Estavas possuído. – Perguntou Filipe, que passara o treino distraído, também pelo mesmo motivo que Pedro.

-Hoje falei com a Matilde, e conseguimos resolver as coisas. – Nunca assumira a ninguém que continuava a amar Sofia, demonstrava sempre que estava entregue de alma e coração á relação com Matilde.

-Ainda bem! Mas que é que se tinha passado entre vocês?

-Um mal entendido, mas já está tudo bem. Tudo se resolve a falar não é verdade?

-Claro que sim, gostava de ficar a conversar mas não posso, tenho de ir visitar a Sofia ao hospital.

-Em que hospital é que ela está internada? Gostava de ir lá ver o Diogo e dar o meu apoio.

-Está no Dona Estefânia. Mas se quiseres podes ir agora comigo, eu dou-te boleia.

-Não, hoje á tarde vou passear com a Matilde, não posso mesmo. Mas amanhã ou assim vou lá. Mas não digas nada ao Diogo se faz favor, ainda não tenho a certeza se vou.

-Está bem, eu digo ao Diogo que mandaste cumprimentos e que mandaste um beijinho á Sofia.

-Não, não faças isso! – Pediu claramente preocupado.

-Porque não?

-Porque prefiro surpreende-los. – Inventou Pedro. – Mas é melhor ires andado, para não os deixares preocupados. Vai lá! – Filipe saiu a correr tão rápido como tinha chegado e Pedro acabou por sair também dos balneários e do centro de estágios, em direcção á escola da namorada. Iriam almoçar e passar a tarde juntos, mas ele não conseguira esquecer o que Filipe lhe dissera. Estava preocupado com Sofia, continuava a amá-la apesar de namorar com Matilde, queria saber do estado de saúde dela, queria poder conversar com ela, mas continuava sem saber se era ou não má ideia ir visitá-la ao hospital.

-Pedro que se passa contigo? – Perguntou Matilde já a meio do almoço que estava a ser feito em silêncio absoluto, num bar junto á praia.

-Estou cansado só isso.

-Tiveste um treino muito exigente amor?

-Sim, e estou preocupado com o Diogo e com o Filipe e acabei por descarregar no treino.

-Que é que se passou com eles?

-O Filipe chegou atrasado ao treino, e o Diogo não foi, estava dispensado.

-Tens medo que seja por causa da Sofia?

-Sim. – Assumiu com o medo bem presente na voz. – O Filipe disse-me que ela está em Lisboa. – Para Matilde aquelas palavras magoaram-na mais que qualquer outro gesto ou atitude de Pedro. Sabia que mais cedo ou mais tarde, iria acabar por sofrer e sair magoada, e só queria ser feliz. Podia magoá-la no início mas acabou por fazer o que lhe pareceu melhor. Respirou fundo, levantou-se da mesa e disse:

-Acabou Pedro. – Disse ainda com os olhos fechados. – É o melhor para os dois, desculpa. – Não conseguiu controlar as lágrimas e começou a chorar, saiu dali o mais depressa possível e ele ficou a vê-la partir, sem saber o que fazer, ou como reagir. Gostava dela, mas porque tinha terminado a relação? Continuava a amar Sofia, mas gostava imenso de Matilde e não iria abandonar esta para ir ao encontro de quem tanto o magoara.
Deixou algum dinheiro em cima da mesa e saiu daquele restaurante depressa, não queria acabar o almoço nem queria falar com ninguém, queria sair daquele local o mais depressa possível. Não tinha sorte no amor, Sofia abandonara-o sem dizer nada, como do dia para a noite, Matilde tinha terminado a relação sem ele conseguir entender a verdadeira razão. Correu até á praia e conseguiu encontrar o local mais escondido e recatado daquele local, sentou-se e começou a chorar.

“Porquê? Será que mereço tudo aquilo que sofro? Será que sim? Eu amo a Sofia e ela abandonou-me, ela desapareceu sem dizer nada, como do dia para a noite. Regressou a Lisboa e nem tentou falar comigo, ela desistiu de mim, de nós. E nem teve coragem de me dizer, eu só queria entender isto. Ela não é assim, a Sofia que conheci não é assim, a Sofia com quem eu namorei um ano não me tinha feito isto. Não me teria tirado o coração pelas costas e pisado. Ela devia ter-me explicado tudo, por muito que não exista desculpa, era sempre bom haver alguma explicação. É por a amar tanto que não a consigo esquecer, por não saber tudo o que se passou que não consigo apaga-la da minha vida, e foi graças a tudo isto que perdi também a Matilde. Alguém de quem eu gosto e começava a gostar cada vez mais. Nunca lhe menti, eu sei, mas também nunca lhe disse a verdade. Que amo a Sofia, porque sei que a iria magoar, e ela não merece sofrer. Mas ela conhece-me, melhor do que eu a conheço e sabe que nunca a deixarei de amar até falar com ela. Mas porquê? Porquê este medo de me perder? Não ia desistir dela, ia lutar até ao fim pela Matilde, porque gosto dela. Seria incapaz de ter uma relação com a Sofia, depois de tudo.”

Pedro era como o mais comum dos homens, não conseguia chorar junto a ninguém, sentia a sua masculinidade em perigo. Mas quando se encontrava sozinho chorava. Quantas vezes não chorou sozinho depois de Sofia o ter abandonado. Desta vez não era excepção, chorava não só por Sofia… Como por Matilde. Sempre que estava acompanhado e sentia-se demasiado próximo do desespero e de começar a chorar, pegava numa caneta e começava a escrever, mas desta vez, decidiu seguir um conselho de uma velha amiga. Alguém que lhe tinha ensinado muito, que era mais que uma namorada, fora uma amiga e uma companheira, Sofia. O que ela lhe tinha ensinado era que o mar era um dos melhores conselheiros, podia ser mais educado, menos educado, podia chorar ou sorrir, o mar ouvia-o e respondia-lhe com a força das ondas. E desta vez falou muito com o mar, e sentiu que o melhor que podia fazer era visitar Sofia. Estava magoado com ela mas ia saber qual era o seu estado de saúde, estava deveras preocupado. E iria ser amigo de Diogo, que naquele momento precisava demasiado do seu apoio. Mas primeiro tentou ligar a Matilde, ela não atendeu e ele não insistiu, por isso mandou-lhe uma mensagem:
“Não sei o que te levou a fazer isto amor mas eu não vou desistir de ti porque é isto que o amor verdadeiro me ensinou a fazer! Sabes que te adoro! Beijos do teu alentejano”
Uma mensagem com imenso significado, gostava imenso de Matilde e não queria perdê-la, iria lutar por ela apesar do regresso de Sofia. Foi até ao carro e conduziu até Lisboa, mas pelo caminho telefonou a Filipe:

-Olá Filipe, achas que posso ir visitar agora a Sofia?

-Ela agora está a dormir, mas já está a dormir há um bom bocado, até cá chegares acorda. Queres que avise o Diogo?

-Não. Quando aí chegar falo com ele.

-Então que te aconteceu para vires hoje? Não ias estar com a Matilde?

-Sim, mas aconteceu um imprevisto. – Não queria contar a ninguém que Matilde tinha colocado um ponto final na relação.- Diz-me uma coisa, estão aí os pais deles?

-Estão. O pai está aqui ao pé de mim, a mãe está lá dentro ao pé dela. – Pedro já tinha tido a oportunidade de conhecer os pais de Sofia, e sabia bem que o pai não gostava de si. Mas decidiu arriscar na mesma, queria ver a amada, queria saber qual era o seu estado de saúde, queria verificar com os seus próprios olhos.
Assim que chegou ao hospital, perguntou onde era a ala dos internados e um responsável acompanhou-o até ao local, de seguida teve de pedir informações para o quarto onde Sofia estava internada e caminhou em direcção ao mesmo. Respirou fundo, ia enfrentar a família toda dela, mas era o melhor que podia fazer, queria saber qual era o seu estado de saúde.
Enquanto percorria o corredor, conseguiu ver o pai e o irmão dela, juntamente com Filipe, parou e respirou fundo. Iria enfrentá-lo, mas não sabia se estava preparado. Continuou o seu percurso e em pouco tempo chegou até á porta do quarto.

-Boa tarde. – Disse ao chegar próximo de todos. – Por muitas coisas que tenham acontecido no passado, o mais importante é a Sofia e eu quero ver como é que ela está. Preciso disso. – Diogo nada respondeu, deixou que o pai tomasse iniciativa.

-Pedro. – Respondeu aproximando-se do seu antigo genro. – Desde o início que não fui correto para ti. E que merecias uma hipótese de provar que estava errado e eu não ta dei. Eu sei. E por isso lamento. Sei que não é desculpa, mas ela é minha filha. Minha filha mais nova, a única menina que tive a sorte de ter, e assusta-me só a ideia de partilhá-la com outro homem! Porque tinha medo que a magoasses, que a desiludisses, que te aproveitasses dela, e que não a fizesses feliz. E eu tenho medo do que sou capaz de fazer se alguém lhe fizesse isso! Sei que era capaz de matar, se fosse preciso, por quem a magoasse! E foi este medo de alguém a magoar, que acabei por ser eu a fazê-lo. E acabei por te magoar também. Desculpa-me por isso. E o mínimo que posso fazer por vocês, é dar-vos a oportunidade de falarem. Devo isso não só á Sofia, como também a ti.

            Qual será a reacção de Pedro?

Como correrá a conversa? Como será o reencontro do antigo casal?

domingo, 3 de agosto de 2014

Capítulo 07: “Amo-te tanto pai”


Depois do regresso forçado a Espinho, da despedida forçada que havia feito ao filho e da sua tentativa falhada de pôr um termo á vida, começou também a recusar comer e a pouca comida que conseguia comer, acabava por involuntariamente ou não, expulsá-la do corpo. Pouco depois, descobriu que todas as suas atitudes lhe causaram problemas de saúde. Devido ás circunstâncias da vida, começou a sofrer de distúrbios a nível de alimentação e a nível psicológico. Tornou-se bulémica com uma depressão nervosa.
Quando vivia em Espinho, frequentava assiduamente um psiquiatra e grupos de apoio, para curar os seus problemas, estava disposta a lutar contra eles, mas sozinha todo o percurso tornar-se-ia mais duro e instável. A depressão estava já na recta final da cura, mas quando abandonou Espinho, deixou cair por terra todo o esforço daquele último ano, quanto á bulimia, seria um problema para o resto da sua vida. Diogo sabia quais os problemas de saúde da irmã e faria tudo para ajudar a curá-los, queria apenas o seu melhor. Sabia que a irmã merecia ser feliz e iria fazer de tudo para a deixar feliz, e iria lutar com todas as forças para ajudar a irmã a vencer os problemas de saúde. Tinha visto a irmã a alimentar-se. A única justificação possível era que havia tido uma recaída e que expulsara, mais uma vez, os alimentos do corpo.
Pousou a irmã sobre o banco daquela rua, verificou a pulsação dela e pediu:

-Bernardo, chama uma ambulância. – Pediu, e ele obedeceu afastando-se deles.

-Espera que a tua irmã acorde, Diogo. Tu sabes perfeitamente que vão chamar os teus pais, e ela não quer.

-Os meus pais sabem que a Sofia cá está. Além do mais, a minha irmã é bulémica e tem uma depressão.

-O quê? – Perguntou Filipe dando um grito de surpresa. Como é que lhe poderiam ter escondido algo tão grave como aqueles problemas de saúde?

-Sim, Filipe. A minha irmã não está bem e tudo o que está a acontecer é demais. Ela ainda não é uma mulher, ela ainda nem dezoito anos tem. – Disse apertando com força a mão da irmã, tentando assim dar-lhe força para despertar daquele desmaio.

-A Sofia é uma verdadeira guerreira. – Deu-lhe um beijo sobre a testa. –A tua irmã não está a ser acompanhada? E que é muito provável que seja uma recaída.

-Ela estava a ser seguida em Espinho, mas cá, ainda não consegui tratar disso. Ela deve ter vomitado tudo o que comeu, e o corpo não aguentou tanto tempo sem energia. Mas será que o Bernardo demora muito tempo? E a porra da ambulância? A minha irmã não está nada bem, ninguém entende isso?

-Tem calma, o Bernardo já ligou para o 112, e a ambulância já deve vir a caminho. – O mais velho aproximou-se dele e trouxe uma garrafa de água que passou pela cara da ainda desmaiada rapariga.

-Vai aquela pastelaria e compra um bolo ou um doce se faz favor. – Pediu Diogo a Bernardo. –Eu já te pago! – Ele obedeceu e passado pouco tempo trouxe um bolo, deu ao amigo que partiu o bolo em bocadinhos e começou a colocar bocadinho a bocadinho a comida na boca da irmã, que começou a reagir aos poucos, mastigando e pouco depois a abrir os olhos.

-Sofia. – Diogo quando viu a irmã a abrir os olhos, abraçou-a e sorriu. –Não voltes a fazer-me isto!

-Que se passou? – Perguntou sentando-se na cadeira.

-Desmaiaste. Mas a ambulância já vêm a caminho.

-Eu estou bem, não quero ir para o hospital, isto passa.

-Não Sofia, tu não estás bem! Tu tens uma depressão, tu és bulémica, tu desmaiaste porque tiveste uma recaída, e vais para o hospital, quer queiras quer não. Neste momento sou responsável por ti e é nesses termos que vou tomar conta de ti! – Respondeu rudemente, apanhando desprevenida a irmã, que ficou calada e acabou por comer o resto do bolo, sem dizer mais uma palavra.

Esperaram alguns minutos, e a ambulância apareceu, levando Sofia e Diogo acompanhou-a. Filipe e Bernardo seguiram atrás da ambulância, de carro.

-Desculpa, Diogo. – Pediu Sofia, ainda fraca, deitada na maca e com o enfermeiro constantemente a averiguar o seu estado de saúde.

-Promete-me apenas que aconteça o que acontecer, vais cuidar de ti. – Respondeu apertando a mão da irmã. – A tua saúde acima de tudo, a partir daí vem tudo por acréscimo.

Sofia chegou ao hospital juntamente com o irmão e depois de alguns exames e dos médicos verificarem o seu historial clínico, acharam por bem deixá-la em repouso absoluto no hospital, por alguns dias. Queriam apenas assegurar-se que se alimentava. Colocaram-lhe soro e deixaram-na num quarto onde iria ficar nos próximos dias. Depois de instalada, Sofia fechou os olhos, tentando adormecer e Diogo permaneceu sentado á sua cabeceira. Esperou alguns minutos, com esperança que a irmã adormecesse e acabou por começar a falar baixinho, como se de uma confissão se tratasse:

-Não, não podias ter feito isto, Sofia. – Disse enquanto duas lágrimas rolavam-lhe as maçãs do rosto. –Amas o Pedro, sei disso. Mas já paraste para pensar que ele pode não te amar da  mesma forma, compulsiva e desumana como tu amas? – Escutar aquelas palavras com atenção, faziam-na abrir cada vez mais uma ferida no peito que teimava em não fechar. –Ele poderia ter esperado por ti, poderia ter lutado mais, e ele limitou-se a ... Desistir. Porque acima de poder ou não amar-te, ama-se a ele próprio, e o melhor que poderia fazer era reencontrar a felicidade. E conseguiu. E tu podias tentar fazer o mesmo! – Disse Diogo com as lágrimas a percorrem-lhe o rosto de forma cada vez mais veloz. –Podias esquecê-lo. Para teu bem. E para bem dos que te rodeiam. Porque eu amo-te mais do que alguma vez, o Pedro te amará e tu só me demonstras que não me amas, que te estás nas tintas para o que sinto. Parece que como estive sempre aqui, que sou teu irmão e sangue do teu sangue, que já sou um dado adquirido na tua vida. Estarei sempre aqui, tu sabes, mas cada vez que pioras é como um golpe que me dás no peito. Como se me provasses que não me amas, e que vives só por causa dele. Perdeste um filho, tentaste-te matar, cortaste-te, fugiste, tatuaste o nome dele, e eu, Sofia? É só por ele que vives? É só por ele que vale a pena viver? E eu? Fui apanhado no meio de uma história que não é a minha, que pode mudar a minha vida para sempre e fui obrigado a aceitar e não dizer mais nada. De um lado a minha família, do outro os meus amigos. Todos me perguntaram por ti, inclusivé o Pedro, e eu não sabia o que dizer. Perguntei ao pai, mas era claro que ele me mentia com todos os dentes que tem na boca. E a mãe nada podia dizer. E eu tive de mentir, tive de representar e inventar uma história para tudo. Uma história que justificasse tudo, quando no fundo toda a gente queria o mesmo que eu. A verdade. – O tom e o timbre de voz denunciavam a sinceridade daquelas palavras.  –Sim, o pai pode não ter tido as melhores atitudes e pode não ter demonstrado da forma mais correta o que sente por ti, mas acredita que ele é das pessoas que mais te ama no mundo, e só quer o teu bem. A mãe tem sido a pessoa uma lutadora, de um lado, a filha e do outro o marido. Sabes quantas noites eu e a mãe passamos em branco? Quantas vezes não rezamos para ficar tudo bem, para tu e o pai fazerem as pazes e ficar tudo bem, ou quantas vezes não pedimos com todas as forças para acordar deste pesadelo. – Beijou o rosto da irmã. –Tenta, por favor, fazer um esforço, para ser feliz. Para ficares bem, com o Pedro, ou sem ele. – Limpou as lágrimas que lhe escorriam o rosto e saiu do quarto. Sofia, escutou todas as palavras que ele dissera com toda a atenção, nunca tinha pensado no outro ponto de vista daquela história. Tinha sido egoísta e tinha pensado apenas em si mesma, e em Pedro. Deveria ter pensado mais na família, no quanto a mãe e o irmão sofreram por uma história que não era deles mas que os afetara e os deixara de rastos psicologicamente. Também Pipo, tinha sido um mero “achado” naquela história, Sofia não o tinha “usado” para se esquecer de Pedro, mas talvez ele o sentisse. Tinha de mudar de atitude, tinha de demonstrar a todos o quanto os amava. E foi com estes pensamentos que adormeceu...

-Como é que ela está? – Sofia despertou com aquela voz, conhecia mas não queria acreditar que pudesse ser ele.

-Está a ser seguida por um médico, puseram-na a soro para se certificarem que come e não vomita. – Sentiu um beijo na sua testa, era claramente da mãe.

-Oh minha filha, porque fizeste isto? Nós amamos-te muito, tudo se vai recompor prometo.

-Não, não podes cumprir uma coisa que não vais conseguir cumprir. – O pai nunca mudaria, seria sempre o mesmo homem frio e sem escrúpulos. Pensou Sofia. –Ela está assim por minha causa, tudo o que lhe aconteceu é apenas por minha causa. E não dá para passar uma borracha sobre o passado, não dá para ela recuperar um filho que eu a forcei a matar, fui eu que a obriguei a afastar-se do Pedro, o primeiro homem que a minha vida amou, apenas porque não gostava dele. Fui tão egoísta e para piorar, ainda a obriguei a afastar-se do irmão, não fui eu que lhe fiz os cortes, mas fui eu o culpado de tudo. E viverei para sempre com este peso na consciência, mas fiquem sabendo que farei tudo para a Sofia se curar dos problemas de saúde e para ser feliz, como merece! – Ela abriu os olhos e olhou para o pai. Tinha esperado aquele momento durante muito tempo e não sabia ao certo o que responder...

-Pai... – Foi a primeira vez desde que tudo aconteceu que lhe chamara por este nome.

-Filha. – Respondeu abraçando-a e mais tarde beijando-a. – Desculpa, desculpa pelo que te fiz sofrer, por tudo o que te fiz. Desculpa. Só te quis proteger, só queria que o teu bem, e nem pensei no que tu sentias. Desculpa, desculpa. –Tanto pai como filha derramavam lágrimas pela face.

-Eu desculpo pai. – Abraçaram-se com todo a força e sentimento. –Amo-te tanto pai! – Disse dando-lhe um beijo.

-Eu amo-te mais, minha filha! Minha mulher da minha vida! – O pai afastou-se e apertou a mão de Sofia. Olharam para Diogo e a mãe e eles também choravam emocionados.

-Vocês não imaginam o quanto esperei por este momento! – Toda a família se abraçou, como há anos não acontecia. Foi, sem sombra de dúvida, um dos momentos mais bonitos da vida de Sofia. E para sempre lembrar-se-ia daquele abraço. Sabia que até então e para o resto da vida cometeriam erros, e ela iria perdoar, faziam-no apenas porque queriam o seu bem. Por muito que amasse Pedro, eram os Roch(inh)a que a faziam feliz por completo.

-Já não faz sentido estar aqui. Tenho o Diogo, mas talvez seja em Espinho, e junto do resto da minha família que esteja melhor.

-Faz o que achares melhor para ti filha, nós apenas queremos que sejas feliz. – Respondeu calmamente a mãe, claramente feliz e emocionada por aquele momento de família.

-Faz o que achares melhor, mana. – Sorriu Diogo.

-Sofia, se fugiste para cá é porque é ao pé do teu irmão que te sentes bem e que achas que serás feliz. E tu precisas de estabilidade e de amor, precisas de te pôr boa. E é agora que eu digo, que ficas melhor aqui. Mas seja qual for a tua decisão, farei tudo para não te voltar a desiludir. Prometo. – Apertou a mão da filha. –Por muito que não goste do Pedro, farei tudo para tentar aceitá-lo na minha família!

Qual será a escolha de Sofia?

Será que vai optar pelo regresso a Espinho? Ou irá continuar a lutar por Pedro?

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Capítulo 6: “Se for para o hospital, tenho medo que chamem os pais”


-Bom dia senhor António. – Respondeu Diogo.

-Bom dia pai. – Mas ao contrário dos rapazes, Sofia nada respondeu.

-Dormiram bem?

-Sim, o colchão até é bastante confortável.

-Também dormi bem, o calor é que me fez demorar a adormecer. – Disse Filipe. –E pai, a Sofia está aqui porque é sonâmbula, é capaz de ter vindo para aqui durante um sonho.

-Por isso é que encostaram a porta, para ela não fugir daqui.

-Sim, foi para te proteger a ti e á mãe.

-Para a próxima então, deixa então a janela aberta para o ar não ficar tão abafado. – Abriu a janela e foi até á porta mais uma vez. –São três pessoas a respirar o ar do mesmo quarto. Mas vá lá meninos, despachem-se que o pequeno-almoço está na mesa. – Saiu do quarto e foi em direção á cozinha.

-Que eu saiba não és sonâmbula.

-Então é porque não sou.

-Então porque dormiste aí? – Sofia podia dizer a verdade, que estava a chorar antes de dormir e Filipe a chamara para se deitar ao pé de si para a animar, mas não queria que ninguém o descobrisse. Apenas Filipe que o descobriu sem querer.

-Porque eu a chamei. Estavas a ocupar a cama praticamente toda e ela quase não tinha espaço para estar deitada. – Respondeu Filipe, mentindo, mas apenas para proteger a amiga.

-É bem capaz, tive sonhos muito estranhos! – Aceitou calmamente Diogo. - Mas vocês aproveitaram para outras coisas não foi?

-Se te disser que não, estou a mentir, por isso prefiro não te responder. – Disse Sofia.

-Se me respondesses que sim, diria que vocês são muito corajosos! Estavam na mesma casa que os pais dele e fizeram! E tiveram coragem para fazer no mesmo quarto que eu! O que vale é que até foram silenciosos. – Sorriram. –Sofia tens o peluche no chão. – Era um dos objetos que tinham mais simbolismo para Sofia, para além do anel presente no dedo anelar da mão direita.

-O peluche chama-se Miguel. – Respondeu friamente.

-Vamos comer? O meu pai já está à nossa espera. – Disse Filipe mudando de assunto.

-Claro! Sofia tens a pulseira no chão. – Afirmou Diogo demonstrando alguma frieza nas palavras, não era pelo simples facto dela ter ou não a pulseira, mas sim porque a irmã e o amigo insistiam em repetir o mesmo erro, mas desta vez, bem próximo do seu “olhar” atento. Ela pegou na pulseira e colocou-a no seu pulso e foram até á cozinha, António estava a preparar as bebidas junto á máquina do café, e Filipe aproximou-se da bancada, para ir preparar torradas. Tinha o corpo despido e estava de costas voltadas para todos, e foi bem visível aos olhos de todos as marcas presentes nos ombros dele. Eram várias arranhadelas, umas mais profundas que outras mas sempre em série de quatro, pareciam ter sido de dois gatos zangados que tinham andado á luta nas costas dele. Mas, mesmo lá no fundo, todos sabiam como tinham surgido aquelas marcas. Mas só poderia ter sido Sofia a fazê-las, apesar de inconsciente. Preferia não acreditar, de certeza que o tinham magoado noutra situação, mas assim como as marcas continuavam presentes, era natural que ainda causassem alguma dor. 
António observou, em simultâneo com Sofia e Diogo,  durante alguns segundos, mas nada disse, simplesmente fingiu não ver. Voltou a virar-se para a bancada e perguntou:

-Alguém quer café? – Diogo e Filipe responderam positivamente e Sofia pelo contrário, optou por beber um copo de leite frio.

-Querem torradas? – Perguntou Filipe ainda de costas para todos, deixando Sofia cada vez mais envergonhada, o irmão olhou para ela que corou e baixou a cabeça. Fingiu levantar-se para procurar açúcar e colocou-se ao lado dele e sussurrou-lhe:

-Vai vestir uma t-shirt, depois explico-te. – Sentou-se á mesa e Filipe foi até ao quarto onde vestiu a t-shirt e rapidamente voltou para a mesa da cozinha, por sorte ninguém lhe perguntou porque o tinha feito. Começaram a comer e algum tempo depois terminaram, Sofia ficou a arrumar a cozinha enquanto António foi embora em direção ao trabalho e enquanto Filipe e Diogo foram-se despachar para ir para o treino. Quando terminaram despediram-se, e Sofia  ficou mais uma vez sozinha.

Tinha de fazer alguma coisa para não começar a pensar demasiado na sua vida, para não chorar com todas as recordações que o coração fazia questão de nunca esquecer, não queria dormir, sentia-se demasiado energética para isso, por isso decidiu fazer algo que não fazia desde que regressara de Espinho, dedicou-se a uma das suas paixões, a escrita.

“Querido Pedro,
Sabes quantas vezes sorri por tua causa? Sabes quantas vezes chorei por não te ter ao meu lado? Deves estar “alapado” no sofá a ver um jogo ou a treinar, feliz, e nem sabes a montanha-russa que se tornou a minha vida, sem ti. Mas deixa-me contar-te tudo o que sinto. Tenho saudades tantas saudades tuas, saudades que nem te passa pela cabeça. Saudades dos nossos momentos, dos nossos beijos e das tuas palavras, saudades do tempo em que viviamos como se fossemos um, porque sem ti, estou incompleta. E por isso mesmo, nem quando estou com outra pessoa te esqueço, meu amor. Tu és a minha vida e a minha única paixão.
E é por te amar como nunca amarei mais ninguém que não desisto de lutar por ti, porque acredito que podemos estar juntos novamente. Podes nunca ler este pequeno desabafo mas serve para mostrar o que sinto por uma das pessoas mais bonitas que conheci até hoje, tu. E nunca me irei esquecer do pequeno ser que desenvolvemos no meu corpo, que aquele homem sem coração, me obrigou a expulsar. E sim, agora estou aqui, em casa, bem próximo de ti, mas ao mesmo tempo tão longe e olho para todos os momentos que passamos juntos, e só com uma palavra que resume tudo o que sinto: saudades! São apenas 7 letras, com 3 sílabas mas muito significado, nunca duvides que eu te amo, como mais nenhuma te ama.
Da mulher que nunca te esquecerá,
Sofia Roch(inh)a “


Perdera já a conta ás vezes que chorou por causa da sua bonita, mas sofrida história de amor, mas era a primeira vez que Pedro a fizera chorar. Nunca duvidara até então que o sentimento era recíproco, mas depois de o ver a beijar aquela rapariga, começou a duvidar dos seus verdadeiros sentimentos. No lugar dele teria esperado, nunca desistiria do verdadeiro amor.

Tinha sido com Pedro o seu primeiro beijo, e foi também com ele que fez pela primeira vez amor, era ele o pai do filho que perdera,  tinha sido ele o seu primeiro e único amor, como poderia simplesmente... Esquecer tudo? Sim, tinha-se relacionado com Filipe, já o assumira a si mesmo e pesara-lhe a consciência, mas nunca esquecera de Pedro, nem por um segundo, enquanto esteve com Filipe.
Limpou as lágrimas que escorriam pelas bochechas e foi tomar banho, para recuperar as forças e sentir “leve” vestiu-se e depois maquilhou-se. Iria lutar por ele e pela felicidade junto de Pedro. Pegou num lápis e começou a desenhar, gostava de o fazer sim, mas não o sabia fazer tão bem quanto Pedro. 
Mais uma vez lembrou-se do sorriso genuíno que ele tinha, um sorriso tímido ao início, mas que começava a revelar-se com o passar dos tempos. Depois de ter o desenho pronto, saiu de casa. Sabia bem o que ia fazer com o desenho, tinha tudo bastante pensado na sua mente. Pedro iria sempre fazer parte do seu coração, iria ser para sempre um exemplo e a história. Ele iria sempre fazer parte do coração de Sofia, e ela iria demonstrá-lo no seu corpo. Tatoou o nome dele. Pagou e regressou a casa.


Esperou pouco tempo em casa pelo irmão que quando chegou lhe pediu para ir até ao carro. Iriam almoçar fora de casa e traziam companhia. Sofia, no seu íntimo, queria que fosse Pedro, queria vê-lo novamente, conversar, mas sabia que o irmão não iria juntar Filipe e Pedro, consigo. Saiu da vivenda enquanto o irmão ficou no seu interior procurando o telemóvel que tinha lá deixado, e olhou para todos os lados, e nem sinal do carro nem de Filipe, nem de Diogo. Voltou mais uma vez a observar a rua e ouviu:

-Soff! – Filipe chamara-a de um carro amarelo que era de todo desconhecido. Ela aproximou-se e olhou para o lugar do condutor, nunca tinha falado com ele, mas sabia quem era. Os dois ambos saíram do carro e Filipe continuou a falar. – Espero que não te importes, mas trouxe companhia para nos ajudar a ver casas. – O rapaz deu uma palmada com pouca força na cabeça de Filipe e disse:

-E apresentares não? – Aproximou-se dela e deu-lhe dois beijos na face. –Bernardo Silva.

-Sofia Rochinha. – Respondeu. – Prazer.

-O prazer é meu e é todo na cama. – Disse Filipe e Sofia corou, claramente dissera aquilo para brincar com o facto de se envolverem, mas ela ficou envergonhada mesmo assim.

-Mas alguém te perguntou alguma coisa Pipinho? – Sofia não conseguiu conter uma gargalhada.

-Pipinho é muito bom! 

-És irmã do Diogo, certo?

-Sim, sou.

-Não são nada parecidos. Mas eu deduzi logo pelo apelido.

-Temos poucas semelhanças fisicamente, isso é verdade.

-Já vi que te deste bem com o meu melhor amigo. – Disse Bernardo.

-Sim, já o conheço há mais de um ano e agora que vivemos juntos ainda nos tornamos mais próximos.

-Pudera... – Disse Filipe em tom de sussurro.

-E como é que consegues viver com este cabeçudo? Só a cabeça dele ocupa meia casa. – Sofia sorriu.

-E partilho quarto com ele, por isso imagina o meu sofrimento! – Sofia começou também a brincar com a situação. – Pelo menos até encontrarmos uma casa para vivermos os três.

-Tem de ser uma casa grande com aquelas duas cabeças. – Filipe limitava-se a não responder.

-E a minha? – Perguntou ela.

-A tua não. A tua é de tamanho normal. – Sorriram. – És mais velha ou mais nova que o Diogo?

-Mais nova, não chega a um ano.

-Então ainda és menor.

-Sim, só faço os dezoito em Março.

-Ele pode ser? – Pronunciou-se Filipe. – Ele é meu melhor amigo, gostava de ter uma opinião dele.

-Pode, mas ele que não conte a ninguém.

-Voltei meninos. – Disse Diogo surgindo e interrompendo a conversa. – Desculpem a demora mas o telemóvel estava bem escondido.

-Não faz mal Diogo, estive aqui a falar com o Bernardo. – Respondeu animada Sofia.

-Nada de tentares nada com a minha irmã, já me basta o Filipe. – Sofia corou, o irmão estava a tentar protegê-la mas também, por vias de facto, a afastar uma das pessoas que a fizeram rir naturalmente, apesar de ter sido durante um curto espaço de tempo. Entraram para o carro sem dizer nada. Começaram o caminho e Diogo perguntou, claramente fugindo a qualquer pergunta indiscreta de Bernardo sobre aquela “relação” de Filipe e Sofia:

-Então e a Clara?

-Clarinha senão te importas. – Respondeu Bernardo sorrindo. –Está no norte. – Respondeu claramente desanimado. – Mas vem cá no fim de semana para matarmos saudades!

-Ela deixou-te mesmo bonito... – Disse Filipe brincando com o amigo.

-Eu já era bonito, mas ela tornou-me ainda mais! Tu estás é com inveja de eu ter alguém que goste mesmo e da nossa relação e tu, parvo não tens porque és parvo e não fazes nada. 

-Mudando de assunto... – Acrescentou Filipe. – Como é que consegues manter uma relação á distância? Quer dizer, não ficas a morrer de saudades dela?

-Sim, óbvio que sim. E não é fácil, é preciso haver muita confiança um no outro e gostarmos ainda mais da outra pessoa. Mas o facto de não estarmos juntos quando queremos, mas sim quando pudemos ainda nos aproxima mais, porque aproveitamos cada segundo como se fosse o último. Claro que preferia tê-la aqui, mas desde que a tenha comigo é o que importa!

-Oh que romântico! – Respondeu Sofia claramente emocionada. – Como é que se conheceram?

-Ela era minha fã, falamos algumas vezes pelo facebook, ela foi ver uns jogos meus, depois conversa puxa conversa e acabou por acontecer. Mas pior foi conversar com o pai dela e explicar tudo, afinal são alguns anos de diferença.

-Há quanto tempo estão juntos? Senão for muito indiscreto perguntar, é claro.

-Sete meses, faz daqui a oito dias. – Respondeu claramente orgulhoso.

-Muitos parabéns Bernardo! – Respondeu claramente feliz por ele. –Se alguma vez precisares de ajuda ou de algum apoio conta comigo!

-Obrigada Sofia! – Respondeu estacionando o carro. – Posso fazer-vos uma pergunta mais indiscreta, Filipe e Sofia?

-Sim... Podes. – Disse Sofia claramente envergonhada.

-Vocês já se envolveram ou estiveram em vias de facto? – Sofia baixou a cabeça sem saber o que responder.

-Depois eu explico-te tudo. – Respondeu Filipe e saíram do carro. –Mas sim, envolvemo-nos.

Foram almoçar juntos a um restaurante conhecido e depois de terminaram, começaram a longa tarde de visitas a potenciais casas. A primeira casa era a ideal para duas pessoas, mas demasiado pequena para três. Tinha apenas uma casa de banho apesar de dois quartos, a renda era bastante acessível, mas não correspondia aos desejos deles. Para além de que, a localização não era a mais agradável, apesar de o centro de Lisboa ser uma boa zona a nível de transportes, era longe da escola de Sofia e do centro de treinos de Filipe e Diogo.

Partiram para a segunda casa, com uma localização mais agradável, bem próxima do Seixal, o que era uma excelente localização para todos. E a casa correspondia aos desejos de todos, não era muito grande, apesar de ter os 3 quartos que desejavam, e as duas casas de banho que pretendiam. Tinha uma agradável sala de estar e a cozinha tinha o espaço suficiente para cozinharem e comerem. Tinha tudo o que precisavam. Mas apenas tinham visto duas casa, tinham de ver mais até tomar a decisão final.

Quando terminaram a visita, todos estavam cansados. Tinha sido um dia muito agitado, principalmente para Sofia e o dia anterior tinha sido igualmente forte tanto a nível físico como psicológico. Que sabia que não se poderia esforçar em demasia, o corpo não conseguia suportar muita exigência. O corpo ainda não tinha acabado de desenvolver, mas também devido ao seu problema de saúde. Começou a sentir uma dor no estômago, que embora fraca começou a aumentar a cada segundo mais e mais. O irmão sabia bem qual era o problema de saúde da irmã e logo que entendeu o seu estado de aflição, segurou-a e perguntou-lhe:

-Sofia os teus medicamentos? – Ela ouvira-o e tentava ao máximo fazer-se de forte, mas as dores tornavam-se agoniantes.

-Eu não os trouxe. – Respondeu com pouca força e coragem.

-Tens em casa? – Perguntou limpado os suores frios que percorriam a testa e as feições de Sofia.

-Não Diogo. Eu não os trouxe... Mesmo. – Respondeu deixando bastante claro que a única possível solução para a sua cura, não era sequer uma opção de momento.

-Como é que eles se chamam, sabes?

-Não.

-Então temos de ir ao hospital. – Disse e pediu a Bernardo para chamar uma ambulância, mas Sofia agarrou na mão do irmão e pediu:

-Não, isto passa. Eu não quero ir para o hospital.

-Sofia temos de ir, senão ainda te acontece alguma coisa mais grave.

-Tu sabes que se for para o hospital, vão chamar os pais. Eu... Não quero. – Depois de dizer estas palavras desmaiou.

Será que Diogo vai fazer o que a irmã lhe pediu?
Ou será que a irá levar até ao hospital? E será que os pais irão descobrir onde ela está?