segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Capítulo 13 “O Pedro e o Filipe estão oficialmente de castigo”



-A minha irmã está a dormir.

-Não precisas de me ir acordar. – Disse Sofia, aparecendo
nas costas do irmão, surpreendendo-o.-Vamos conversar 
para o meu quarto.

Diogo não os impediu, embora preferisse adiar aquela conversa para o dia seguinte respeitou a vontade de ambos e voltou para a cama onde repousava Rita, que o esperava. Sofia sentou-se na cama onde havia estado deitada e Filipe sentou-se à sua frente, mas sem lhe tocar, e sem a olhar, evitava ao máximo fazê-lo para evitar falta de coragem ou para começar a gaguejar em busca das palavras certas.

-Desculpa. – Pediu Sofia nervosa, embora não o 
demonstrasse, ou pelo menos pensado assim. – Eu gosto 
de ti e do Pedro, entendes? De formas completamente 
diferentes mas gosto e quando vos vi naquele estado 
percebi que vos estava a perder e o que fiz foi
completamente errado.

-Sofia, compreendo que gostes dos dois, embora que de
formas diferentes mas o que tu fizeste magoou-me. Não
foi só as marcas físicas que o Pedro me causou, essas
passam, mas sim o caco em que fiquei por causa de
toda esta situação. Sabes o risco que íamos correr caso
o nosso envolvimento chegasse aos ouvidos do Pedro,
sabes que isso ia mudar tudo, mas mesmo assim fizeste.
Porquê? Explica-me apenas porquê. - Pediu já com as
lágrimas a quererem sair dos seus olhos.

-Quando e o Pedro namorávamos e mesmo enquanto
éramos só amigos, nós contávamos tudo ao outro,
nunca mentimos, nem omitimos nada e apesar de tudo,
não conseguia esconder-lhe algo com esta intensidade,
desculpa.

-Tudo mudou Sofia, tudo mudou desde que te foste
embora há um ano. O Pedro sofreu muito, ninguém o
reconheceu durante uns tempos, ele desleixou-se da
escola e até como jogador não parecia o mesmo. A
Matilde apareceu na vida dele e começaram a ser
amigos, ele começou a recuperar e depois tornaram-se
namorados. Compreendo que o amas, mas talvez o
melhor seja esquecê-lo e superá-lo, por muito que te
custe.
-Simplesmente não consigo entendes? - Pediu com as
lágrimas nos olhos. - Eu desapareci. Eu limitei-me a
desaparecer e a magoar todos aqueles que gostavam de
mim, principalmente o Pedro. E custa-me pensar nisso,
ele abdicou de tanto por mim, fez tanto por nós e eu
limitei-me a fugir... Com um filho nosso e acabei por
matá-lo. Eu amo-o e só quero provar-lhe que valeu a
pena amar-me, que eu posso voltar a fazê-lo feliz. - Disse
Sofia chorando incontrolavelmente e Filipe ofereceu-lhe os
braços para poder chorar neles e deu-lhe um beijo na
cabeça.

-Sofia. - Sussurrou. - Tu não abandonaste o Pedro, nem
ninguém, o teu pai forçou-te a fazê-lo, demoraste um ano
a regressar porque de certeza organizaste um plano para
vires, tiveste a juntar dinheiro. Tu não perdeste o vosso
filho, o teu pai forçou-te a fazê-lo. Não chores por favor,
Sofia. Eu gosto imenso de ti e ver-te assim faz-me sentir
terrivelmente devastado.

-Filipe. - Sofia limpou os olhos e aproximou a sua face da do
seu amigo. -Sabes que gosto mesmo muito de ti não
sabes? - Ele acenou positivamente com a cabeça e Sofia 
juntou os seus lábios, num beijo cheio de saudades mas
também de carinho.

-Não Sofia, tu estás carente é melhor não.

-Não seria a primeira vez e tomara que não seja a última.
- Ela sentou-se ao colo dele de frente para ele e cruzou as 
suas pernas sobre o tronco. - Já não sei o que é viver sem 
isto!

Filipe fê-la deitar-se de barriga para a cima na cama e despiu-lhe os pequenos calções do pijama e a t-shirt, começou a beijar-lhe desde a testa até aos pés, passando pelos seus cortes mais profundos, até aos mais superficiais, de ambos os pulsos e das pernas, onde poucos sabiam que ela se havia cortado, e beijou a sua tatuagem com o nome do ex-namorado, magoava-o saber que ele estaria para sempre marcado no seu corpo mas estaria também para sempre marcado na sua vida e ele aceitava-o, tinha de o fazer, o sentimento por ela transpunha isso, ele queria fazê-la feliz, apenas, queria que ela reencontra a felicidade e o rumo diferente para a sua vida, a seu lado. Sofia arrepiara-se... Ninguém lhe havia beijado nos cortes, ninguém aceitara de forma tão surpreendente a bagagem que trouxera do passado, só Filipe lhe dava tudo aquilo que ela queria sem pedir nada em troca, Sofia sabia que aquilo que viviam não era o mais correto e a forma como o tinha na sua vida, e os sentimentos começavam a alterar-se, mas não queria de momento pensar nele, apenas desfrutar de tanta carga sentimental que vivia interiormente e exteriormente.

Filipe alcançou novamente os seus lábios e perdeu-se naqueles lábios que tanto conhecia, aquele momento não eram preliminares, eram pequenos momentos de felicidade e de um culminar de outros sentimentos que não conseguiam descodificar, apenas deixavam-se falar através daqueles gestos. Mais tarde, fora ela que o encostara à parede do seu quarto e sentou-se de frente para ele, cruzando as suas pernas à volta do corpo dele e começou a beijá-lo e a despir-lhe cuidadosamente a t-shirt e mais tarde as calças. Estavam então em pé de igualdade, limitando-se ao mínimo de roupa possível e olharam-se. Para ele, o corpo dela demonstrava em parte a sua vida, todo o seu sofrimento, como os cortes, mas também os seus momentos de pura felicidade, como era Pedro, que estava tatuado no pulso, mas ele era apaixonado pelo seu peito e pelas suas pernas, apesar dos cortes. Enquanto para Sofia, o corpo dele era o ideal. Era magro e tinha o corpo cuidado, apesar de não demasiado musculado, tipicamente desportista, tinha umas mãos lindas que sabiam ser brutas quando assim o pedia, e meigas na maior parte das vezes, bastava Filipe olhar para eles que percebia o que ele sentia ou pensava.

Beijaram-se mais uma vez e despiram as poucas roupas que os cobriam e começar a fazer o que antes chamavam sexo, mas com um misto de emoções diferentes, é certo que atingiram o orgasmo e que viveram momentos de verdadeiro prazer, mas algo distanciava das anteriores vezes, nenhum sabia explicar. Não era amor, nem sexo, era algo entre ambos os sentimentos e ambos adormeceram com um sorriso nos lábios apesar de terem um turbilhão de sentimentos atravessados na mente.

Sofia acordou pouco tempo depois, e olhou para o lado, Filipe estava a dormir mas nem assim abria os abraços para ela sair e o sorriso nos seus lábios era notório. Olhou para o relógio, marcavam as 3 horas da madrugada e ela precisava de descansar até porque no dia seguinte teria aulas. Levantou-se e vestiu a t-shirt comprida de Filipe que estava no chão e foi até à cozinha beber um copo de leite.

-Boa noite cunhada.

-Que susto! - Disse Sofia apanhada desprevenida enquanto caminhava em direção à cozinha. -Que fazes acordada a esta hora Rita?

-Ainda me estou a habituar a dormir acompanhada e como deves saber o teu irmão não é propriamente sossegado a dormir, então ia beber um copo de leite para ver se me acalmo depois de levar um pontapé.

-Então fazemos companhia uma à outra, anda. - Entraram na cozinha e acenderam a luz. - Já vi pela tua cara que apesar dele te estar a dar um mau dormir, tiveste um bom adormecer.

-Assim como tu. - Atirou a cunhada. - Desculpa, não era isto que queria dizer.

-É verdade Rita. E além do mais dá para ver a forma como estamos vestidas. - Ambas estavam apenas com uma camisola de rapaz vestidas.

-Sofia, prometi segredo ao teu irmão, por isso peço-te que não contes a ninguém que te disse.

-Estás-me a assustar.

-O Pedro e o Filipe estão oficialmente de castigo do Benfica. Não podem jogar, nem treinar nas próximas duas semanas.

-Mas eles não tiveram culpa. A culpa foi toda minha. - Disse pousando a cabeça entre as suas mãos.

-Sabes bem que não é. Talvez assim eles aprendam a valorizar-te e tu a eles.

Sofia respirou fundo e bebeu o seu copo de leite.

-Obrigada, mas agora preciso mesmo de descansar. - Deu um beijo na bochecha, sorriu-lhe, pousou o copo de leite no lavatório e foi-se deitar. Pousou a cabeça no peito de Filipe e pouco depois adormeceu, não com um sorriso nos lábios mas sim com a confusão a reinar-lhe a cabeça.

I left a note on my bedpost

Said not to repeat yesterday’s mistakes

What I tend to do when it comes to you
I see only the good, selective memory

The way he makes me feel yeah, gotta hold on me

I’ve never met someone so different

Oh here we go
He a part of me now, he a part of me
So where you go I follow, follow, follow

Oh,oh,oh,oh
I can’t remember to forget you
Oh,oh,oh,oh
I keep forgetting I should let you go
But when you look at me the only memory, is us kissing in the moonlight
Oh,oh,oh,oh
I can’t remember to forget you
Oh, can’t remember to forget you”

Sofia despertou ao ouvir o seu despertador mas a preguiça não permitiu levantar-se logo, a cama estava vazia, Filipe não estava ali e já se levantara há algum tempo. A música continuara a tocar e pensava como aquela música descrevia a sua vida. Não conseguia lembrar-se de esquecer Filipe, ou seria Pedro?!

-Filipe! - Gritou, queria saber onde ele estava, ele levantara-se da cama e não lhe tinha dito nada.

-Diz, pequena. - Abriu a porta do corpo com o corpo e nas mãos trazia o pequeno-almoço preparado num tabuleiro. - Acordei mais cedo e fui preparar o pequeno-almoço para os dois.

-Obrigada! - Filipe sorriu-lhe e ficou-lhe imensamente agradecida pela surpresa. - Não era preciso teres tanto trabalho de manhã.

-Não digas disparates! - Deu-lhe um beijo na bochecha e sorriu.

-Não precisavas de preparar tanta comida, não como assim tanto!

-Não é só para ti, é para os dois tomarmos o pequeno-almoço!

-Como é que sabias que adoro cereais com leite ao pequeno-almoço?

-Confesso que o teu irmão me deu uma pequenina ajuda! - Piscou-lhe o olho.



Como sair da cama depois de um pequeno-almoço assim?”

-Não te importas que partilhe no Twitter e no Facebook?

-Força! Eu também vou partilhar no Instagram e no Facebook.


Os pequenos prazeres da vida logo pela manhã”

-Preparei dois sumos de laranja, dois cafezinhos com leite, porque não sabia o que querias e dois croissants porque eu como um e caso queiras um aqui está.

-Eu como muito pouco pela manhã, mas obrigada! - Deu-lhe um pequeno abraço, sentido mas feliz, ele surpreendia-a todos os dias e fazia-a sentir-se francamente feliz, mesmo com todos os problemas que tinha, que o envolvia, mas também Pedro.

Beberam os leites com chocolate e os sumos de laranja, terminaram os croissants e os cereais e levantaram-se da cama. Sofia decidiu que não deveriam tomar banho juntos, por respeito ao irmão e à cunhada e pediu a Filipe para preparar a sua roupa. Quando chegou, Filipe já tinha ido tomar banho e ela olhou para a roupa que estava em cima da cama, podia ser homem mas sabia bem o que escolher.


Sofia pensou com tantos calções e roupas tipicamente mais frescas de Verão e Filipe optou por escolher algo que cobrisse mais o seu corpo. Sorriu mas acabou por vesti-la, sem se queixar.

Quando terminou de se arranjar, já Diogo e Filipe tinham saído, informaram que iam para o treino, mas ela sabia que o irmão iria, mas o seu amigo iria para sítio incerto, mas respeitou o pedido da cunhada e nada disse, iria fingir que nada sabia. Entrou para o carro de Rita e seguiram caminho até ao Caixa Futebol Campus, ela iria falar com o treinador João Tralhão e explicar toda a situação de violência que afetara a sua vida e a de Pedro e Filipe, iria tentar remediar o mal que havia feito.

Assim que chegou ao local onde o irmão e o amigo tinham treino, percebeu que não iria ser tão fácil quanto pensara e teve de pedir ajuda a Diogo, que conseguiu juntar o treinador e a sua irmã e começaram a conversa. Sofia explicou de quem era irmã e pediu desculpa pelo incómodo e começou a explicar o que a trazia ali.

-Peço imensa desculpa pelo incómodo.

-Não tem mal. O teu irmão falou comigo e disse que querias falar comigo. Em que te posso ajudar.

-Na verdade eu preciso de falar consigo e a partir daí é que sabe se me pode ajudar ou não.

-Se puder ajudar assim o farei.
-Como sabe, ontem o Pedro Rebocho e o Filipe Nascimento envolveram-se numa cena de pancadaria e como também soube, houve um castigo aplicado aos dois.

-Sim, é verdade. Eu próprio apliquei esse castigo.

-Mas na realidade a culpa não é deles, é apenas e somente minha.

-Podes-me explicar se faz favor?

-Comecei a namorar com o Pedro há cerca de dois anos, e há um ano eu abandonei-o. Deve ter percebido porque pelo que sei ele não ficou bem, e acredite que eu também não. Creio que não seja útil, nem interessante para si saber, a verdadeira justificação que me fez fazê-lo. - Respirou fundo. -E ai leva-me até ao ponto principal. Voltei há uns dias e soube que ele namorava, mas na realidade eu continuo a amá-lo e fez-me cometer um deslize. Sei que me vai julgar e há pessoa em questão e até a mim doeu, mas aconteceu e não existe desculpa. Eu e o Filipe envolvemo-nos e o Pedro soube e decidiu reagir. A culpa não é dele, e somente minha.

-Sabes que as coisas não são necessariamente assim. - Respondeu segundos depois, apenas os suficientes para digerir toda aquela história. - O Pedro é uma pessoa com a cabeça no sítio, tem uma maturidade espantosa e o Filipe é um rapaz com os valores e princípios bem definidos, e acredita quando digo que o que eles fizeram não me teria nunca passado pela cabeça. Não são esses os ideias nem deles, nem do Benfica, não foi isso que lhes foi incutido e como tal não posso retirar o castigo, até porque ambos têm culpa e tu também tens, perdoa-me a minha objetividade. Mas compreendo a tua atitude é verdadeiramente de honrar, e vou fazer o que puder para os ajudar, para falar com eles...

-Não! - Interrompeu Sofia, sem deixar que o treinador terminasse o seu pensamento. -Por favor não diga a nenhum deles que falei consigo, peço-lhe por favor.

-Mas eu poderia ajudar, o Benfica poderia dar múltiplas ajudas.

-Pode tentar conversar com eles e chegar a um concesso entre ambos, mas por favor, não lhes diga que falei consigo. O Pedro odiar-me-ia ainda mais.

-O Pedro não te odeia, acredita no que te digo. - Sorriu-lhe. - E o Filipe gosta de ti, de uma forma diferente do que julgas.

-Não quero perder nenhum deles entende?

-Entendo querida, mas a vida vai tratar de te indicar do que é melhor para ti e trazê-lo, embora tenhas de lutar por isso.

-Irei fazê-lo! - Agradeceu com um sorriso. - Desculpe mesmo incomodá-lo mas não me sentiria bem a limitar-me a ficar calada.

-E fizeste bem em vir falar comigo, sentes-te culpada com o que fizeste e tentaste redimir-te e assim como ajudarei os teus rapazes, também te posso ajudar.

-Obrigada. - Despediram-se com dois beijos e saíram daquele local.

João voltou para os treinos e Sofia saiu do centro de treinos, não tinha boleia para casa, por isso teria de ir a pé mas antes tinha de parar numa certa paragem.
Caminhou durante alguns minutos, quem lhe tinha dado aquela morada tinha sido Rita e era altura de a usar, não era tarde, nem cedo. Tinha tratado de melhorar a parte do castigo de Filipe e Pedro, tinha conversado com o seu amigo para lhe pedir desculpa, agora estava na hora de falar com o ex-namorado. A porta da entrada do prédio estava aberta por isso foi só entrar, subiu até ao andar e tocou à campainha.

Será que Pedro vai abrir a porta?
Como será o reencontro depois de Pedro descobrir a verdade sobre a ex e o amigo? Será que haverá uma nova oportunidade na antiga relação deles? 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Capítulo 12 “Tu perdeste o Pedro para sempre”


(Sofia)

-Não posso dizer que estava à espera porque seria mentir... – Reagiu. –Acredito que se estão juntos é porque se amam, e é o que mais importa. O resto fica para trás das costas, o passado fica para trás das costas! – Diogo e Rita ficaram sem reação, de todas as possibilidades que haviam pensado aquela estava longe de qualquer uma.

-Sofia, desculpa todo o sofrimento que te causei. Sei que foi mau e não imaginas o quão arrependida estou, a melhor forma de to provar é fazer tudo para fazer o teu irmão feliz e dar-te a minha amizade.

-Alguém me explica o que se passou? Não apanhei nada... –Queixou-se Filipe.
Sofia acabou por explicar o que se havia passado ao longo de um ano. Rita tinha tornado a vida de Sofia ainda mais infernal no último ano letivo e apesar de ter sofrido bastante por causa dela, acabou por dar o braço a torcer em favor do irmão, se ele era feliz era o que mais importava, iria fazer um esforço. Filipe admirou uma vez mais a atitude dela, estava apaixonado e além de ser a sua melhor amiga, tornava-se cada vez mais a sua fiel companheira, não só de momentos de prazer como de momentos de pura felicidade e amor.

(Pedro)

Pedro abriu a caixa do correio e deparou-se com uma série de cartas. Tudo contas para pagar, era final do mês, desta vez vinham adiantadas, mas uma outra carta lhe chamou à atenção: não tinha remetente, nem um selo, não existia qualquer morada escrita, nem quem a escreva. Podia ser uma ameaça ou qualquer outra coisa menos positiva mas Pedro nunca pensara nisso. Talvez fosse apenas uma fã que lhe escrevera uma carta ou talvez fosse Matilde que o quisera surpreender. Subiu as escadas até sua casa e pousou todas as cartas em cima da mesa da entrada, juntamente com a chave e o telemóvel. A única coisa que lhe ficou na mão era a carta. Sentou-se no sofá e começou a ler:

Querido Pedro:
Faz hoje um ano... Que parti.
Parti sem me despedir ou sem me justificar. E por muito que tente explicar as razões que me levaram a fazê-lo nunca iriam justificar o injustificável. Foi um erro, e acredita que todos os dias me arrependo do que fiz, chorei e choro todos os dias, à noitinha, a pensar no sofrimento que te trouxe e não o merecias.
Possivelmente já me esqueceste... Choro só de pensar nessa hipótese, mas é o melhor que tens a fazer. Como é possível continuar a amar alguém que nos magoa tanto? Alguém que não nos merece e que desaparece? Alguém que não tem maturidade para assumir um erro e aceitar as consequências do que fez? Mas agora estás feliz, é o que mais importa. Estás com alguém que, de certeza, te ama de uma forma incondicional. E que te merece de uma forma que eu nunca merecia, mas assim como aceitaste todos os meus defeitos e lacunas, peço-te para também a aceitares com todos os erros que ela possa cometer. Ela não vai repetir os meus erros. Obrigada por dares mais uma oportunidade ao amor, é um sentimento bonito e que nos faz lutar por tudo na vida. Não somos ninguém sem o amor, assim como eu sem ti, não sou nada. Acredita que apesar da distância que nos separava nunca deixei de te amar.
Tenho de te contar algo, que sei que vai fazer com que não me perdoes, mas não consigo, simplesmente ocultar-te. Quando te abandonei estava grávida. Existia um pequeno fruto do nosso amor. Um pequeno bebé crescia no meu ventre, mas matei-o. Simbolicamente acabei por chamá-lo Júnior, afinal ele era o nosso pequeno. Apesar de nunca lhe ter visto as feições, sei que era parecido contigo, afinal como era possível parecer-se com o monstro que é a mãe?
Quando regressei ao Seixal a primeira coisa que quis fazer foi ver-te e puder perder-me mais uma vez nos teus braços, sentir os teus lábios a tocarem nos meus e ouvir-te dizer, nem que fosse uma última vez: “Amo-te”, mas, por ser tão fraca, não o fiz. E quando te vi a beijar a Matilde pela primeira vez... Senti o chão fugir-me dos pés e acabei por ceder à uma tentação maior. Acabei por me envolver com um amigo nosso, para o proteger, prefiro não dizer o nome dele, e voltamos a repetir. Não sei se foi um erro ou não, mas sei que quando o fazia me imaginava contigo. Era contigo que me imaginava a viver momentos assim, e é contigo que quero voltar a repeti-lo, porque é a ti que amo e prometo que vou lutar para sempre te ter ao meu lado, apesar de saber que estás melhor sem mim. Não me peças para te esquecer porque era como me pedires para viver sem ar.

Amo-te, para sempre.
Sofia Roch(inh)a

Pedro não reagiu nada bem... Amachucou a folha e atirou-a ao chão, agarrou no telemóvel, nas chaves e na carteira, saiu de casa sem pensar ao certo até onde ia, só queria sair e reagir. Só podia ser Filipe, era a única pessoa de quem ela se tinha aproximado à exceção do irmão desde que voltara. Eles tinham que “pagar” pelo que lhe tinham feito sofrer. Entrou no carro com as lágrimas nos olhos e começou a percorrer várias ruas à procura deles. Assim que os viu, estacionou o carro, apesar de o ter feito mal e aproximou-se, em primeiro lugar de Sofia:

-Metes-me nojo! - Disse olhando nos olhos de Sofia, que ficou surpreendida pelo olhar dele. Não demonstrava um enorme vazio, nem amor, demonstrava apenas uma raiva e um ódio que ela nunca tinha visto e que nem ela sentira pelo pai quando ele a obrigara a abortar.
Afastou-se e foi em direção a Filipe:

-Nunca mais me dirijas a palavra!

Ao contrário de Sofia, Filipe reagiu, enquanto Pedro se afastava deles, Filipe agarrou no braço de Pedro e fê-lo voltar-se para si.

-Não podes chegar aqui e fazer isto, estás bom da tua cabeça? – Pedro colocou toda a força que tinha no pulso direito e deu um soco a Filipe, que não se deixou calar e respondeu-lhe da mesma forma.

-Parem! Por favor parem! – Gritava Sofia tentando separá-los e também ela acabava por sofrer na pele aquela violência.

Só acabaram por separar-se quando várias pessoas que passavam na rua perceberam a aflição em que Sofia se encontrava e a luta que existia entre ambos, e quando ela ameaçou que chamava a polícia é que acabaram por se afastar.

-Isto não fica assim, ouviste Filipe? Nunca te vou perdoar teres dormido com a Sofia ouviste? Afasta-te! – Sofia aproximou-se de Pedro tentando explicar o porquê deles terem dormido juntos, mas ele não a deixou tocar-lhe e continuou. –Se gostas de mim, por favor, esquece-me e sai da minha vida.

Sofia afastou-se de Pedro, sem saber ao certo como reagir, ele tinha pedido para sair da vida dele? Tinha-lhe pedido para o esquecer? Porque é que Pedro se haveria exaltado tanto ao saber que ela havia dormido com Filipe?

-Filipe como estás? – Perguntou aproximando-se dele que limpava o sangue que lhe sai-a da boca.

-Porque é que lhe contaste? Podias bem ter evitado tudo isto... – Também Filipe estava magoado com Sofia e ela sentia-se perdida. Deixou ambos afastarem-se de si e sentou-se no chão, aquela dor que preenchia o seu peito era bem maior que a dor física que os cortes que tinha feito nos pulsos lhe fizeram.

-Sim?

-Diogo... – Sofia controlou ao máximo as lágrimas tentando falar por chamada com o irmão.

-Sofia? Tiveste a chorar?

-O Pedro... O Filipe... – Não conseguia dizer uma frase inteira, tentava controlar as lágrimas mas era quase natural elas rolarem pelas suas bochechas como o simples respirar.

-Onde estás?

-Ao pé do Rio Sul.

-Dois minutos e estou aí.

Aqueles minutos que Diogo demorou até chegar próximo da irmã pareciam-lhe horas... Ela sentia-se sozinha e sufocar com a dor, mas havia prometido não se voltar a cortar e ia cumprir. Mas iria ultrapassar mais um momento difícil, podia ter perdido Filipe, mas iria recuperá-lo, assim como iria recuperar Pedro, ela era lutadora e persistente, nunca caminharia sozinha, tinha sempre a família a seu lado, tinha o irmão e agora tinha juntamente com a mãe, o pai.

-Sofia! – Disse Diogo correndo até ela.

-Diogo! – Levantou-se e abraçou-o. O rapaz pegou na irmã ao colo e colocou-a no interior 
do carro. –É melhor ficarmos aqui para pudermos falar mais à vontade, ninguém tem nada haver connosco. – Depois de esperarem alguns minutos, os suficientes para Sofia se acalmar nos braços do irmão, ela decidiu falar.

-O Pedro e o Filipe andaram à porrada.

-Eu sei. E tenho a certeza que foi algo que tinha haver contigo.

-O Pedro sabe que eu e o Pipo nos envolvemos.

-Eu sempre vos avisei que isso não ia correr bem...

-Achas que nós não sabíamos os perigos que corríamos desde o início?! Mas nunca 
esperei que ele reagisse assim.

-Eu provavelmente reagiria da mesma forma, descobrir que um amigo meu, que me viu sofrer por causa de uma rapariga e no final eles andavam a aquecer os pés um ao outro.

-O Pedro não descobriu, fui eu que lhe contei.

-O QUÊ?! – Respondeu Diogo, com vários decibéis acima do normal. –Porquê Sofia? Porquê? Tens noção dos problemas que causaste?

-Eu devia uma justificação ao Pedro, e dei-lha, apenas isso!

-Não Sofia, não foi apenas isso. Tu fizeste com que eles andassem à porrada, tu 
fizeste com que eles fossem castigo, tu fizeste com que dois amigos e colegas de equipa se tornassem inimigos.

-Eu não podia simplesmente ficar calada, não podia omitir isto do Pedro.

-Tu perdeste o Pedro para sempre, depois disto Sofia. – Ficou sem reação possível, o irmão sempre a tinha apoiado e dado forças quando mais ninguém lhe dera, mas aquelas palavras ainda lhe doeram mais que o primeiro soco que Pedro dera a Filipe, até o irmão acreditara que ele desistira de si?!

Diogo entrou para o lugar do condutor e começou a conduzir, Sofia sabia que o mais certo era irem até à sua casa nova, mas existia ainda uma esperança de ir até à casa da família Nascimento, estava de cabeça quente mas não desistia de falar com Filipe, ele também precisava de uma justificação. Mas o irmão decidiu ir até à nova casa e apesar de querer refilar, calou-se, sabia que o irmão, como ninguém, sabia o que era melhor para si. Estacionou o carro na garagem do prédio.

-A Rita está em casa, vai lá ter com ela, eu vou a casa do Filipe buscar as tuas coisas, a partir de hoje mudas-te de armas e bagagens para cá.

-Diogo, eu não queria nada disto, juro, acredita em mim!

-Eu sei, Sofia, mas acidentalmente ou não, acabas por desiludir e magoar.

Sofia saiu do carro com a consciência pesada e com o coração apertado, tinha feito tudo apenas com o intuito de contar a verdade, mas os seus planos sairam-lhe completamente errados, ela acabara por magoar todos à sua volta, inclusivé o próprio irmão. Subiu até à entrada de sua casa e tocou à campainha, esperou alguns segundos e Rita abriu-lhe a porta.

-Minha querida! – Abraçou-a e deu-lhe um beijo na testa. –Que se passou? – Apesar de estar a fazer um esforço para perdoar, esquecer e para começar a confiar em Rita, Sofia simplesmente não estava no dia ideal para o fazer.

-Desculpa Rita, mas vou-me deitar, estou demasiado cansada para falar sobre o que se passou. – Virou costas e foi deitar-se em cima da cama do seu novo quarto, estranhava aquele quarto, aquelas cores e a falta de companhia mas teria de se habituar a viver assim. 

Poucos segundos depois adormeceu.

Passado algumas horas Sofia acordou...

-Afinal o que é que se passou com a tua irmã, Diogo?

-O Pedro descobriu que o Filipe e a Sofia aqueciam os pés um ao outro, digamos.

-Como é que ele descobriu isso?

-Foi a Sofia que lhe contou?

-Sim, faz hoje um ano que eles se separaram e ela escreveu uma carta e contou isso, não entendo porquê, por muito que tente perceber.

-Por um lado eu entendo o que ela tentou fazer...

-Por muito que tente compreender, simplesmente não consigo.

-Diogo. – Fez uma curta pausa. –As raparigas são muito mais sentimentais que os rapazes, enquanto tu estás a pensar com a cabeça e não estás a perceber, eu estou a tentar escutá-la com o coração e estou a entendê-la. – Respirou fundo. – A Sofia sente que ainda está numa relação com o Pedro, até porque ela ainda o ama e como tal, exatamente hoje que fez um ano em que o abandonou, tinha de lhe escrever uma carta a contar tudo. E apesar de não a ter lido, quase que aposto que se culpou por tudo, tanto pelo aborto, como pela fuga, sem nunca acusar o pai e ainda te defendeu. A tua irmã só fez o que o coração lhe disse e não deu ouvidos ao coração.

-E o Filipe insere-se no meio disso? É cabeça ou coração?

-Amor, não sejas tão exigente com a tua irmã.

-Quero o melhor para a minha irmã e estes problemas vão fazer-lhe tudo menos bem.

-Eu sei que te custa ver a tua irmã a sofrer, mas ela assim como tu, vai cair e vai levantar-se! – Sorriu. – As rochinhas são rochas pequeninas, vão ao chão mas não partem, enquanto os Rochinha são pequeninos de tamanho mas grandes de coração, vão ao chão mas não partem, sabias?

-Claro! – Respondeu Sofia aparecendo na sala e juntando-se ao casal. –Sabes Diogo? Qualquer um de nós, pode passar dificuldades, pode passar fases muito más, ou muito boas, mas vamos estar sempre juntos! – Deu um enorme abraço ao irmão e deu-lhe um beijo na testa.

-E a Rita, maninha?

-A Rita já é uma Rochinha, esqueceste-te? – Sorriram, para Rita a partir do momento em que Diogo e Rita começaram a namorar, ela tornara-se parte da família.
Depois de alguma conversa, acabaram por decidir encomendar pizza para o jantar. Todos precisavam de recuperar energias e nada melhor que pizza para colmatar o bicho da fome que se apoderava entre eles. Colocaram a mesa enquanto esperavam que a comida fosse entregue, e mal chegou até casa, desaparecera, tamanha era a fome.
Depois de arrumarem e limparem a cozinha, Sofia foi vestir o pijama e ia deitar-se, precisava de descansar e só a dormir conseguia esquecer toda a confusão que a vida se tornara, mas assim que pousou a cabeça na almofada ouviu a campainha tocar.

-Eu vou lá. – Informou Diogo. Abriu a porta e não tardou a reagir. –Que estás aqui a fazer, Filipe? –Sofia sentou-se na cama surpreendida, mas sem levantar os pés da cama, não iria sair de onde estava, iria esperara para ver o que sucedia.

-Quero falar com a tua irmã. – Respondeu calmamente.

Será que Diogo vai permitir?
Será que Sofia quer falar com Filipe? O que é que ele lhe quererá dizer?