segunda-feira, 20 de abril de 2015

Capítulo 15 “O Filipe mexe comigo”


Sofia prometera a si mesma que não iria contar a ninguém o que se passara entre si e Pedro, iria defendê-lo, iria impedir que as pessoas fizessem juízos de valor sobre a traição que eles fizeram a Matilde. Conhecia-o melhor do que conhecia a si mesma, sabia todos os traços do seu corpo, conhecia-o interiormente como conhecia a palma das suas mãos.
E por isso sabia que, ele não iria ficar bem com o que havia feito, que iria ficar com remorsos e iria querer contar a Matilde mesmo que isso lhe custasse a relação, só para viver melhor com a sua consciência. E isso doía-lhe, apesar de ter sido a melhor “noite” da sua vida, tudo o que havia sido resultado não eram boas sensações, amava-o e aquilo havia sido o mais próximo de amor que havia tido da parte dele nos últimos tempos, mas não poderia perdoar a si mesma. Não sabia se ele (ainda) a amava, não sabia se gostava de Matilde como já havia gostado de si, aquele dia havia sido demasiado confuso para tirar as suas primeiras conclusões.

-Então Sofia? Podes-me explicar o que se passou?

-Rita, não te consigo explicar o inexplicável.

-Conta-me tudo o que se passou e o que sentiste.

Sofia respirou fundo. Talvez Rita não a fosse julgar, nem a Pedro, talvez o melhor mesmo fosse desabafar e a opinião de um terceiro a ajuda-se a descodificar e a lidar com todos os sentimentos.

-Toquei à porta e ele abriu-me, e começou logo a dizer que se era para pedir desculpa podia voltar para a beira do Filipe, eu pedi para entrar e fomos até à sala e ele disse que não precisava de explicar nada, que nós não éramos nada e eu defendi-me, eu amo-o e depois de tudo, recuso-me pensar que agora tudo desapareceu, e ele disse-me que sofreu muito por me perder, por eu o ter abandonado, e que o que mais lhe doeu foi a minha carta, e o meu coração desfez-se por completo, Rita. Falou-me do que sentiu quando soube que eu e o Filipe nos envolvemos e do nosso filho e da morte dele, acusou-me de o ter enganado e disse que me amava e acusou-me de nunca o ter feito...

-E tu?

-Defendi-me. Disse uma asneira e disse que o amava, no presente, agora e aí voltei a ver no olhar do Pedro algo que vejo no olhar do Filipe, eu vi desejo, pode parecer estranho mas foi isso mesmo, e eu disse-lhe que também o desejava. Ele aproximou-se de mim e beijou-me com desejo e vontade, e eu só conseguia pensar na Matilde e perguntei-lhe, e ele disse que só queria saber de nós. Sofia, aquilo, foi a melhor noite de amor que alguém alguma vez me deu, eu fui multiorgásmica, aquilo foi “a” noite, se alguma vez terei filhos será de algo assim!

-Tu usaste preservativo certo?

-Não, mas não têm problema que não estou no período fértil.

-Diz-me que tomas a pílula.

-Não, nem nunca a tomei.

-Tu tens noção que pode neste momento estar a formar-se um bebé dentro de ti não tens?

-Não estou grávida, confia em mim, mas continuando... A Matilde mandou mensagem preocupada e percebeu que não estava bem e... E …

-E?

-Acabamos por ir almoçar juntas.

-Tu foste almoçar com a rapariga a quem tinhas acabado de meter um valente par de cornos?

-Não punha a situação nesses termos...

-Sofia, isso foi o golpe mais baixo que te vi dar até hoje.

-Esqueceste-te que fui para a cama com um grande amigo do meu ex-namorado.

-Mas isso é diferente! Isso aconteceu e quando olhas para o Filipe é fácil perceber!

-O que queres dizer com isso?

-O Filipe não é um deus grego porque é português!

Sofia não conseguiu conter o riso, realmente Filipe era realmente bonito, mas aos seus olhos nada era mais bonito que Pedro.

-O Pedro é melhor!

-São opiniões, meu amor, para mim o melhor é mesmo o teu irmão, mas tu tens olho para a coisa não haja dúvida!

-A minha cunhada é uma tola! - Sorriram. - Mas a visita da Matilde não durou muito, eu não sabia como lidar com ela e como não poderia desabafar combinado juntarmo-nos outro dia, mas eu vou atrasá-lo o quanto mais puder melhor. E o mais estranho de tudo e me fez sentir tão estranha foi que depois de fazermos amor adormecemos e quando acordei ele estava a vestir-se e disse-me tal e qual assim “a tua roupa está na casa de banho, podes tomar banho mas despacha-te que o Raphael deve chegar daqui a pouco tempo”, e sabes como eu me senti? Senti-me usada, inútil e burra.

-O Pedro disse-te isso?

-Sim.

-Bem... - Rita ia começar a falar mas Sofia lembrou-se que não havia contado tudo.

-Espera, ainda há algo que não te contei. Eu estava na praia onde eu e o Pedro começamos a namorar e ele apareceu vindo não sei de onde, e sentou-se à minha beira, ficamos em silêncio durante algum tempo e ele perguntou-me porque me tinha envolvido com o Filipe e eu não respondi, não sabia o que lhe dizer e ele insistiu e eu disse que estava carente, tinha acontecido e disse que o amo e ele disse que também me amava mas a dor que lhe deixei era maior que o amor que sentia por mim. Eu devia ter morrido Rita, eu devia ter morrido quando me tentei matar na praia em Espinho, quando me tentei matar a cortar-me.

-Tu não ouses voltar a dizer um disparate desses ouviste Ana Sofia? - Ergueu o tom de voz e utilizou os dois nomes. -Achas que não fazes falta? O teu irmão ama-te, tu és a mulher da vida dele, a menina dos olhos dele, mesmo que ele não o demonstre muito. Tu e o teu irmão são a vida dos teus pais e ias levar a vida deles contigo se partisses, eu sei que fiz muita porcaria contigo mas és alguém importante para mim, és a minha cunhada, és uma amiga, uma confidente, quanto aos teus rapazes, eu não queria dizer-te isto mas tu obrigaste-me. O Filipe gosta de ti, de uma forma que nem imaginas, e o Pedro? O Pedro pode dizer o que quiser, mas as atitudes dele vão sempre provar o óbvio, que te ama.

Aquelas palavras atravessaram que nem uma flecha no coração de Sofia. Ela era muito mais importante para aquelas pessoas do que pensava.

-O Pedro ainda me ama? - Foi a única coisa que conseguiu dizer.

-Sofia eu não o conheço bem, não sei dizer, nem justificar tudo aquilo que ele fez e faz, mas posso ver tudo de uma perspetiva diferente, tentei evitar dizer-te isto para não te alimentar falsas esperanças, mas tu tens e mereces saber. O Pedro gosta da Matilde, acredito que uma pessoa para estar com outra, tem de gostar o mínimo que seja, mas é necessário haver algum sentimento, mas ele ama-te é a ti, senão porque a teria traído? Logo aí prova que não a ama, e a tê-lo feito contigo significa que nunca te esqueceu.

-Já não sei o que pensar. Eu amo o Pedro, como nunca amarei ninguém, ele está para sempre comigo, no meu coração, mente e até no meu corpo. - Apontou para a tatuagem com o nome do rapaz no pulso. -E não acreditas o quanto me vai magoar dizer isto, e que isto mexe com todo o meu interior, sinto-me a trair o Pedro, e serás a primeira e única pessoa a saber isto. O Filipe mexe comigo. Não te sei explicar bem, nem como o dizer, mas ele mexe comigo.

-Não te vou dar na cabeça, descansa. - Sorriram. -Basta e bem o teu irmão. Mas já sabes o que vai fazer em relação... - Não sabia como o pronunciar. - A isso?

-Nada. Sei o que sinto pelo Pedro e quero voltar a ter uma oportunidade com ele, hoje tive a prova que ele não está verdadeiramente feliz com a Matilde e eu sou a chave para a felicidade dele, vou sempre preferi-lo ao Filipe. E antes de fazer o que quer que seja, vou passar-me por água e esvaziar a banheira que já está a ficar frio e quero ajudar a fazer o jantar.

Rita saiu da casa de banho e começou a ir preparar o jantar enquanto a cunhada vestia-se, mal terminou foi ajudá-la.

-Falaste com o Pipo hoje?

-Sim, um pouco antes de vir para casa, ele disse que não vinha jantar e não sabia a que horas chegava.

-Acreditas que ficamos de almoçar juntos e ele mandou-me uma mensagem a cancelar e não disse nada até agora? Supostamente eu não sei que ele está castigado.

-Não compreendo o Filipe.

-Eu não compreendo os rapazes, que é bem pior.

Ambas sorriram e passado alguns minutos chegou Diogo e juntos jantaram.

-Eu levanto a mesa, vão lá ver um filme.

-Tens a certeza? - Perguntou a cunhada.

-Claro! Depois vou-me deitar e escrever alguma coisa.

-Obrigada Sofia! - Deu-lhe um beijo na bochecha.

-E está descansada que já preparo as pipocas e uns sumos para vocês, por isso não comecem já a treinar os meus sobrinhos! - Rita limitou-se a sorrir e a ir até à sala onde o seu namorado já a esperava.

Sofia colocou os fones nos ouvidos e começou a dançar ao som da música enquanto arrumava a cozinha e preparava os petiscos para o casalinho, quando terminou foi levar-lhos e interrompeu um beijo entre eles com o fingir de tosse, deu-lhes o que havia prometido e foi até ao quarto onde não tardou a vestir o pijama e começar a escrever.

Querido Pedro,
Amar alguém é quando somos capazes de dar uma vida pela outra pessoa, quando colocamos a felicidade da outra à frente da nossa, quando nos tornamos transparentes aos olhos de quem amamos. É estar presente na mente da outra pessoa, passe o tempo que passar, e continuar a amar, mesmo que nos tenham magoado profundamente. Foste tu que me ensinaste isto, foste tu que me ensinaste o que era amar-te, foi por tua causa que o vivi e sinto-o a arder no peito, todos os dias, em todos os momentos.
Estás com a Matilde e queria acreditar que estavas feliz, queria provar a mim mesma que estavas feliz, sem mim, mas hoje provaste-me que não é realidade. Mesmo que já não me ames, não amas a Matilde como me amaste a mim, sempre me disseste que quando amamos somos incapazes de trair e tu fizeste-o. Comigo. E digo-o e repito, se houve momento em que não tive dúvida absoluta do que sentia por ti e queria lutar por nós, foi quando o fizemos. Não foi apenas amor, nem sexo, foi a união de dois corações que estavam separados, foi o momento em que deixou de existir um passado e um futuro, para haver um esquecimento da razão e da lógica, para afastarmos os passados do presente, que damos pelos nomes de Filipe e Matilde para apenas nos concentrarmos no presente, no momento em que deixou de haver uma Sofia e um Pedro, mas um nós.
Sempre foste um livro aberto para mim, sempre conheci todos os traços da tua personalidade e do teu corpo e depois do dia de hoje sinto que tudo mudou, nunca acreditei que eras capaz de fazer isto, não apenas a mim, mas à Matilde, e ao fim ao cabo, magoares-te, porque a dor dos remorsos irá atormentar-te até ao último segundo e irá prosseguir-me sempre. Sei que foi um erro teres traído a Matilde, mas será que foi um erro envolvermo-nos, esquecendo tudo o resto?

Amo-te para sempre,
Sofia Roch(inh)a”

Pousou a carta sobre a sua mesa de cabeceira e olhou para as duas molduras que ali estavam presentes. Uma com Filipe e outra com Pedro.

Aquela fotografia havia sido tirada recentemente por ela e Filipe havia-lhe dado e emoldurado, na parte de trás da fotografia podia ler-se o que ele tinha escrito:


A amizade é um amor que nunca morre”

Filipe escolheu aquela frase como poderia ter escolhido tantas outras, mas porque optara por aquela? Era uma pergunta para a qual Sofia não tinha resposta. E pode reparar na outra fotografia emoldurada que tinha ao lado da anterior:


Aquela havia sido uma surpresa que Pedro lhe havia feito. Tinham-se desentendido porque ele tinha feito uma crise de ciúmes por causa de Filipe, e passado um ano, eles haviam-se envolvido, a vida era demasiado curiosa por vezes. E Pedro preparara-lhe esta surpresa para lhe pedir desculpa e foi a partir daquele dia que a relação dele tornara-se magnífica e mágica.

E na parte de trás da fotografia e da moldura que Pedro lhe havia dado, poderia ler-se:

It's not a bird,
Not a plane,
It's my heart and it's going gone away”

Aquela música descrevia o que era amar, porque deste o início que gostavam muito um do outro, mas foi com o tempo que descobriram e começaram a amar-se, mesmo que a tenra idade fizesse muitos duvidar do que sentiam, até mesmo os que viam que existia algo único entre ambos. Não conseguiu deixar de deitar uma lágrima teimosa, abraçou-me à moldura que Pedro lhe havia dado e adormeceu abraçada a ela.

Acordou de manhã antes do seu despertador tocar, e espreguiçou-se, sentia-se feliz e bem-disposta, estava disposta a lutar pelo que queria e ao contrário de outros dia sentia uma nova esperança apoderar-se de si, a sua história de amor não tinha acabado, estava longe de ter terminado. Levantou-se da cama e foi em direção à casa de banho quando viu uma rapariga sair do quarto de Filipe com uma camisola dele vestida, caminhava até à casa de banho e apenas queria dizer algo. Eles tinham dormido juntos. Assim que a rapariga fechou a porta da casa de banho correu até ao quarto de Filipe, onde ele estava sentado de lado na cama e empurrou-o com os braços, extremamente enervada e revoltada, mas acima de tudo magoada e desiludida, depois do que haviam falado na noite anterior, ele atrevera-se a ir para a cama com a primeira rapariga que lhe aparecera à frente.

-Como foste capaz de me magoar desta maneira sabendo melhor do que ninguém por tudo o que tenho passado?

Dito isto Filipe puxou-a para si e beijou-a.

Porque terá Filipe beijado-a?
Como irá reagir Sofia? Como ficará a história da rapariga com os seus “dois rapazes”? 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Capítulo 14 “Nunca o errado soubera tão bem”



Para Sofia o tempo parou. Várias hipóteses passaram-lhe pela cabeça naqueles segundos em que esperava por uma resposta do outro lado da porta. Talvez Pedro nem tivesse em casa, talvez nem abrisse a porta, talvez fosse Matilde a abri-la e se assim fosse, não saberia como reagir. Pedro abriu a porta e os olhares cruzaram-se, pela primeira vez desde que houvera o momento de conflito entre ele e Filipe e nenhum deles se mexeu, parecia nada ter mudado naquele ano.

-Se é para pedires desculpa, podes voltar rapidamente para junto do Filipe. - Pedro contradizia-se, com os olhos demonstrava amá-la e com palavras demonstrava um enorme desprezo.

-Posso entrar? - Sofia queria pedir-lhe desculpa e ter a oportunidade de falar com ele mas não queria partilhá-lo com todos os moradores dos prédios.

-Entra. - Desviou-se da porta e Sofia entrou e fechou-a, seguiu-o até à sala e sentou-se num sofá enquanto Pedro sentou-se de frente para ela, mas no chão. - Não precisas de me explicar nada Sofia, não me deves satisfações. Nós não somos nada.

-Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas?

-É a realidade! - Respondeu sem erguer o tom de voz, com uma calma arrepiante. Levantou-se e dirigiu-se a ela. - Sabes o que sofri por te perder, o que sofri quando me abandonaste? Tu não imaginas! - Os olhos deles transmitiam um sentimento que ela não conseguia traduzir, ela pensava que o conhecia como ninguém mas iludira-se. Tirou a mão do bolso e ergueu a carta já amachucada. - A tua carta foi o que mais me doeu! - Disse com as lágrimas nos olhos. - Sabes o que senti quando percebi que o Filipe te andava a comer? E que tiveste um filho meu e te limitaste a matá-lo, como queres que reaja? Depois de tudo o que vivemos, tu limitaste-te a enganar-me a dizer que me amavas quando nunca chegaste a saber o que era isso!

-Fodasse Pedro, eu amo-te! - De repente Pedro olhou para ela e o seu olhar mudou. - Eu também te desejo. - Respondeu.

Pedro percorreu o caminho até Sofia com o desejo marcado no seu olhar e assim que estava à distância suficiente beijou-a com toda uma série de sentimentos que os unia, ela cruzou as pernas no seu tronco e entre momentos encostou-a à parede.

-Pedro. - Disse entre beijos. - E a Matilde?

-Neste momento não quero saber dela, nem do Filipe. - Voltou a beijar Sofia e ela não hesitou, iria sentir remorsos mais tarde mas naquele momento queria apenas desfrutar do momento. Era errado, ambos sabiam mas nunca o errado soubera tão bem.

As mãos de Pedro começaram a tocar na pele de Sofia, e a querer explorar todos os detalhes daquele corpo que tão bem conhecia mas que se modificara no último ano, não a queria apenas porque a desejava, era muito mais que isso. Queria voltar a sentir o corpo dela, o seu perfume, queria tocar-lhe e sentir-se amado, queria ser dela e ela seu, nem que fosse uma ilusão, mas queria que fossem um só, nem que fosse por minutos. Caminharam entre beijos e carícias até ao quarto, onde Pedro pousou-a na cama e deitou-se sobre ela, desapertou-lhe o soutien e ele começou a beijar-lhe nos seus pontos fracos, onde sabia que ela não conseguia resistir, onde ela gostava de ser beijada e ele tão bem os conhecia. Emocionalmente e fisicamente podiam ter mudado durante aquele último ano mas havia certas características que nunca mudariam e o sentimento parecia não ter mudado. Pedro tirou do corpo da Sofia a última peça de roupa e Sofia ia tirar a sua mas lembrara-se.

-E o preservativo? - Pedro não parou de a beijar e continuou com a investida.

-Esquece! - Suplicou Pedro e tomou os seus lábios e ele próprio tirou a última peça de roupa que tinha no corpo e começou a invadir o corpo de Sofia. Não era apenas sexo, aquilo era amor e cada momento era mágico, ambos sabiam que não era o mais correto mas era o que precisavam e mais tarde haveriam de lidar com o arrependimento.Cada energia que possuíam foi gasta naqueles momentos de prazer, foram dados beijos, beijos apaixonados, beijos de saudades, beijos de amor, de carícia e carinho, foram trocados mimos como não trocavam há demasiado tempo. Aquele momento parecia o culminar de todo aquele ano, de todos os sentimentos bons e maus, era um momento único e apenas deles. Cada um deles sentiu prazer como nunca havia sentido na vida e gritaram, gemeram e aproveitaram aquele momento como se fosse o último e como se fosse daquilo que dependesse a vida de ambos. Gritaram, afinal como poderiam não dizer o nome da pessoa de quem mais gostavam? Nada mais importava, apenas queriam aproveitar aquele momento de prazer, nunca se lembraram de Filipe ou Matilde.

Passado cerca de uma hora, Sofia despertou e sentiu a cama fria e vazia, sentou-se na esperança de saber onde estava Pedro e pode observá-lo a vestir as calças, observando o seu tronco ainda despido, conhecia aquele corpo e acabara de ser seu, conhecia todas as particularidades do seu corpo e amava cada uma delas. Sofia começou a pensar nas palavras certas para pronunciar, mas foi interrompida.

-A tua roupa está na casa de banho, podes tomar banho mas despacha-te que o Raphael deve chegar daqui a pouco tempo.

Nada mais magoara Sofia, sentia-se usada. Sentia-se verdadeiramente uma prostituta, tinha ido até ali só para lhe dar um momento de prazer depois fingiram que nada se havia passado, era verdade que tudo começara por causa dela. Tinha sido ela a deslocar-se até ali e tinha sido a autora da frase “eu também te desejo”, não esperava que tudo ficasse bem e que tudo fosse apagado e esquecido mas não esperava... O que sucedera. Tomou um banho rápido, vestiu-se e encaminhou-se até à porta da entrada, Pedro seguiu-a e já na porta ia dizer o quanto havia sentido a sua falta e o quanto o amava e que nunca o tinha esquecido, mas ele limitou-se a fechar a porta e sem dizer mais uma palavra. Sofia ficou estática, em frente à porta, talvez à espera que ele a reabrisse mas ele não o iria fazer e ela sabia disso, por isso acabou por sair em direção a rumo incerto.

Tinha combinado com Filipe encontrarem-se à porta da sua escola, por volta da hora da saída, não tinha sido apenas ele a contar-lhe uma mentira, ela também dissera que iria para a escola mas não o fez e ele limitou-se a cancelar. Não lhe telefonou a justificar-se, mandou apenas uma mensagem a cancelar, será que os rapazes com quem se envolvera gostavam de a magoar? Não queria telefonar a Diogo, ele ficaria terrivelmente magoado e até a podia perdoar, mas iria afastá-lo ainda mais de Pedro, Rita estava ocupada a tratar da inscrição na sua faculdade, não tinha a quem recorrer, não tinha um amigo a quem pudesse confiar, sentia-se sozinha como se havia sentido naquele último ano em Espinho. Podia sempre ligar ao pai, mas ele iria preocupar-se desnecessariamente e o mais certo seria avisarem o seu irmão e eles viajarem até ao Seixal no próprio dia só para a animarem, mas mesmo assim decidiu correr o risco.

-Olá meu anjo! - Disse o pai depois de dois toques no telemóvel.

-Olá meu amor! - Respondeu tentando fingir que estava feliz ou pelo menos... Bem, mas na verdade ela não sabia bem como me sentia, era um misto de sentimentos contraditórios no seu coração, quem diria que seria tão difícil descodificar sentimentos?

-Que se passou? Sabes que sou uma besta e não mereço nada, mas amo-te acima de tudo e tudo o que faço é para te proteger. - Com estas palavras Sofia teve a certeza que não deveria contar nada ao pai, ele nunca iria perdoar Pedro e iria repudiar Filipe.

-Não és uma besta nada, tomaste más decisões, todos nós cometemos mas é apenas, uma dádiva de alguns, arrependerem-se, como tu disseste, amas-me e apenas fizeste o que fizeste com a intenção de me proteger! Eu nunca deveria ter dito que te odeio e disse e estou arrependida e se pudesse voltava atrás.

-Se há coisa que me orgulho é de ti e do teu irmão, foram o melhor trabalho que eu fiz! Tu és uma mulher extraordinária, ainda nem os 18 anos tens e já tens uma maturidade impressionante, tu perdoaste-me logo que te pedi desculpa e isso arrepiou-me.

-E por ter uma família tão boa que sou como sou, pai! - Sofia sorriu. - O Diogo já te disse que alugou uma casinha para nós?

-Sim, já me mandou fotografias e tudo, mas vê lá se o convences a aceitar o dinheiro das tuas despesas, aquele rapaz é teimoso!

-Eu falo com a Rita de certeza que ela lhe sabe dar a volta!

-Quem e é a Rita? O que me está a escapar?

- Ups.. Parece que falei demais.

-Estou a brincar, o teu irmão está apaixonado, com a quantidade de vezes que o teu irmão me falou dela, já a conheço tão bem como qualquer um de vocês! Ela gosta muito dele, Sofia?

-A Rita abdicou da faculdade no Porto e da vida que ai tinha para estar mais próxima do Diogo, acho que isso diz tudo!

-Ela tem o nome daquela rapariga com quem não te davas o ano passado...

-Ela é essa rapariga, pai.

-Tu vives com essa rapariga? Tu vives com a Rita?

-Sim, ela pediu-me desculpa e está arrependida, agora até somos amigas.

-Porque não consegues parar de me surpreender?

-A culpa é da família! - Riram-se.

-Tenho dois pedidos para te fazer. - Fez uma curta pausa. - A primeira é que te queria sugerir a vires passar o fim de semana aqui com os teus pais.

-Vou pensar nisso, mal decida dou-te uma resposta!

-Ótimo! Eu e a tua mãe estamos a morrer de saudades, e o teu irmão tem jogo no sábado vinha no domingo e estávamos todos juntos mais uma vez. - Rita sorriu, queria estar com a família, queria sentir o espírito familiar que não sentia desde que estivera internada no hospital. - E queria saber a tua morada, não é para uma surpresa ai, simplesmente tenho uma coisa que te pertence.

-O quê pai?

-O Pedro mandou-te uma carta poucas semanas depois de saíres dai e eu nunca ta dei, acho que tens direito a lê-la, e não a abri nem a irei ler, quero que a recebas e a leias.

-Vou mandar-te por mensagem.

-Está bem filhota, amo-te!

-Também te amo pai!

-Fico à espera da tua resposta quanto à viagem e à carta. 

-Sim, senhor! Beijos

-Beijos.

Desligaram a chamada e Rita tratou de enviar a mensagem ao pai com a sua morada e deparou-se com outra mensagem, desta vez de Matilde. Será que Pedro lhe havia contado do que se passara entre ambos? Não podia, Pedro havia-a traído sim. mas não a iria magoar contando naqueles curtos minutos de intervalo o que se havia passado, e Sofia não sabia se havia de dizer a alguém o que se havia passado ou se deveria ficar calada, talvez devesse manter segredo, era o melhor assim era a única magoada com ele.

"Olá princesa! Está tudo bem? Estou preocupada contigo, não foste as aulas e não me avisaste. Sabes que podes contar comigo linda! Beijinhos Matilde Varela :) "

Sofia não sabia o que responder, Matilde estava direta e indiretamente ligada a todos os seus problemas, havia sido extremamente querida e simpática, mas se ela não tivesse chegado à vida de Pedro, reconquistá-lo não seria tão difícil.

"Olá linda! Infelizmente não está... Criei conflitos e tentei resolvê-los hoje mas acho que piorei a situação :/ "

Sofia não tardou em responder.

"Tens planos para o almoço e para a tarde? Não vou estar com o Pedro e pudemos aproveitar para nos conhecermos melhor e desabafares! Aproveito e ensino-te o que demos hoje na aula"

Acabaram por encontrarem-se e Sofia sentia necessidade de falar mas não conseguia fazê-lo com Matilde. Como haveria de lhe dizer que estava assim por causa do seu namorado? Que ela havia sido traída por sua causa? Matilde acabou por respeitar o espaço de Sofia e depois do almoço foi embora. Que aproveitou para ir até à praia que havia servido como palco para tantos momentos marcantes na sua vida. Tinha sido no mar que se havia tentado suicidar, tinha sido no areal que tinha vivido momentos íntimos com Filipe, numa das primeiras vezes, e tinha sido exatamente naquela praia que começara a namorar com Pedro. Sentou-se no areal e tirou da sua mala um papel e uma caneta, e ia começar a escrever sobre aquele dia, mas Pedro sentou-se ao seu lado e desistiu. O silêncio apoderara-se dele, mas o ambiente estava calmo. Não pareciam dois ex-namorados, nem duas pessoas que haviam tido momentos loucos e prazerosos de amor, estranhamente pareciam dois... Amigos. Observavam o mar lado a lado e ela perguntava-se se o amor falava com eles, afinal também ele estava calmo.

-Porque te envolveste com o Filipe?

Sofia não sabia o que responder, não havia resposta certa nem errada, não haveria apenas uma justificação que surgisse na sua mente a pensar nisso, por isso optou por deixar que o silêncio fala-se por si.

-Por favor Sofia, diz-me.

Sofia respirou fundo, preparando-se para responder.

-Sei que não é desculpa mas estava carente, deixei-me levar. - Pedro nada respondeu, doía-lhe conversar sobre o seu passado. Não o conseguiria fazer sem chorar, ela limitara-se a abandoná-lo e a trai-lo com um grande amigo seu, tinha morto um bebé e tinha-lhe dito tudo isto... Numa carta. Sofia sempre dissera que o amara, e ele acreditara sempre que estiveram juntos, mas desde que se ela o deixara, começara a duvidar.

-Eu amo-te Pedro.

-Eu também te amava, mas a dor que me deixaste é maior que o amor que sentia por ti.

Pedro levantou-se e deu um beijo na testa de Sofia e foi-se embora. Aquele momento era estranho e nenhum deles sabia o que sentir e o que pensar. Ele sentia-se feliz porque além de si, Sofia apenas se havia envolvido com Filipe e havia sido recentemente, ela continuava a amá-lo, isso fazia-o estranhamente sorrir... Tinha traído Matilde mas fizera amor com Sofia, de uma forma louca, apaixonada e com total entrega. 
Para Sofia a situação era estranha e diferente. Vivera momentos inesquecíveis com Pedro, sentira-se amada como nunca se havia sentido desde que o abandonara, mas também se sentira desprezada, ela sentira-se usada quando acabaram de o fazer. Sentira-se enganar Matilde, que havia sido sua amiga, tinha desperdiçado uma oportunidade de esclarecer tudo com Pedro mas não conseguia contar-lhe toda a verdade, não iria prejudicar o pai, mesmo que para isso saísse ela lesada. E Filipe deixara-a sozinha, quando ela mais precisara, sem uma única justificação. Apanhou um autocarro e foi até casa, despiu-se e entrou no chuveiro, deixou a água correr e aproveitou para fazer espuma. Precisava de um banho, de mudar as suas ideias, ou clarificá-las. Tirou uma fotografia e partilhou nas redes sociais:


Não há nada como um banho relaxante depois de um dia cansativo”

Sofia acabou por pousar o telemóvel e desligar a música, não queria escutar nenhuma música, queria apenas escutar a sua mente mas viu a porta da casa de banho abrir-se e assustou-se.

-Diz Rita.

Rita entrou para a casa de banho e encostou a porta, sentou-se e observou-a.

-Como não ouvi barulho e parecia que alguém se tinha esquecido da luz ligada vim aqui dentro, nem dei por ti desculpa, mas vou-me já embora. - Ia a sair novamente da casa de banho quando se deparou com algo que a fez voltar atrás. - Que chupão é esse no teu pescoço? Sofia, é aquilo que estou a pensar?


O que irá responder Sofia?
Será que vai contar a verdade? Porque terá Filipe desaparecido durante o dia? 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Capítulo 13 “O Pedro e o Filipe estão oficialmente de castigo”



-A minha irmã está a dormir.

-Não precisas de me ir acordar. – Disse Sofia, aparecendo
nas costas do irmão, surpreendendo-o.-Vamos conversar 
para o meu quarto.

Diogo não os impediu, embora preferisse adiar aquela conversa para o dia seguinte respeitou a vontade de ambos e voltou para a cama onde repousava Rita, que o esperava. Sofia sentou-se na cama onde havia estado deitada e Filipe sentou-se à sua frente, mas sem lhe tocar, e sem a olhar, evitava ao máximo fazê-lo para evitar falta de coragem ou para começar a gaguejar em busca das palavras certas.

-Desculpa. – Pediu Sofia nervosa, embora não o 
demonstrasse, ou pelo menos pensado assim. – Eu gosto 
de ti e do Pedro, entendes? De formas completamente 
diferentes mas gosto e quando vos vi naquele estado 
percebi que vos estava a perder e o que fiz foi
completamente errado.

-Sofia, compreendo que gostes dos dois, embora que de
formas diferentes mas o que tu fizeste magoou-me. Não
foi só as marcas físicas que o Pedro me causou, essas
passam, mas sim o caco em que fiquei por causa de
toda esta situação. Sabes o risco que íamos correr caso
o nosso envolvimento chegasse aos ouvidos do Pedro,
sabes que isso ia mudar tudo, mas mesmo assim fizeste.
Porquê? Explica-me apenas porquê. - Pediu já com as
lágrimas a quererem sair dos seus olhos.

-Quando e o Pedro namorávamos e mesmo enquanto
éramos só amigos, nós contávamos tudo ao outro,
nunca mentimos, nem omitimos nada e apesar de tudo,
não conseguia esconder-lhe algo com esta intensidade,
desculpa.

-Tudo mudou Sofia, tudo mudou desde que te foste
embora há um ano. O Pedro sofreu muito, ninguém o
reconheceu durante uns tempos, ele desleixou-se da
escola e até como jogador não parecia o mesmo. A
Matilde apareceu na vida dele e começaram a ser
amigos, ele começou a recuperar e depois tornaram-se
namorados. Compreendo que o amas, mas talvez o
melhor seja esquecê-lo e superá-lo, por muito que te
custe.
-Simplesmente não consigo entendes? - Pediu com as
lágrimas nos olhos. - Eu desapareci. Eu limitei-me a
desaparecer e a magoar todos aqueles que gostavam de
mim, principalmente o Pedro. E custa-me pensar nisso,
ele abdicou de tanto por mim, fez tanto por nós e eu
limitei-me a fugir... Com um filho nosso e acabei por
matá-lo. Eu amo-o e só quero provar-lhe que valeu a
pena amar-me, que eu posso voltar a fazê-lo feliz. - Disse
Sofia chorando incontrolavelmente e Filipe ofereceu-lhe os
braços para poder chorar neles e deu-lhe um beijo na
cabeça.

-Sofia. - Sussurrou. - Tu não abandonaste o Pedro, nem
ninguém, o teu pai forçou-te a fazê-lo, demoraste um ano
a regressar porque de certeza organizaste um plano para
vires, tiveste a juntar dinheiro. Tu não perdeste o vosso
filho, o teu pai forçou-te a fazê-lo. Não chores por favor,
Sofia. Eu gosto imenso de ti e ver-te assim faz-me sentir
terrivelmente devastado.

-Filipe. - Sofia limpou os olhos e aproximou a sua face da do
seu amigo. -Sabes que gosto mesmo muito de ti não
sabes? - Ele acenou positivamente com a cabeça e Sofia 
juntou os seus lábios, num beijo cheio de saudades mas
também de carinho.

-Não Sofia, tu estás carente é melhor não.

-Não seria a primeira vez e tomara que não seja a última.
- Ela sentou-se ao colo dele de frente para ele e cruzou as 
suas pernas sobre o tronco. - Já não sei o que é viver sem 
isto!

Filipe fê-la deitar-se de barriga para a cima na cama e despiu-lhe os pequenos calções do pijama e a t-shirt, começou a beijar-lhe desde a testa até aos pés, passando pelos seus cortes mais profundos, até aos mais superficiais, de ambos os pulsos e das pernas, onde poucos sabiam que ela se havia cortado, e beijou a sua tatuagem com o nome do ex-namorado, magoava-o saber que ele estaria para sempre marcado no seu corpo mas estaria também para sempre marcado na sua vida e ele aceitava-o, tinha de o fazer, o sentimento por ela transpunha isso, ele queria fazê-la feliz, apenas, queria que ela reencontra a felicidade e o rumo diferente para a sua vida, a seu lado. Sofia arrepiara-se... Ninguém lhe havia beijado nos cortes, ninguém aceitara de forma tão surpreendente a bagagem que trouxera do passado, só Filipe lhe dava tudo aquilo que ela queria sem pedir nada em troca, Sofia sabia que aquilo que viviam não era o mais correto e a forma como o tinha na sua vida, e os sentimentos começavam a alterar-se, mas não queria de momento pensar nele, apenas desfrutar de tanta carga sentimental que vivia interiormente e exteriormente.

Filipe alcançou novamente os seus lábios e perdeu-se naqueles lábios que tanto conhecia, aquele momento não eram preliminares, eram pequenos momentos de felicidade e de um culminar de outros sentimentos que não conseguiam descodificar, apenas deixavam-se falar através daqueles gestos. Mais tarde, fora ela que o encostara à parede do seu quarto e sentou-se de frente para ele, cruzando as suas pernas à volta do corpo dele e começou a beijá-lo e a despir-lhe cuidadosamente a t-shirt e mais tarde as calças. Estavam então em pé de igualdade, limitando-se ao mínimo de roupa possível e olharam-se. Para ele, o corpo dela demonstrava em parte a sua vida, todo o seu sofrimento, como os cortes, mas também os seus momentos de pura felicidade, como era Pedro, que estava tatuado no pulso, mas ele era apaixonado pelo seu peito e pelas suas pernas, apesar dos cortes. Enquanto para Sofia, o corpo dele era o ideal. Era magro e tinha o corpo cuidado, apesar de não demasiado musculado, tipicamente desportista, tinha umas mãos lindas que sabiam ser brutas quando assim o pedia, e meigas na maior parte das vezes, bastava Filipe olhar para eles que percebia o que ele sentia ou pensava.

Beijaram-se mais uma vez e despiram as poucas roupas que os cobriam e começar a fazer o que antes chamavam sexo, mas com um misto de emoções diferentes, é certo que atingiram o orgasmo e que viveram momentos de verdadeiro prazer, mas algo distanciava das anteriores vezes, nenhum sabia explicar. Não era amor, nem sexo, era algo entre ambos os sentimentos e ambos adormeceram com um sorriso nos lábios apesar de terem um turbilhão de sentimentos atravessados na mente.

Sofia acordou pouco tempo depois, e olhou para o lado, Filipe estava a dormir mas nem assim abria os abraços para ela sair e o sorriso nos seus lábios era notório. Olhou para o relógio, marcavam as 3 horas da madrugada e ela precisava de descansar até porque no dia seguinte teria aulas. Levantou-se e vestiu a t-shirt comprida de Filipe que estava no chão e foi até à cozinha beber um copo de leite.

-Boa noite cunhada.

-Que susto! - Disse Sofia apanhada desprevenida enquanto caminhava em direção à cozinha. -Que fazes acordada a esta hora Rita?

-Ainda me estou a habituar a dormir acompanhada e como deves saber o teu irmão não é propriamente sossegado a dormir, então ia beber um copo de leite para ver se me acalmo depois de levar um pontapé.

-Então fazemos companhia uma à outra, anda. - Entraram na cozinha e acenderam a luz. - Já vi pela tua cara que apesar dele te estar a dar um mau dormir, tiveste um bom adormecer.

-Assim como tu. - Atirou a cunhada. - Desculpa, não era isto que queria dizer.

-É verdade Rita. E além do mais dá para ver a forma como estamos vestidas. - Ambas estavam apenas com uma camisola de rapaz vestidas.

-Sofia, prometi segredo ao teu irmão, por isso peço-te que não contes a ninguém que te disse.

-Estás-me a assustar.

-O Pedro e o Filipe estão oficialmente de castigo do Benfica. Não podem jogar, nem treinar nas próximas duas semanas.

-Mas eles não tiveram culpa. A culpa foi toda minha. - Disse pousando a cabeça entre as suas mãos.

-Sabes bem que não é. Talvez assim eles aprendam a valorizar-te e tu a eles.

Sofia respirou fundo e bebeu o seu copo de leite.

-Obrigada, mas agora preciso mesmo de descansar. - Deu um beijo na bochecha, sorriu-lhe, pousou o copo de leite no lavatório e foi-se deitar. Pousou a cabeça no peito de Filipe e pouco depois adormeceu, não com um sorriso nos lábios mas sim com a confusão a reinar-lhe a cabeça.

I left a note on my bedpost

Said not to repeat yesterday’s mistakes

What I tend to do when it comes to you
I see only the good, selective memory

The way he makes me feel yeah, gotta hold on me

I’ve never met someone so different

Oh here we go
He a part of me now, he a part of me
So where you go I follow, follow, follow

Oh,oh,oh,oh
I can’t remember to forget you
Oh,oh,oh,oh
I keep forgetting I should let you go
But when you look at me the only memory, is us kissing in the moonlight
Oh,oh,oh,oh
I can’t remember to forget you
Oh, can’t remember to forget you”

Sofia despertou ao ouvir o seu despertador mas a preguiça não permitiu levantar-se logo, a cama estava vazia, Filipe não estava ali e já se levantara há algum tempo. A música continuara a tocar e pensava como aquela música descrevia a sua vida. Não conseguia lembrar-se de esquecer Filipe, ou seria Pedro?!

-Filipe! - Gritou, queria saber onde ele estava, ele levantara-se da cama e não lhe tinha dito nada.

-Diz, pequena. - Abriu a porta do corpo com o corpo e nas mãos trazia o pequeno-almoço preparado num tabuleiro. - Acordei mais cedo e fui preparar o pequeno-almoço para os dois.

-Obrigada! - Filipe sorriu-lhe e ficou-lhe imensamente agradecida pela surpresa. - Não era preciso teres tanto trabalho de manhã.

-Não digas disparates! - Deu-lhe um beijo na bochecha e sorriu.

-Não precisavas de preparar tanta comida, não como assim tanto!

-Não é só para ti, é para os dois tomarmos o pequeno-almoço!

-Como é que sabias que adoro cereais com leite ao pequeno-almoço?

-Confesso que o teu irmão me deu uma pequenina ajuda! - Piscou-lhe o olho.



Como sair da cama depois de um pequeno-almoço assim?”

-Não te importas que partilhe no Twitter e no Facebook?

-Força! Eu também vou partilhar no Instagram e no Facebook.


Os pequenos prazeres da vida logo pela manhã”

-Preparei dois sumos de laranja, dois cafezinhos com leite, porque não sabia o que querias e dois croissants porque eu como um e caso queiras um aqui está.

-Eu como muito pouco pela manhã, mas obrigada! - Deu-lhe um pequeno abraço, sentido mas feliz, ele surpreendia-a todos os dias e fazia-a sentir-se francamente feliz, mesmo com todos os problemas que tinha, que o envolvia, mas também Pedro.

Beberam os leites com chocolate e os sumos de laranja, terminaram os croissants e os cereais e levantaram-se da cama. Sofia decidiu que não deveriam tomar banho juntos, por respeito ao irmão e à cunhada e pediu a Filipe para preparar a sua roupa. Quando chegou, Filipe já tinha ido tomar banho e ela olhou para a roupa que estava em cima da cama, podia ser homem mas sabia bem o que escolher.


Sofia pensou com tantos calções e roupas tipicamente mais frescas de Verão e Filipe optou por escolher algo que cobrisse mais o seu corpo. Sorriu mas acabou por vesti-la, sem se queixar.

Quando terminou de se arranjar, já Diogo e Filipe tinham saído, informaram que iam para o treino, mas ela sabia que o irmão iria, mas o seu amigo iria para sítio incerto, mas respeitou o pedido da cunhada e nada disse, iria fingir que nada sabia. Entrou para o carro de Rita e seguiram caminho até ao Caixa Futebol Campus, ela iria falar com o treinador João Tralhão e explicar toda a situação de violência que afetara a sua vida e a de Pedro e Filipe, iria tentar remediar o mal que havia feito.

Assim que chegou ao local onde o irmão e o amigo tinham treino, percebeu que não iria ser tão fácil quanto pensara e teve de pedir ajuda a Diogo, que conseguiu juntar o treinador e a sua irmã e começaram a conversa. Sofia explicou de quem era irmã e pediu desculpa pelo incómodo e começou a explicar o que a trazia ali.

-Peço imensa desculpa pelo incómodo.

-Não tem mal. O teu irmão falou comigo e disse que querias falar comigo. Em que te posso ajudar.

-Na verdade eu preciso de falar consigo e a partir daí é que sabe se me pode ajudar ou não.

-Se puder ajudar assim o farei.
-Como sabe, ontem o Pedro Rebocho e o Filipe Nascimento envolveram-se numa cena de pancadaria e como também soube, houve um castigo aplicado aos dois.

-Sim, é verdade. Eu próprio apliquei esse castigo.

-Mas na realidade a culpa não é deles, é apenas e somente minha.

-Podes-me explicar se faz favor?

-Comecei a namorar com o Pedro há cerca de dois anos, e há um ano eu abandonei-o. Deve ter percebido porque pelo que sei ele não ficou bem, e acredite que eu também não. Creio que não seja útil, nem interessante para si saber, a verdadeira justificação que me fez fazê-lo. - Respirou fundo. -E ai leva-me até ao ponto principal. Voltei há uns dias e soube que ele namorava, mas na realidade eu continuo a amá-lo e fez-me cometer um deslize. Sei que me vai julgar e há pessoa em questão e até a mim doeu, mas aconteceu e não existe desculpa. Eu e o Filipe envolvemo-nos e o Pedro soube e decidiu reagir. A culpa não é dele, e somente minha.

-Sabes que as coisas não são necessariamente assim. - Respondeu segundos depois, apenas os suficientes para digerir toda aquela história. - O Pedro é uma pessoa com a cabeça no sítio, tem uma maturidade espantosa e o Filipe é um rapaz com os valores e princípios bem definidos, e acredita quando digo que o que eles fizeram não me teria nunca passado pela cabeça. Não são esses os ideias nem deles, nem do Benfica, não foi isso que lhes foi incutido e como tal não posso retirar o castigo, até porque ambos têm culpa e tu também tens, perdoa-me a minha objetividade. Mas compreendo a tua atitude é verdadeiramente de honrar, e vou fazer o que puder para os ajudar, para falar com eles...

-Não! - Interrompeu Sofia, sem deixar que o treinador terminasse o seu pensamento. -Por favor não diga a nenhum deles que falei consigo, peço-lhe por favor.

-Mas eu poderia ajudar, o Benfica poderia dar múltiplas ajudas.

-Pode tentar conversar com eles e chegar a um concesso entre ambos, mas por favor, não lhes diga que falei consigo. O Pedro odiar-me-ia ainda mais.

-O Pedro não te odeia, acredita no que te digo. - Sorriu-lhe. - E o Filipe gosta de ti, de uma forma diferente do que julgas.

-Não quero perder nenhum deles entende?

-Entendo querida, mas a vida vai tratar de te indicar do que é melhor para ti e trazê-lo, embora tenhas de lutar por isso.

-Irei fazê-lo! - Agradeceu com um sorriso. - Desculpe mesmo incomodá-lo mas não me sentiria bem a limitar-me a ficar calada.

-E fizeste bem em vir falar comigo, sentes-te culpada com o que fizeste e tentaste redimir-te e assim como ajudarei os teus rapazes, também te posso ajudar.

-Obrigada. - Despediram-se com dois beijos e saíram daquele local.

João voltou para os treinos e Sofia saiu do centro de treinos, não tinha boleia para casa, por isso teria de ir a pé mas antes tinha de parar numa certa paragem.
Caminhou durante alguns minutos, quem lhe tinha dado aquela morada tinha sido Rita e era altura de a usar, não era tarde, nem cedo. Tinha tratado de melhorar a parte do castigo de Filipe e Pedro, tinha conversado com o seu amigo para lhe pedir desculpa, agora estava na hora de falar com o ex-namorado. A porta da entrada do prédio estava aberta por isso foi só entrar, subiu até ao andar e tocou à campainha.

Será que Pedro vai abrir a porta?
Como será o reencontro depois de Pedro descobrir a verdade sobre a ex e o amigo? Será que haverá uma nova oportunidade na antiga relação deles?