sexta-feira, 13 de maio de 2016

Capítulo 24: "Sofia, talvez um dia mas hoje não"


(Pedro)
Parecia que o mundo iria ruir sobre os seus pés, que tudo iria descambar sobre si, a vida dificultara-lhe os planos, os sonhos, roubava-lhe quem mais amava e quem mais queria, a dor era tamanha mas a felicidade também deveria sentir-se, nem que fosse pela rapariga, afinal Sofia ia realizar o seu maior sonho, a vida dera-lhe uma segunda oportunidade de ser mãe e ele devia ficar feliz por ela, mas ele não era o pai daquela criança… Estava certo disso. Ela iria ser mãe e Filipe o pai daquela criança, assim como ele seria pai… De um filho de Matilde. Não a iria abandonar, iria viver uma vida inteira ao lado dela apenas para fazer do filho o ser mais amado do mundo e Sofia iria ficar sempre com Filipe, afinal ele era a única pessoa que a conseguira fazer recuperar a felicidade e mais que isso, era ele o pai do seu filho. Sentou-se no sofá e começou a chorar, sentia uma mão apertar o seu coração e uma aflição para respirar, a vida não podia ser tão madrasta, o destino não poderia ser tão duro para eles. Respirou fundo, voltou a respirar e mais uma vez tentou acalmar-se mas parecia impossível.

-Pedro, eu quero que saibas… - Foram interrompidos pela fechadura a abrir que os assustou, mas mesmo assim a reacção era a mesma, Pedro só chorava e Sofia sentada ao seu lado, sem saber o que fazer, queria falar mas não conseguia.
-O que é que fazes aqui?!
Ficaram ambos assustados com aquela voz... Não, seria demasiada coincidência ela aparecer ali, naquele momento e vê-los.

-Eu não acredito Pedro! Juro que não acredito! - Disse revoltada. -No dia de Natal, Pedro! No próprio dia de Natal tu traiste-me! Traiste-nos, a mim e ao teu filho! Não tens vergonha?!
-Não é nada disso que estás a pensar... - Disse Sofia, tentando defender o seu amado.
-Tu não te metas! A culpa disto é toda tua! Antes de apareceres estava tudo bem! És o meu pior pesadelo, o pior pesadelo de toda a gente, não fazes falta nenhuma, só vens fazer estragos ainda não percebeste?!
-Estás a ser injusta Matilde!
-E tu que não a defendesses, Pedro!
-A Sofia é adotada, simplesmente estou a dar-lhe apoio!
-A menina não podia chorar no ombro do irmãozinho ou do namorado? Tinha de vir chorar para os ombros do meu namorado?

Pedro sentia que tinha de optar por uma das raparigas, ou a mãe do seu filho, ou a mulher que mais amava... Que estava grávida de um filho que não era seu.

-Matilde, ouve-me por favor. - Pediu Pedro tentando acalmar a situação. - Nenhum dos dois sabe o que é ser adotado e o que a Sofia deve estar a passar e, como reagiamos se fossemos nós no lugar dela, entendes isso? Então não pudemos julgá-la, nem apontar o dedo. Além do mais, não tens razão para nada daquilo que estás a dizer, é contigo que estou não é verdade? És tu a mãe do meu filho! - Fez-lhe um pequeno carinho na face. - Já vinha a chegar de Évora quando encontrei a Sofia aqui e dei-lhe apoio, agora vou levá-la para Évora para aproveitar uns dias e depois vai para Manchester passar a passagem de ano, mais que nunca,a Sofia precisa de espaço, tempo e compreensão! Tu tens um coração enorme e no fundo gostas dela mas estás ferida, mas esquece isso por uns tempos e foca-te no bem-estar de uma pessoa a quem já chamaste amiga. - Pedro acabou por "falsificar" uma parte do que disse, mas não valeria a pena enervar e chatear uma grávida por algo que achava desnecessário. - E antes que perguntes, sim, vai para Évora para junto da minha família que a conhece bem e de quem foi muito próxima para tentar recuperar que eu volto para os treinos amanhã e não posso apoiar-te a ti e a ela em simultâneo e com treinos.
-Já falaste com o Filipe e com o Diogo? Eles devem estar preocupados e até ter uma resposta...
-Não... Não quero que falem com o Diogo. Por favor.
-Está descansada. - Respondeu Pedro. - Não te importas de ir buscar umas roupas para a Sofia levar para Évora, enquanto eu fico aqui a tratar da Sofia.
-Estou a ir. Até já e muita força Sofia, és muito forte, mais do que pensas, acredita em mim. - Deu-lhe um beijo na testa e saiu, deixando o ex-casalinho sozinho.
-Não lhe contaste da minha gravidez...
-Ela não precisa de saber, Sofia, não tem nada haver com isso, além do mais é uma opção tua contares a mais alguém que não ao pai da criança. - Sofia calou-se, se ao menos ele soubesse o que dizia. - Queres ir para Évora ou preferes ficar com o Filipe?
-Sinceramente não sei... Eu queroo ir, quero mudar de ambiente, tirar uns dias longe de tudo e todos, pensar e repensar, mas como direi ao Filipe que estou longe... Ao pé da tua família?
-Tenho a certeza que ele vai compreender que vás para longe, que te distraias, além disso, também vais ter com o Rony a Manchester, e vai-te fazer bem.

-Devia falar com ele.
-Convida-o para vir cá almoçar, tenho a certeza que ele vai aceitar.
-Ele vai ficar magoado se perceber que eu liguei-te a ti quando precisei e não a ele.
-Ele não precisa de saber, diz-lhe que fui eu que te liguei, sei que não se deve mentir mas foi é a única forma de não os magoarmos.
-Mas também não é mentira dizer que já não nos amamos?
-Sofia, sabes tão bem quanto eu que só isso não basta.
-Basta sim. Basta juntarmo-nos os dois e deitarmos tudo para trás das costas e focarmo-nos no que apenas nós sentimos e na vontade de estarmos juntos, de nos lembrarmos dos planos que tínhamos e os sonhos em comum.
-Sofia, simplesmente não pudemos, agora não, neste momento, nem num futuro próximo pudemos, as nossas vidas seguem caminhos em separados, ainda não percebeste que a vida está a dar-nos uma lição? Que nos está a tentar ensinar algo e esse algo é que não devemos estar juntos. Tu estás com o Filipe, e estás grávida de um filho dele e eu estou com a Matilde e estamos à espera de um filho. - Para Sofia tudo se tornou claro quanto água, a questão não eram eles, mas sim o melhor para os filhos que mereciam ter os pais juntos e não iriam pagar por um erro deles e ela depois do que ouvira não tivera coragem para lhe contar a verdade.

-Pedro... - Sofia queria contar-lhe mas sentia a voz ficar presa nas cordas vocais e uma nó atravessar-lhe a garganta.
-Sofia, talvez um dia mas hoje não.
A rapariga engoliu em seco e colocou a mão sobre a sua barriga, amava mais o(s) seu(s) filhos que qualquer outra pessoa no mundo e era neles que se inspirava e arranjava força.

-Está descansado que eu ligo ao Filipe e fico com ele para me dar forças, não precisas de me levar para lado nenhum.
-Sofia, sabes que talvez isso não seja o melhor...
-Eu sei o que é melhor para mim e para o meu filho. - Respondeu rudemente e Pedro calou-se. - Leva-me até minha casa apenas e depois podes ir para os braços da Matilde, obrigada mas já estou bem.

As hormonas deixam uma mulher com pensamentos esquisitos, desculpou-se interiormente Pedro e ia fazer-lhe a vontade, afinal nunca se contraria uma grávida não é verdade?
O rapaz fez-lhe a vontade e levou-a até sua casa... E de Filipe. Estacionou o carro e Sofia já ia despedir-se dele.

-Nem penses, vou levar-te até mesmo tua casa e ter a certeza que tu ficas bem... E o bebé.

Sofia queria refilar com ele mas acabou por aceitar e deixar-se ir acompanhada até chegar a casa e enquanto iam para a cozinha acabaram por reparar que não estavam sozinhos. Estava um rapaz deitado sobre o sofá com uma pequena manta a cobrir-lhe o corpo e uma perna dentro da manta e outra fora e com o corpo todo desajeitado no sofá, tinha passado mal a noite, com certeza, e tinha adormecido com roupa de rua, nada confortável para uma noite... Que pena que Sofia sentira de Diogo naquele momento mas fora apenas durante uns segundos, depois decidiu despertá-lo da pior forma possível.

-Podes pegar nas tuas coisas e sair daqui para fora, meu caro. - Tirou a manta do corpo dele e fê-lo cair no chão. Pedro não aguentou e soltou uma gargalhada enquanto Sofia riu-se mas apenas durante um segundo, depois retornou à cara séria e antipática de outrora.
-Não sejas tão agressiva com o teu irmão, Sofia! - Advertiu Pedro.
-Eu não tenho família!
-Tens sim! - Respondeu pela primeira vez Diogo. - Tens família e sempre terás! Não somos família biológica mas somos de coração, não podes limitar-te a esquecer-te disso, Sofia! Foram quase 18 anos!
-Sofia... - Pedro tentou chamar-lhe a atenção para se acalmar por causa do bebé que acarretava no ventre.
-Não me venhas com calmas, nem meio-calmas, desapareçam-me os dois da vista, por amor de uma santa!

Pedro acabou por acarretar o pedido dela e sair de casa, mas apenas porque sabia que os irmãos falassem.

-Porque razão o Pedro te pediu para ter calma? O que se passou Ana Sofia?
-Enfia a Ana num sítio que eu cá sei e não sei se percebeste mas mandei-te desaparecer da minha vista!
-Escuta-me por favor. - Pediu mas Sofia não acatou a ideia e deslocou-se até à porta de saída de casa e abriu-a.
-Sais a bem ou queres que te empurre?
-Não vou sair daqui nem que a vaca tussa, Sofia! Para de ser casmurra!

A rapariga fechou a porta e foi até à sala, Diogo acompanhou-a e ambos sentaram-se no sofá e depois de alguns minutos em silêncio, ela rompeu o silêncio.

-Estou grávida... De quatro semanas. - As feições de Diogo modificaram-se por completo a ouvir o tempo de gestação da irmã.
-Isso quer dizer...?
-Sim. - Baixou a cabeça. - Mas ele não sabe... Deste pequeno pormenor.
-Não lhe vais dizer?
-Não. - Respondeu desanimada. - Só tu e o Pedro é que sabem. O Filipe ainda não sabe de nada.
-Mas ele tem o direito de saber.
-Eu sei, vou dizer-lhe hoje.
-Sofia, sei que é uma pergunta estúpida mas... Vais ficar com o bebé?
-Sim. Neste momento é a única certeza que tenho na minha vida.
O irmão abraçou-a e deu-lhe um beijo na testa.
-Admiro-te por isso e por nunca desistires do que queres.
-É o que amo e quero mesmo fazer, sabes? - Começou a chorar. - Diogo, apesar de tudo gostava que este bebé fosse teu afilhado e tivesse uma parte de ti.
-Eu aceito ser padrinho do teu filho mas apenas se disseres ao pai do teu filho que ele o é.
-Diogo... Sabes que é difícil.
-Tanto um como o outro merecem saber.
-Vou fazê-lo, pode é demorar algum tempo.
-Antes do puto nascer, sim?
-Combinado. - Sorriram. - Porque não me disseste... Que não éramos realmente irmãos?
-Eu não sabia... Juro que não sabia. - Respirou fundo. - Eu fui apanhado tão de surpresa quanto tu foste.
-Diogo, eu sinto-me traída... Sinto-me a viver numa mentira. Sinto-me enganada. Sinto-me acima de tudo sozinha. - A rapariga desde que voltara a Lisboa que não sabia o que era sentir-se realmente sozinha e incompreendida no mundo mas agora sentia-o, sentia-o a redobrar, a única pessoa que ela acreditaria na vida, acima de qualquer coisa e qualquer pessoa, afinal não era seu irmão e mais do que qualquer mentira, aquela dor era mais forte.

-Sofia, nunca estarás sozinha. Tu tens este bebé. - Colocou-lhe a mão sobre a barriga. - O Júnior. - Apontou para o céu. - E sempre estarei aqui para ti! - Deu-lhe um beijo na testa e abraçou-a. - Não somos irmãos de sangue e daí? O amor não mudou, a amizade e a confiança também não, somos e seremos sempre irmãos num sítio mais importante. O coração. - Apontou. - E esse bebé vai nascer e vai dar-te ainda mais força e vai juntar-te ao Pedro e aí do meu afilhado que dê noites mal dormidas!
-Sabes que os bebés mesmo que sejam calminhos acordam a meio da noite para comer ou para mudar a fralda, não sabes?
-Sei, mas prefiro pensar que vou ter umas noites descansado antes de levar o puto ao futebol.
-Como vou explicar ao Filipe que o filho não é dele? Ele não merece, não depois de tudo o que fez por mim e pela nossa relação.
-Detesto dizer-te isto, mas tu podias tê-lo evitado, agora estão todos a sofrer.
-Eu sei, eu juro que sei. - Baixou a cabeça. - Mas como poderia adivinhar que depois de tantas vezes com o Filipe, iria engravidar de uma única vez com o Pedro?
-Tenho de te perguntar... - Diogo hesitou e a rapariga rapidamente entendeu.
-Não o faço com o Filipe desde que o fiz com o Pedro... Então desde que começamos a namorar pior ficou... A esse nível íntimo. A chama apagou, parecemos dois velhos. Dois amigos que dormem juntos.
-Vocês pareciam tão ardentes...
-E éramos, antes de começarmos a namorar. Tentei fazer com ele no dia da gala mas ele não quis, tivemos um desentendimento e desde aí que quase existe o medo do contacto, é tão estranho... Eu desejava aquele corpo mas agora que o conheço e assumimos esta relação que as coisas mudaram.
-Já pensaste que talvez tenha sido o teu coração a mandar-te parar que o que estavas a fazer não era o correto?
-Não... Não de todo. - Admitiu. - Eu acho mais que é a nossa relação a amadurecer, nós a encararmos de forma diferente a relação que temos... Deixou de ser apenas o desejo de carne para ser algo mais... Romântico talvez. Eu já tentei mesmo fazê-lo com ele, mas ele simplesmente não quis, disse-me que só o queria para me mentalizar que já esqueci o Pedro, mas como sei que não o esqueci, o estou a usar para fazê-lo.

-O Filipe sempre soube o que tu sentias pelo Pedro.
-E mesmo assim continuou do meu lado e quis namorar comigo, dormir comigo e estar comigo, sabendo que não era por ele que o meu coração batia... E apesar de estar apaixonado por mim desde o início. - Foi apenas a pensar em voz alta que Sofia percebeu os erros que tinha cometido e a influência que estes tinham na vida das pessoas de quem também gostava e a rodeavam. - Eu acreditei mesmo que estava apaixonada pelo Filipe, sabes mano? - Diogo abraçou-a e a rapariga chorou. - Mas como posso organizar a minha vida se ainda estou tão presa ao passado?
-Se tu tentaste superar o Pedro e não conseguiste e se o amas como tu me dizes, deves lutar por ele e não desistir, não é só o filho da Matilde que precisa de um pai, o teu também precisa.
-E vou enganar o Filipe e dizer que o filho é dele quando sei que é do Pedro?
-Não é nada disso que te estou a dizer, Sofia. - Advertiu. - Primeiro que tudo, vais avisar o Filipe que já estás em Lisboa, mas que não vais dormir a vossa casa, eu falo com a Rita, e podes ir para casa dela em Espinho e passas lá uns dias pelo menos até à passagem de ano, onde vais ter com o Rony, durante esse tempo pensas e logo no que é melhor fazer, pode ser?

-Como deixei que a minha vida chegasse a este ponto, mano?
-Sofia, não te culpabilizes por nada disso, lembra-te que o Júnior está a torcer por ti e que só tens este desafio na tua vida porque Deus e o teu filho mais velho sabem que a vais ultrapassar, lembraste?
-Obrigada por apesar de tudo, estares aqui e nunca desistires de mim.
-Nunca o faria, por nada deste mundo. - Abraçou-a e deu-lhe um beijo na testa.
-Se te disser qual é o meu primeiro desejo, não vais acreditar.
-Sofia, és a minha irmãzinha, conheço-te demasiado bem e não me surpreendia nada, sabes disso, certo?
-Sexo. Eu quis sexo. - Disse levantando a cabeça e olhando para o irmão, e aquele olhar era algo diferente... Era muito mais que uma troca de olhares sem intenção de irmãos. O rapaz aproximou a sua face da dela e tinham os lábios a apenas alguns milímetros e ambos olhavam para os lábios um do outro numa tentativa de ganhar coragem para o que iam fazer. - Um momento louco de prazer, selvagem. - Mordeu o lábio.

-Somos irmãos, Sofia...
-É só para experimentarmos.
-Uma vez, sem exceção, sem ninguém mais saber, prometido?

Será que Diogo e Sofia vão realmente fazê-lo?

Será que isso interfira na relação deles? E será que alguém vai perceber do que aconteceu/poderia ter acontecido?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Capítulo 23: "É mais um sinal do destino"


(Sofia)
Sofia acordou naquele dia de Natal bem disposta e feliz, iria reunir a família toda e festejarem aquele dia tão especial, e parecia uma criança com as prendas, apalpava e remexia, separava as suas prendas de todas as outras e e abanava-as na tentativa de descobrir o que era, e os seus olhos brilhavam sempre que as abria. Naquele dia de Natal não era exceção, acordou com o toque da mãe no seu ombro e o sorriso diário que a mãe lhe disponibilizara sempre que a acordara, mas desta vez também o pai ali estava, e deu-lhe um beijo na testa. Ao seu lado na cama estava o irmão, sentou-se e sorriu:

-Bom dia família, não poderia ter melhor acordar.
-Precisamos de falar, filha.

Sofia engoliu em seco, sabia que não poderia ser boa notícia mas que espécie de má notícia seria assim tão má para lhe dar no dia de Natal?! Despiu o pijama e vestiu a roupa que havia decidido usar para aquela ocasião e sentou-se junto à família, olhou para o irmão mas ele não descodificava, nem ajudava, parecia estar tão surpreso quanto ela.

-Que se passou? Estão a assustar-me.
-Não sei como te dizer isto... - Disse a mãe.
-Não se ponham com rodeios por favor, sabem que eu detesto isso.
-Decidimos dar-te esta notícia hoje porque sabemos que é um dia muito importante para ti e talvez te ajudasse a ultrapassar melhor a dor e que possas compreender o nosso lado, que também não é fácil.
-Deixem-se de rodeios, o que se passa?!
-Tu és adotada, Sofia. - Sofia sorriu. Era uma partida, era impossível ser verdade.
-Agora a sério por favor.
-Estamos a falar a sério, filha. - Disse a mãe pousando a mão sobre a sua.

Sofia gelou com o que ouvira, como assim não era filha biológica das pessoas que toda uma vida chamou pais? Como não era irmã de sangue de Diogo? Como lhe haviam escondido este segredo durante quase dezoito anos? Sentou-se no chão sem energias e a digerir o que tinha ouvido.

-Sei que neste momento te deve estar a passar por um turbilhão de sentimentos e perguntas pela cabeça, mas ouve-nos por favor.

Sofia não queria ouvir mais nada, nem mais uma única palavra, nunca mais queria ver nenhum deles ao pé de si, nem queria estar ali. Pegou no telemóvel e saiu a correr, sem rumo ou destino, apenas para longe, mesmo quando as lágrimas inundavam-lhe os olhos e não a deixavam ver o que a rodeava. Andou durante algum tempo até sentir a areia tocar-lhe nos pés, e o vento que corria do mar bater-lhe na cara, sentia o cheiro a maresia e fazia-a sentir melhor mas em simultâneo pior, sentou-se à beira de água com as pernas erguidas e abraçou-as e chorou durante longos minutos... O telemóvel fartava-se de fazer barulho, de tocar e tocar, mas ela nem olhava, nem queria saber, apenas queria chorar e relembrava-se sempre das palavras do seu pai:

-Tu és adotada, filha.” - Mas como é que ele se atrevia a chamar-lhe filha? Mentiram-lhe toda a vida! Tinham-na feito acreditar em tudo o que lhe diziam, talvez nunca a tivessem sequer amado. Só queria esquecer tudo e recuperar a boa fase que vivia anteriormente, queria poder arrancar do seu ombro a tatuagem que havia feito para o seu pai, queria poder dizer a todos que os odiava e não os queria mais ver à frente. E Diogo? Como é que Diogo lhe havia escondido isto? Eles eram irmãos! Talvez não o fossem na verdade, mas ele não poderia ter escondido nada assim...
O mar falava consigo, as ondas molhavam-lhe o corpo e vinham baixinhas e fracas, e por isso diziam apenas um nome, mesmo sem dizer, refletiam uma personalidade e ela sabia bem quem era, a única pessoa que conseguia dar luz ao seu dia, mesmo num dia de trovoada. Pegou no telemóvel, ignorando todas e quaisquer chamadas, limpou as lágrimas e telefonou. Não precisou de ouvir mais de dois toques para o seu dia ganhar luz.

-Sofia. - Não conseguiu segurar mais o desespero e a mágoa e rompeu em lágrimas. - Onde estás? Que se passou?
-Pedro... Pedro... Eu preciso de ti.
-Onde estás?
-Em Espinho... Na nossa praia.
-Vou-me já fazer ao caminho.
-Desculpa. Desculpa de coração. - Sabia que era dia de Natal e iria estragar um dos poucos dias que Pedro conseguia estar com a família e por isso pedia apenas desculpa.
-Sofia, tu precisas de mim é apenas isso que preciso de ouvir.
Ouviu o motor do carro ligar.
-Amo-te.
-Também te amo.

Por muito que sentisse gostar de Filipe, e de se sentir-se feliz com ele, a verdadeira felicidade e por quem dava a vida era apenas e só, Pedro. Era ele quem ela amava e amaria sempre.
Passado pouco mais de duas horas, Pedro chegou a Espinho, o que era pouco para quem teve de percorrer o país de sul a norte, desde Évora até Espinho. Estacionou o carro e foi a correr até à praia onde estava a sua amada, e pegou-a ao colo e levou-a até ao carro, onde abriu a porta do banco traseiro e sentou-se e pousou Sofia no seu colo. Toda ela tremia de frio, deveria estar ali há horas e estava cansada, terrivelmente cansada, Pedro conseguia percebê-lo, deveria ter chorado todo aquele tempo desde que lhe telefonara e quem saberia quanto tempo tinha chorado sozinha antes de lhe ligar, provavelmente também ainda não teria nada no estômago e isso ainda a enfraqueceria mais. Ligou o aquecimento do carro e colocou-lhe uma manta no redor do seu corpo e fê-la colar-se ao seu corpo, a sua cabeça no peito e sussurrou-lhe:

-Sofia?A rapariga não tinha forças para lhe responder apenas teve força para pousar a mão sobre o peito dele e sentir pela primeira vez amor naquele dia.- Precisas de comer alguma coisa. Sofia não queria, sentia-se indisposta e apenas queria continuar sentada no colo de Pedro e assim permanecer até se sentir melhor, mas também sabia que ele não iria desistir, por isso abanou a cabeça devagarinho. Ele pegou num pequeno pacote de bolachas e tirou a primeira, e partindo pedaço a pedaço deu-lhe à boca. -Eu sei que te custa, mas tens mesmo de acabar estas bolachas. -Sofia terminou as bolachas e aconchegou-se ainda mais nos braços de Pedro, era exatamente daquilo que precisava, e foi sem pensar em nada mais e apenas a desfrutar daquele momento que adormeceu... Mas não tardou para acordar aos berros e a chorar. - Meu amor, eu estou aqui. - Agarrou-a e deu-lhe um beijo na testa e outro na ponta do nariz que a fez despertar e sorrir.

-Obrigada. - Pedro deu-lhe um beijo na testa e ambos sorriram. - Por nunca teres desistido de mim e por me amares.
-Nunca vou desistir de ti, nem deixar de te amar, sabes? - Deu-lhe um beijo na ponta do nariz. . Já me podes contar o que se passou?
-Eu sou adotada... Os meus pais não são realmente meus pais.

Assim que o disse rompeu-se em lágrimas e encostou-se ao peito de Pedro e agarrou a camisola enquanto chorava, ele passou o dedo indicador pela sua face e limpou-lhe as 
lágrimas que corriam na sua bochecha esquerda.

-Eu sei que custa, mas tens de ser mais forte que tudo isto.
-Eles mentiram-me toda uma vida, o meu irmão mentiu-me.

Pedro abraçou-a mais uma vez e deu-lhe mais um beijo na ponta do nariz, que sempre a fazia sorrir e sentiu-se um pouco melhor, mas mesmo assim a dor reinava o seu coração.

-Leva-me daqui por favor.
-Os teus pais... - Rapidamente entendeu que tinha errado. - Os Rochinha estão preocupados contigo.
-Não quero saber, de verdade.
-Vou mandar uma mensagem ao Diogo a avisar que estás bem.
-Não quero saber. - Disse aproximando-se e aproximando-se ainda mais do peito de Pedro. - Só quero sair daqui Pedro.

O rapaz pegou no telemóvel e mandou a mensagem a Diogo.

-Vamos para minha casa, em Lisboa?
-Sim, senão te importares.
Pedro pegou em Sofia ao colo e colocou-a no banco ao lado do condutor, depois colocou-se ao lado dela e seguiu caminho em direção a Lisboa.
-Ou preferes ir para tua casa?
-Quero ir para a tua, a minha trás-me demasiadas recordações.
-Assim será. - Sofia encostou a sua cabeça na perna de Pedro e endireitou a manta que cobria o seu corpo. - Não te faz impressão estar aqui?
-Não, deixa-te estar. Vou ligar o aquecimento para ficares mais quente.
-Obrigada, meu amor. - Pousou a mão sobre a mão sobre a perna dele e não demorou até adormecer.
Quando chegaram a Lisboa, e depois de estacionar o carro, Pedro passou a mão pela face de Sofia e despertou-a. Ela abriu os olhos e olhou diretamente para ele.

-Não te queria acordar, desculpa.
-Não tem mal, também temos de ir andado não é verdade?
-Ia pegar-te ao colo e ia levar-te. Já não seria a primeira vez.
-Mas os tempos eram outros... - Olharam um para o outro e não precisaram de dizer mais nada, ambos se lembraram dos tempos em que namoravam.
-Ia relembra-los sozinho.

Aproximaram-se e ele abriu a porta e puderam sentir o frio que assolava a casa inabitada naquela noite, ela gemeu de frio e ele percebeu.

-Sempre foste muito friorenta.
-Tornei-me ainda mais... Depois da gravidez.
-Ainda tenho umas roupas tuas de Inverno guardadas, vou lá buscá-las para usares, e vou preparar alguma coisa para comeres e vou tratar de aquecer o gelo desta casa. - Pedro ia virar costas mas ela agarrou-o no braço.
-Obrigada por abdicares de um dia com a tua família... Por mim.
-Sofia, tu precisavas de mim, teria abdicado de tudo para te deixar bem. - Ela corou, ele fazia-a sempre feliz com simples palavras mas tão boas. - Fico contente por ainda te fazer corar, sabes? Deixa-me estupidamente feliz.
-Tu abdicaste do dia de Natal com a tua família... Por minha causa. É algo que nunca vou esquecer.
-Sofia, tu não estavas bem e não iria aproveitar o dia só de pensar que não estarias bem.
-E a tua família? Como reagiu?
-Os meus pais adoram-te, sempre te adoram... Mesmo apesar de tudo. Compreenderam perfeitamente e disseram-me para ir.
-Agradece-lhes e manda um beijinho meu.
-Eles agradecem e devolvem-te, de certeza.
-Obrigada.
-Amanhã preciso de falar contigo.
-Não tenho forças Pedro... De verdade que não tenho. Eu estou em pé porque estás ao meu lado sinto-me demasiado fraca para aguentar sozinha.
-Amanhã Sofia. Amanhã conversamos mas é algo que não posso adiar muito tempo. - Pegou nela ao colo e levou-a até ao sofá da sala de estar. - Vou acender a lareira e pôr um aquecedor no meu quarto onde vais dormir e pôr uma bolsinha para te aquecer os pés e umas mantas a mais na cama.
-Podes dormir comigo por favor, Pedro? - Ele hesitou e Sofia percebeu. - Não se vai passar nada... Eu é que não consigo dormir sozinha. - Dito isto rompeu-se em lágrimas. Ele aproximou-se dela e limpou-lhe as lágrimas e deu-lhe um beijo na testa.
-Eu durmo. - Sofia sorriu agradecida. - Mas vais ter de comer umas torradas e um leite quente, combinado?
-Sim. - Disse aconchegando-se nas mantas que a embrulhavam, junto à lareira já preparada por Pedro.
-Ficas bem aqui? Eu não demoro.
-Sim. Não te preocupes.

Ele deu-lhe mais um beijo na testa onde preparou algo para ele e Sofia comerem. De seguida foi preparar a cama para receber Sofia, colocando mais mantas e mais rigorosas,tirou as roupas dela do armário onde guardava todas as memórias dela e levou-a até aos pés do sofá.

-Estas roupas eram tuas... Não sei se ainda te servem.
-Com certeza que ficam bem.

Ele fez-lhe uma pequena festa sobre a face e foi preparar algo para Sofia e ele comerem... Afinal ele pouco ou nada tinha comido e ela... Ela estava demasiado frágil. Depois de ter as torradas e os leites quentes, levou-os até à sala e deu-lhe vagarosamente à boca, aguardando que ela terminasse o que tinha na boca para lhe dar mais e fê-la beber o leite devagarinho, como se fazia às crianças para não se engasgar. Sofia... Ela tentava comer e beber por si mesma, mas assim que levantava os braços, eles caiam. E Pedro... Ele já sabia dos problemas de saúde que ela tinha tido. Já sabia da bulimia, das tentativas de suicídio, ele sabia e por isso não poderia facilitar. Quando terminou de lhe dar a comida suficiente, comeu também ele e depois, sem nada dizer, pegou em Sofia ao colo e levou-a até à cama onde a pousou e tapou-a com as mantas da cama.

-Não te importas? - Disse apontando para a roupa. Ela abanou com a cabeça negativamente e ele despiu a roupa que tinha no corpo e vestiu o pijama, sempre os olhos atentos de Sofia... Que não podia negar que aquele corpo havia desperto em si toda a atenção e até havia captado instintos que o corpo de Filipe já lhe havia adormecido, mas tinha de negá-los, tinha de recusá-los, dissera a Pedro que nada se iria passar e iria cumprir. Ele deitou-se na cama junto a ela, encostou-se e ela começou a chorar... A dor corroía, e iria sempre corroer. Vivera uma mentira por quase dezoito anos. Adormeceu cansada de chorar, e Pedro... Pedro sabia que não iria dormir. Há anos que não dormia assim junto a Sofia, queria admirá-la, queira beijá-la, queria tocar-lhe, queria desfrutar de todos aqueles momentos ao máximo, e decidiu fazer-lhe uma confidência:

-Sofia. - Respirou fundo. - Durante uns tempos odiei-te. Por me teres abandonado sem dizeres nada, do dia para a noite, por tanto te amar e por não conseguir esquecer-te. Que pensei em desistir da minha vida, foram tempos em que sofri. Sofri muito e pensei que não iria conseguir superar, mas tive de levantar a cabeça.
Arranjei forças no teu sorriso e em ti para continuar, porque te amo e quis acreditar que iria voltar a ver-te, e porque te amo mais que a mim, que arranjei forças em ti. E a Matilde apareceu na minha vida... E acabou por acontecer. Ela apaixonou-se por mim e eu deixei-me levar. Sei que não é desculpa mas eu estava fraco e acabei por também sentir algo por ela. Eu jurei, jurei a mim mesmo e ao mundo que sentia verdadeiramente algo, mas hoje... Hoje não sei. Mas não a quero magoar, ela não merece... Não depois de tudo o que fez por mim, por nós. Porque agora estou certo que vamos estar juntos até ao final das nossas vidas. Ela deu-me um filho. Que não foi pensado, nem desejado, ele simplesmente aconteceu... E eu vou ser o pai dele. Nunca o irei negar e ele será amado como foi, e é amado o Júnior, o nosso filho. - Limpou as lágrimas. - E acredita que quando soube dele jurei nunca te perdoar por tudo. Mas hoje... Hoje eu já sei de tudo. Sei que não me abandonaste, mas que foste obrigada a fazê-lo. Que o teu pai te obrigou e por muito que me amasses, amas-o também e não querias desiludi-lo. Que por me teres deixado que sofreste tanto ou mais que eu, que vomitavas tudo o que comias, e que por isso te tornaste bolémica, que te tentaste matar... Eu não viveria sem ti, sabias? - Deu-lhe um beijo na testa. - Dava a minha vida só para garantir que estavas bem e feliz. E agora estás feliz e por muito que te tenha garantido que era o que mais me importa, mas também me causa um misto de emoções contraditórias. Quero e gosto que sejas feliz, mais que ninguém, mereces, mas também me magoa muito o facto de seres feliz... Sem mim. Mas não posso ser tão egoísta. - Limpou as lágrimas. - Sofia, eu descobri o teu blogue e mais que nunca conheço-te e amo-te mais do que nunca. - Dito isto deu-lhe um beijo na testa e adormeceu agarrado à dona do seu coração.
-Não. Por favor não... Diz-me que é mentira, por favor. - Sofia chorou e gritou ao pedir para ser mentira. Pedro despertou segundos antes e abraçou-a.
-Meu amor, já passou. Eu garanto-te que já passou. Deu-lhe um beijo na testa. Sofia limpou as lágrimas que lhe corriam pelo rosto e pousou a cabeça no peito dele. -Sonhei que era adotada, diz-me, por favor, que era só um pesadelo. - Pedro olhou para ela e não teve coragem de lhe dizer a verdade, ela percebeu e encostou-se ao peito dele a chorar de uma forma descontrolava e ele abraçou-a. Sabia bem que quando chorava não deveria dizer nada, deveria sim dar-lhe os braços para abraçá-la e o peito para ela encostar e chorar, deveria deixá-la ficar assim até ela ganhar força para falar, ou até adormecer, o que acontecia na maioria das vezes.
-Porque me amas, Pedro? Porque continuas a amar-me e a estar ao meu lado... Depois de tudo? Porquê, Pedro?
-Prometi que iria sempre apoiar-te e iria amar-te sempre e para sempre e não vou quebrar essa promessa.
Sofia sorriu, era incrível a forma como ele a fazia sentir depois de tanto e tudo o que se tinha passado, quando vivera em Espinho pensara que ele já a tinha esquecido, que o magoara demasiado para ainda a amar, mas quando regressara e com o passar do tempo havia percebido que ele ainda a amava mais e estava ainda mais certa que ele sempre a amaria.

-Estavas a pensar em algo...
-Não te conseguia enganar, nem mesmo se tentasse.
-E posso saber no que estavas a pensar?
-No que fiz para te merecer.
Pedro corou e sorriu. Aquela havia sido a resposta mais genuína e intensa que ela lhe poderia ter dado, não havia pensado sobre ela, apenas lhe tinha dito, sem medos ou hesitações.
-Sofia... Nós não pudemos. Simplesmente não pudemos. Tu tens o Filipe, eu a Matilde, tu estás frágil e eu não posso aproveitar-me disso.
-Estou demasiado fraca, Pedro, preciso de ti mais do que nunca.
-Sofia, dorme, por favor. Não tornes as coisas mais difíceis do que elas já são.
-Tu sempre estarás aqui para mim, eu sei, mas promete-me que tudo isto é apenas um mau momento e amanhã quando acordar estarás aqui.
-Não te vou deixar sozinha Sofia, prometo. - Deu-lhe um beijo na testa. - Mas agora vamos dormir.

Fechou os olhos e deitou-se de barriga para cima, Sofia deu-lhe um beijo na testa e encostou a cabeça ao peito dele e fechou os olhos, sabia que Pedro não iria dormir e que estava apenas a tentar evitar o que poderia acontecer e ela também sabia que não podia ceder, que era apenas a fraqueza a falar, mas precisava dele... E ele pensava com a cabeça e ela precisava de todo o seu coração, mas não o podia condenar por mais, afinal já ele estava ali e dera-lhe tanto naquele dia sem o dever e foi com este pensamento que adormeceu.

Pedro apenas dormiu uma hora, passara horas a olhar para ela, a admirá-la, a senti-la bem junto de si, a admirar a perfeição que ela era e a admiração e o amor que nutria por ela, queria estar assim junto a ela para sempre mas não podiam... Queria acreditar que estavam destinados a ficar juntos, mas a vida parecia querer dificultar tudo, parecia querer juntá-los mas sempre com impedimentos e acabar por separá-los. Pedro iria ser pai, Sofia vivia com Filipe. 

Olhou para os lábios dela, os lábios que já tinha beijado milhares, ou milhões de vezes, os lábios irresistíveis que ela possuía e queria beijá-los mais uma vez, mas sabia que não o podia fazer, seria aproveitar-se dela enquanto dormia. Sofia arrepiou-se e Pedro pode sentir todo o corpo dela embater contra o seu e cativara-lhe todos os movimentos, sensações, todo o corpo "despertou" e ele embora já o conhecesse, queria sempre reconhecê-lo, e voltar a conhecê-lo. Queria mostrar-lhe fisicamente o que sentia por ela, mas não o iria fazer, iria esperar. Iriam fazer tudo bem, desta vez iriam fazer tudo para não magoar ninguém mas ele primeiro tinha que lhe dizer que já sabia de toda a verdade... Adormeceu já passava das 6h a muito custo mas vencido pelo cansaço. Acordou uma hora depois com um toque no ombro.

-Bom dia meu bem.
-Bom dia minha vida.

Sorriram.

-Fiz-te o pequeno-almoço, mas se bem te conheço mal dormiste.
-Acertaste. Mal consegui pregar olho preocupado contigo, só adormeci às 6h, vencido pelo cansaço.
-Então dorme, pouco faltam para as 8h.
-Sempre foste pessoa de acordar cedo, existem coisas que não mudam nunca, não é verdade?
-Pedro, talvez devas mesmo dormir, ontem foi um dia muito cansativo para os dois.
-Sofia, achas que irei pregar olho sabendo que estás acordada e podes precisar de mim?
-Então vamos os dois tentar voltar a dormir, pode ser?
-E o pequeno-almoço?
-Quando acordarmos, comemos.

Sofia pousou o tabuleiro na mesa de cabeceira e pousou a cabeça no peito dele e a mão ao lado. Esperou durante uns minutos e ainda outros.

-Não consegues dormir mais, pois não?
-Só queria que descansasses mais um tempo.
-Sabes bem que basta-me 10 minutos a dormir e acordo como novo.
-Mas devias descansar mais... Aproveitar enquanto não nasce o teu filho.
-Sofia, não vamos falar sobre isso.

Ela assentiu com a cabeça, iria acatar o pedido dele.

-Como estás? - Perguntou Pedro impedindo-a de pensar em algo mais.
-Acho que nunca vou recuperar, sabes?
-Claro que vais, és a pessoa mais forte que conheço.
-Obrigada. - Olhou-o nos olhos onde o azul dos seus olhos cor de mar se confundia com o castanho escuro dos olhos de Pedro. - Ontem nem rezei ao meu filho, deve estar a chamar-me mãe foleira.
-Tu rezas ao Júnior?
-Todos os dias, e falo muito com ele, ainda mais desde...
-Desde?
-Que eu e o Filipe moramos juntos.
-Sabes eu também falo com o Júnior todas as noites, além de meu filho, é meu amigo.
-Pelos vistos é mais um sinal do destino.
-Ou da vida. Somos uns bons pais para o nosso filho... Para o teu filho mais velho.
-Precisamos de falar sobre uma coisa. - Sofia sabia que ele só iria abordar o tema da adoção se ela quisesse, não o iria "puxar" e por isso só poderia ser outro tema e fazia receá-lo.

-Deixa-me falar primeiro, por favor. - Pedro calou-se. - Estou grávida.

Como irá Pedro reagir à notícia?
De quanto tempo estará ela? Será que ele vai ter coragem de lhe contar que já sabe de toda a verdade depois disto?

sábado, 26 de dezembro de 2015

Capítulo 22: “I was here”


(Filipe)
Sofia era uma rapariga completamente diferente de todas as raparigas por quem alguma vez se havia envolvido, era encantadora, era inteligente, tinha uma personalidade incrível e era incrivelmente bonita, e por isso acabou por apaixonar-se por ela… Sem medos, nem receios, atirara-se completamente de cabeça aquele amor e acabara magoado e com receio de perdê-la porque sabia desde o início que ela ainda amava Pedro e não o tinha esquecido, mas preferia fingir que não sabia isto. Tentara esquecer que seria preciso duas pessoas gostarem muito uma da outra para manter uma relação, preferira acreditar que ela no fundo também gostava de si, por mais pequeno que fosse esse tamanho. Era também a primeira relação séria dele e não sabia como mantê-la, tinha apenas medo de se magoar e de magoar Sofia e não sabia como gerir uma relação, não sabia mantê-la, acreditava que bastava o amor para ficarem juntos, mas ficara provado que não era verdade. E Sofia quis dar um passo maior que a perna, ele sabia-o mas havia aceitado, tinham ido morar juntos e como casal ainda não estavam preparados, ele sabia, mas com medo de perdê-la não lhe havia dito e aceitara. Tivera de se apaixonar completamente por ela e o seu medo tornara-se realidade, nunca tinha sentido o que era o amor, mas agora amava-a e não deixava espaço de manobra, estava mais que certo e sabia o que era, não precisara que ninguém lhe explicasse. Tinha medo de perdê-la para Pedro e quando ela deixara a sua casa sem dizer nada mais quando ele se recusara a fazer amor com ela, sabia que tudo poderia acontecer… Talvez ela fosse ter com o irmão para desabafar ou talvez fosse ter com Pedro para conversarem, mas deixou-a ir, sabia que ela não iria ficar bem com o que se passara e dera-lhe espaço para pensar, mesmo que isso o magoasse.
Pousou a cabeça sobre a almofada e chorou, sentia-se sufocar, por amar tanto, por querer tanto e por não conseguir resistir aquela rapariga, por sentir que ela poderia ir ter com Pedro e o iria trair… Isso magoava-o tanto, mas tanto, mas magoava-o ainda mais pensar que Sofia nunca o amaria como amava Pedro e ele nunca iria fazê-la realmente feliz. Não conseguia já dormir sozinho… Afinal desde que Sofia voltara quantas vezes o havia feito? Quantas vezes rezavam para Júnior juntos ou ele dizia-lhe palavras bonitas e sossegadamente e feliz, Filipe a via a dormir de sorriso nos lábios? Não queria perdê-la, mas também queria que ela fosse realmente feliz… Tinha de rezar a Júnior a pedir a sua ajuda!

-Querido Júnior, sei que provavelmente não vais reconhecer a minha voz, nunca me ouviste a falar só contigo, mas isso não me vai afastar do meu amor por ti, mesmo que não exista nenhum laço de sangue a unir-nos. Sei que és uma estrela no céu. – Dito isto levantou-se e foi para a janela do quarto e observou todas as estrelas mas uma em especial brilhou e ele focou-se nela. – E também sei que não sou pessoa de rezar, nunca o fui, mas eu tenho de o fazer, sinto-me na obrigação de o fazer, se a Sofia o faz, eu também o farei, porque é por amar demasiado a tua mãe que o faço. És o pequeno filho dela, e és o anjo da guarda que a guarda aí no céu, e vais sempre sê-lo. Sei que provavelmente irias querer ver os teus pais juntos mais uma vez, mas peço-te que me ajudes por favor. Eu não quero separá-la do teu pai, nem peço que se parem de amar, sei que isso nunca irá acontecer mas também sei que gosto demasiado dela e tudo o que faço é para fazê-la feliz, mas também tenho medo de a magoar entendes? Eu nunca fui magoado, e também nunca gostei de ninguém desta forma e sabia desde o início que me poderia arrepender mas como poderia não me deixar cair na perfeição que é a tua mãe? Sei que provavelmente a vou magoar e provavelmente não serei o melhor para ela, mas quero ajuda, preciso de ajuda… Dá-me um sinal, o que é melhor para a tua mãe? Serei eu ou deverei deixá-la seguir caminho até ao Pedro? Por favor, Júnior, eu juro que passo a acreditar em Jesus, em Deus, em tudo o que existir mas ajuda-me, por favor, ajuda-me a perceber o que é o melhor para a Sofia. – Dito isto limpou as lágrimas da sua face e foi ao telemóvel onde colocou a música preferida de Sofia, com a qual a acordava todos os dias, para vê-la acordar com um sorriso nos lábios.

I wanna leave my footprints on the sands of time
(Quero deixar as minhas pegadas sobre as areias do tempo)
Know there was something there
(Sabia que havia algo lá)
And something that I left behind
(E algo que deixei para trás)
When I leave this world, I'll leave no regrets
(Quando eu deixar este mundo, não vou deixar arrependimentos)
Leave something to remember, so they won't Forget
(Deixarei algo para relembrar, para não se esquecerem)

I was here
(Eu estive aqui)
I lived, I loved
(Eu vivi, eu amei)
I was here
(Eu estive aqui)
I did, I've done everything that I wanted
(Eu fiz, fiz tudo o que queria ter feito)
And it was more than I thought it would be
(E foi mais do que alguma vez pensei fazer)
I will leave my mark so everyone will know
(Eu deixarei a minha marca para toda a gente saber)
I was here
(Que estive aqui)

I want to say I live each day, until I die
(Quero dizer que vivi todos os dias, até morrer)
And all that I had something in, somebody's life
(E saber que eu tinha algo na vida de alguém)
The hearts I had touched will be the proof that I leave
(Os corações em que toquei serão a prova que deixarei)
That I made a difference and this world will see
(Que fiz a diferença e este mundo irá ver)

I was here
(Eu estive aqui)
I lived, I loved
(Eu vivi, eu amei)
I was here
(Eu estive aqui)
I did, I've done everything that I wanted
(Eu fiz, fiz tudo o que queria ter feito)
And it was more than I thought it would be
(E foi mais do que alguma vez pensei fazer)
I will leave my mark so everyone will know
(Eu deixarei a minha marca para toda a gente saber)
I was here
(Que estive aqui)


I just want them to know
(Só quero que saibam)
That I gave my all
(Que dei tudo)
Did my best
(Dei o meu melhor)
Brought someone to happiness
(Trouxe felicidade a alguém)
Left this world a little better
(E deixei este mundo um bocadinho melhor)
Just because
(Apenas porque)
I was here
(Eu estive aqui)

I was here
(Eu estive aqui)
I lived, I loved
(Eu vivi, eu amei)
I was here
(Eu estive aqui)
I did, I've done everything that I wanted
(Eu fiz, fiz tudo o que queria ter feito)
And it was more than I thought it would be
(E foi mais do que alguma vez pensei fazer)
I will leave my mark so everyone will know
(Eu deixarei a minha marca para toda a gente saber)
I was here
(Que estive aqui)


I was here
(Eu estive aqui)
I was here
(Eu estive aqui)
I lived, I loved
(Eu vivi, eu amei)
I was here
(Eu estive aqui)
I did, I've done
(Eu fiz, eu tenho feito)
I was here
(Eu estive aqui)

I was here
(Eu estive aqui)
I was here
(Eu estive aqui)
I lived, I loved
(Eu vivi, eu amei)
I was here
(Eu estive aqui)
I did, I've done
(Eu fiz, eu tenho feito)
I was here
(Eu estive aqui)

Quando terminou a música, pousou o telemóvel junto à mesa-de-cabeceira não fosse o telemóvel tocar com Sofia a precisar de si e adormeceu a chorar, mas com esperança que a rapariga regressasse pouco depois e ele despertasse. E ela acabou mesmo por chegar mas ele não acordou com o barulho dela chegar, mas sim de manhã cedo com o doce toque da sua namorada na sua bochecha, abriu devagarinho os olhos e acabou por se certificar que era ela.

-Desculpa.
-Não me acordaste, acordei sozinho.
-Sabes que não é a isso que me refiro.
-Desculpa eu… Não queria desiludir-te, não queria tirar-te algo que é importante para ti, mas eu não sei lidar com o que sinto, com o que temos. E é normal que erre, que cometa imensos erros, só te peço que tenhas paciência comigo, Sofia, sabes…
Sofia colocou o seu dedo indicador sobre os lábios dele e não o deixou continuar a frase, olhou-o nos olhos e assim ficaram durante alguns segundos quando ela decidiu dar-lhe um pequeno beijo sobre os lábios.
-Achas que este beijo fez-te calar todas essas vozes da tua cabeça?
-Obrigada por estares sempre comigo.
-Eu é que tenho de te agradecer por tudo, Filipe Guterres Nascimento. Achas que ficaria bem Sofia Nascimento?
-Acho que ficaria perfeito. – Deu-lhe um beijo na testa.
-Tenho uma surpresa para ti. Fecha os olhos. – Filipe obedeceu e só voltou a abrir quando Sofia lhe tocou no braço. – Como namorados que somos, achei que te deveria fazer uma surpresa, e como tal preparei-te este pequeno-almoço, com cereais, torradas, pão quente e manteiga, leite com chocolate, café e sumo de laranja.
-Queres fazer-me engordar não queres?
-Achei que merecias um miminho destes, mas tens de o partilhar comigo, a preparar-te este mimo acabei por me esquecer de comer.
-Acho que devia também ir fazer uma surpresa à minha boneca.
-Não vais fazer nada, vais ficar quieto a comer, depois vamos tomar um banho.
-Vamos?
-Sim, é preciso poupar água não sabias?
-Sabia sim. – Deu-lhe um beijo na testa. – Mais alguma coisa?
-Sim, por acaso sim! Os teus pais vêm cá almoçar e o Diogo e a Rita também.
-E só agora é que me dizes? Precisamos de preparar tudo.
-A tua namorada já pensou em tudo, e está tudo encaminhado coisa boa, ontem quando cheguei a casa ainda fiz um bolo, mas estavas tão cansado que nem ouviste o barulho que fiz.

-Sofia? – A rapariga bem o que ele iria dizer, já o começava a conhecer também e a gostar dele, mas de uma forma diferente. A rapariga não sabia bem o que sentir em relação a ele, amava Pedro, mas e Filipe? Também mexia consigo. – Tenho uma coisa para te contar.
-Não, se queres saber não te trai, seria incapaz de o fazer, sabes disso. – Filipe sorriu, aliviado.
-Não era isso…
-Então?
-Ontem rezei.
-Rezaste? Mas tu és católico?
-Não. Quer dizer não sei. Nunca recebi uma educação para acreditar em Deus e rezar, mas sou baptizado e tenho a primeira comunhão mas nunca pensei realmente nessa questão de rezar ou não, mas ontem eu quis fazê-lo e soube-me bem.
-Às vezes, não é preciso ser católico para rezar, basta acreditar realmente no que estás a rezar e a razão que te leva a fazê-lo.
-Tão profunda a esta hora da manhã?
-Tem de ser… E posso saber o que rezaste e a quem?
-Eu rezei ao teu filho. Pedi-lhe ajuda.
-A sério? Eu não queria mesmo magoar-te, nem nada disso, às vezes sou uma estúpida e bruta, eu sei desculpa, mas temos de ir com calma e temos avançado tanto e eu sinto tudo ao extremo sabes?
-Eu pedi-lhe ajuda… Por tua causa… Para me ajudar a descobrir o que é realmente melhor para ti, ou eu ou o Pedro.

Como irá reagir Sofia?
O que irá responder? Será que Júnior o vai ajudar?