domingo, 5 de junho de 2016

Capítulo 25: “E porque não lhe escreves uma carta?”


(Pedro)
Depois da notícia que ouvira pela boca da sua amada, sentiu o destino pregar-lhe uma partida, pela primeira vez sentiu que o destino nunca mais os iria juntar e ele estava certo, até disso até então. Quando ouvira a notícia, fez-se de forte, fingiu que havia digerido bem a notícia e que se limitava a estar feliz por ela, afinal o amor era assim, mas na verdade, ele sentia-se desfeito, partido, sentia que tudo tinha perdido o sentido e o rumo da sua vida era mais uma vez incerto... Sofia iria realizar o seu sonho sim, mas iria realizá-lo ao lado de Filipe, e ele iria realizá-lo também... Mas junto a Matilde. E ele não sabia digerir o misto de emoções que a vida dele se tornara... Mais uma vez.
Depois de deixar Sofia em sua casa, com o irmão, foi até ao carro e pousou a cabeça sobre o volante e os braços a protegê-lo e chorou, chorou e chorou. A dor parecia cada vez mais forte e intensa, intensificava-se a cada segundo mais e mais, e parecia não desaparecer por nada, e ele sabia que tinha de ser forte, como Sofia o era, mas como poderia sê-lo? No fundo sentia terríveis ciúmes de Filipe. Ele poderia ter conquistado inúmeras mulheres, como já o havia feito anteriormente, mas não... Filipe tinha-se apaixonado e tinha feito apaixonar-se Sofia por ele e Pedro não sabia lidar com isso. Ele dera-lhe um filho e ela não iria abortar, então porque razão o teria feito com Júnior? Por muitas explicações que tentasse tirar para o ajudar a compreender e a lidar com os sentimentos e com a postura e a atitude que devia tomar, simplesmente não conseguia. Mas estava na altura de ser forte, acima de tudo, a sua mulher, a sua companheira, amiga e namorada, Matilde precisava de si, a mãe do seu filho e o seu filho precisavam de todo o seu lado forte, do seu lado maturo, o seu lado de bom companheiro e pai. Limpou as lágrimas e endireitou a roupa, respirou fundo meia dúzia de vezes e seguiu caminho, até casa... Antes de mais precisava de descansar. Pouco ou nada tinha dormido e precisava de fazê-lo e recuperar energias para enfrentar uma das maiores dificuldades da sua vida.

(Algumas horas mais tarde)
Pedro adormeceu sossegadamente na sua cama, e parecia nada o acordar, a sua cabeça descansara completamente enquanto dormira naquelas horas e nem Raphael, recém-chegado das mini-férias na sua terra o acordou e o rapaz apesar de estranhar a sua presença, mais cedo do que esperava, não o acordou e deixou-o descansar, nada o acordara, nem mesmo o telemóvel que tocava repetidamente vezes e vezes sem conta.

-Pedro acorda! - Gritou Raphael a Pedro, mas nem assim o rapaz despertou. - Pedro, é importante por favor!
Raphael assustado até levou as mãos ao pescoço de Pedro para ver se o rapaz respirava mas confirmava-se, o que ainda o preocupara mais, por isso decidiu ir até à cozinha encher uma panela de água fria e deixar cair para cima de Pedro, era impossível não acordar assim.
-Mas tu estás parvo? - Gritou Pedro a Raphael assim que despertou. - Tu sabes a temperatura que está lá fora para me mandares com uma coisa dessas?
-Pedro é mesmo importante. - Sentou-se sobre a cama. - Acredita que noutra circunstância não o faria mas tu não acordavas por nada e precisam de ti mais do que nunca.
-O que se passou? Está tudo bem?
-O teu telemóvel estava farto de tocar e tu não acordavas por nada, e eu decidi atender, eram os pais da Matilde. Ela teve um acidente de carro e está mal...
-E o meu filho?
-Não sei... Precisas de ir para lá rápido.
Pedro nem mudou de camisola, agarrou nas chaves do carro, de casa, na carteira e no telemóvel e saiu.

(Sofia)
Depois do que se havia passado entre si e o “irmão” não tivera coragem sequer de fechar os olhos e tentar descansar, apesar de se sentir cansada. Não era o arrependimento que a corroía, era os pensamentos de quem tinha estragado tudo, mais uma vez. Olhava para o teto de olhos bem abertos e pensava como iria lidar com Diogo depois do que se sucedera, como ficaria a relação dele com a Rita e a sua com Filipe, afinal ambos haviam traído os namorados e ela ainda tinha de lhe dizer que estava grávida... Mas não era seu filho. Diogo também não pregara olho, olhava também para o teto e pensava no que haviam feito, tinha sido bom, sem dúvida alguma, mas como ficaria tudo depois? O silêncio respondia a todas as questões, ou melhor, não respondia, mas era mais fácil calarem-se em vez de falarem sobre o que sucedera.
Sofia levantou-se da cama e vestiu a roupa, saiu do quarto e foi preparar alguma coisa para comer, talvez a comida a ajudasse a esclarecer as ideias, mas Diogo vestiu-se também e foi atrás da rapariga para a cozinha.

-Não te magoei, pois não?
-Porque me haverias de magoar?
-Talvez fui bruto e tenho medo por causa do bebé.

Sofia riu-se.

-O bebé não sentiu nada, está descansado. Mas como sabes?
-Não precisas de me dizer, o teu corpo e as tuas reações disseram-no.

Depois de lhe responder, ambos mergulharam num silêncio absoluto e ensurdecedor mais uma vez, de seguida, ela preparou o almoço e depois de pronto foi tomar banho, onde ligou a música e Diogo, que esperava por ela para almoçar, ficou preocupado com a demora dela e acabou por se levantar da mesa e ir até à casa de banho, onde viu a irmã sentada de pernas dobradas e os braços a abraçá-los.

-Sofia? - Diogo irrompeu os seus pensamentos, mas nem assim ela respondeu. - Nós pudemos simplesmente esquecer o que se passou, é o mais fácil, para todos.
A rapariga levantou a cabeça e ele viu-a de lágrimas nos olhos.
-Até pudemos fingir que não se passou nada, e fazermos um pacto de segredo, e escondermos isto dos nossos namorados, mas eu simplesmente não posso, nem consigo esquecer, entendes? O Filipe gosta imenso de mim e fez tanto por nós, e especialmente por mim, e eu traí-o, e estou grávida de um filho que não é dele... Como é que lhe vou dizer isso?
-Primeiro, acho que este banho te fez mal, e que te deverias limpar e vestir, depois vais para a mesa e depois de almoçarmos vais falar tudo comigo, pode ser?
Sofia abanou positivamente a cabeça e decidiu seguir o conselho do irmão. Depois de se vestir e de almoçarem, decidiu falar.
-Eu vou-te contar tudo, desde o início. - Respirou fundo e focou-se apenas no facto de estar ali, a desabafar com o seu irmão, de sempre. - Ontem quando soube que não era realmente tua irmã. - Engoliu em seco e prometeu a si mesma que não iria chorar enquanto estivesse a falar. - Eu fui para a praia... Para a minha praia. E precisava de apoio, precisava de alguém e o mar acabou por me incentivar a ligar o Pedro. Depois viemos para Lisboa, e ele fez-me comer, aqueceu-me e depois deitou-me na cama... Mas eu pedi-lhe para ele se deitar ao pé de mim e eu quis mais e ele disse que não. Ele tem e quer a Matilde, e o filho deles, não me quer a mim... E eu queria dizer-lhe que ele está à espera de um outro filho... Meu. Mas ele percebeu que era do Filipe e eu simplesmente não lhe consegui dizer a verdade. E agora nem sequer tenho pai para o meu filho, o verdadeiro não sabe que é pai dele, e o namorado da mãe, não é verdadeiramente o pai, e o padrinho e tio, bem... Foi para a cama com a mãe.
-E porque não lhe escreves uma carta?
Sofia sorriu, claramente não haveria ideia melhor para fazer, quando sentia dificuldade em falar sobre algum assunto, escrevia, porque até era bem mais fácil fazê-lo que dizê-lo.
-Parece-me uma excelente ideia.
A rapariga foi buscar um papel e uma caneta e decidiu escrever uma carta a contar a verdade... Mas não toda.

Querido Filipe,
Escrevo-te para dizer o quanto gosto de ti, te agradeço e acima de tudo, te peço desculpa.
Gosto realmente de ti, da tua forma de viveres cada dia, da tua força para lutares quando realmente amas, a tua forma de perdoar, e essa é, sem dúvida alguma, a que mais admiro em ti...
É incrível como tu consegues perdoar as pessoas mesmo sabendo que elas não estão arrependidas por te magoarem, nem mesmo quando simplesmente não te pedem desculpa por terem-no feito mas acabas por perdoar porque tens um coração demasiado puro para guardares qualquer tipo de rancor no seu interior. Quando tu gostas, tu realmente fá-lo de uma forma intensa e mesmo que tenhas de lutar contra a lógica e o óbvio, tu fá-lo, sem hesitar, porque sentes que realmente vale a pena, que é merecido esse sentimento, mas também sabes separar os teus sentimentos quando se fala da felicidade dos que amas... E tu amas-me. Não o consegues negar a ti mesmo, mas também não o consegues dizer em voz alta, porque sabes o que isso pode vir a fazer nas nossas vidas, na tua vida, quando tu assumires ao mundo que não poderias estar mais apaixonado por mim. E eu sinceramente admiro a tua coragem, a tua força e a tua amizade por mim, porque pões o meu bem-estar em frente ao teu, porque quando choro à noite e quando sabes que estou a sofrer por algo que se passou com o Pedro, ou apenas por lembranças, e tu por uns minutos esqueces os teus sentimentos e dás-me apoio, mais que uma prova de amizade, é uma prova de amor. E eu gostava de te poder agradecer por tudo o que tens feito por mim, mas uma vida não chegaria para tudo, porque embora, o mereças, eu simplesmente não consigo retribuir todo esse amor por ti. Talvez se tivesse aparecido noutra altura da minha vida, noutras circunstâncias, não te estaria esta carta, mas sim uma completamente diferente, e embora não tenhas culpa, eu tenho-a, mas não posso negar aquilo que sinto e enganar-nos a todos. Desculpa, mas simplesmente não o posso fazer.
És um rapaz que além de lindíssimo, tens um enorme potencial futebolístico, e se o Benfica se atrever a desperdiçar, por qualquer motivo, eu mudo radicalmente a minha forma de ver futebol e vou ter umas lições com o livro do Mourinho ou assim...
Mas falando de assuntos sérios, eu tenho de te pedir desculpa. Desculpa por não te amar da mesma forma e por não me ter dedicado à nossa relação, ao nosso namoro, da mesma forma que tu... E é também por isso que te escrevo. Porque eu fui a culpada por te magoar tanto, por nos começarmos a envolver e por ter deixado as coisas chegarem tão longe.
Eu nunca te deveria ter provocado antes de nos envolvermos pela primeira vez, não devia ter-se usado para uns bons momentos de prazer, não deveria ter aceite o teu pedido de namoro, embora fosse, só no início, para fazer ciúmes, poderia ter feito tudo de uma forma tão diferente e acredita que se pudesse, voltava atrás só para não te magoar... E para te enganar.
Não, não te traí. Cumpri a minha promessa. Mas eu estou grávida... De quatro semanas. E eu sei, ambos sabemos que este filho não é teu. E eu nunca te pediria para o assumires e para cuidares como se fosse, mas também não te posso enganar de nenhuma forma, e fingir que o era. E é por esses motivos que te escrevo, sabes o que isto significa... Que não podemos simplesmente estar juntos e fingir que nada se passa, que este bebé não é nada, mas também não pudemos fingir que não se passou nada. Filipe, eu só sei que o melhor para ti, não sou eu e como cobarde que sou, achei por bem dizer-to numa carta, para poderes seguir a tua vida, e assim recuperares de todo o sofrimento que causei à tua vida.
Desculpa,
De uma pessoa que nunca te deveria ter entrado na tua vida,
Sofia Roch(inh)a”

Depois de terminar de escrever a carta limpou as lágrimas, dobrou-a e tomou uma decisão, iria dá-la a Filipe e se ele quisesse perguntar-lhe algo, iria responder-lhe. Embora soubesse que ele merecia muito mais que uma carta, ela simplesmente não conseguia fazê-lo, por isso seria melhor escrevê-lo. Pediu a Diogo para a levar até casa do Filipe, e embora se tentasse mentalizar que tinha de ter calma para o que iria viver e precisava de fazê-lo para o pequeno “feijãozinho” que tinha na barriga, mas ela sabia que não podia, nem conseguia mudar a sua vida por causa daquele bebé, pelo menos os seus sentimentos.

(Pedro)
(Passado uns dias)
O rapaz não conseguia recuperar da dor do incerto, da ansiedade de esperar por uma notícia, que poderia cair para um lado positivo ou para um lado negativo, da dor de ver quem gostava mas tanto desvalorizara, mal. Matilde estava no hospital, presa a uma cama e ele sentia-se culpado por tudo o que acontecera e que tudo o que vivera era inteiramente sua culpa e merecia estar a sofrer por isso.
Desde que lhe deram a notícia que ela estava no hospital, na cadeira junto à cama, de onde não sai-a e pernoitava há já várias noites, e onde dormia apenas duas ou três horas, porque tinha medo de acordar já com uma notícia. O desespero começava a domá-lo, e ele não sabia já como pedir uma resposta... Rezara a Jesus, e até ao filho por uma resposta, por uma cura... Por algo. Acordara às 4 horas da manhã daquele dia e decidiu escrever uma carta:

Querida Matilde,
Só damos valor quando perdemos, e eu embora não te tenha perdido, só agora te dei valor. Tarde mais, para te dizer o quanto estou arrependido por todo o sofrimento que te causei e o quão merecias que me tivesse limitado a focar-me no que era o melhor para ti, desde o começo.
Devia ter-te sido completamente sincero desde o início, ter-te dito que não era o melhor para ti, que tinha demasiados problemas na minha vida, e que nenhum estava realmente resolvido para eu conseguir prosseguir com a minha vida. Devia ter-te dito que o que tu sentes é completamente diferente daquilo que eu sinto, e por isso e todos os milhões de motivos que ambos sabemos, nada iria resultar entre nós.
Quando tivemos de lidar com as questões do meu passado, de volta, tu tiveste coragem para os enfrentares, como mulher apaixonada que és, enquanto eu, preferi ignorá-los mas os sentimentos acabaram por vir ao de cima. Eu fingi que o meu passado não me afetava e tu embora soubesses que mentia, davas-me a mão e beijavas-me os lábios e prometias que íamos superar tudo juntos, porque o amor que nos unia era mais forte que isto... Mas tu sabias que era o teu amor que superaria, nunca o meu, porque a tua chama de amor era muito maior que a chama que eu tinha ateado para a fogueira do nosso amor, porque tinha medo de me queimar, medo de me magoar... Tive medo que o passado me consumisse e acabou por ser esse medo irracional que me consumiu.
Fui egoísta e egocêntrico ao pensar sequer que esta relação iria mudar algo no que sentia por ti, e pelo meu passado que tem um nome...
Fui egoísta ao pensar que algum dia conseguiria retribuir tudo o que me davas, que conseguia dar-te todo o meu coração, como tu me havia entregue o teu. Devia ter pensado que simplesmente não era o melhor para ti e por isso nunca iria ser aquilo que mereces. Enquanto que eu para ti era tudo, na minha cabeça tu eras apenas o recomeço... De algo que não tinha acabado.
Eu tentei ser feliz contigo, juro que tentei realmente amar-te mas a minha cabeça sabia que não podia... Mas tentava enganar todos. E tu sabia-lo, sabias que te mentia, mas beijavas-me, e davas-me os teus braços e o mundo por mim, se te pedisse, mesmo sabendo que não tinha sido sincero contigo. É impressionante o amor que me dedicaste e a esta relação, e o esforço e dedicação, que dedicaste a uma relação que sabias desde o começo que estava condenado... Mas quiseste ser mais forte que isso. E eu, injustamente, quis acreditar também que bastava o teu amor para superar tudo, e por isso menti-te, e só hoje, passado seis meses consigo ser sincero contigo, e é através de uma carta depois de te ver deitada numa cama de hospital. E hoje, ao olhar-me ao espelho e a pensar em tudo o que te fiz passar e trouxe à tua vida, que deparo-me que me tornei a pessoa que mais detesto e a única pessoa que tem culpa de toda a mágoa e dura vida que tem sido os teus últimos seis meses.
E hoje, consigo perceber o que fizeste... Tu querias uma prova que eu sentia algo por ti, querias sentir que com uma gravidez eu estaria sempre ao teu lado. Tu inventaste uma gravidez, mas eu simplesmente entendo-te, porque tu querias uma réstia de amor enquanto tu me davas todo o que tinhas em ti. E embora me magoe, eu fico a teu lado e vou ajudar-te a superar tudo... Mas como amigo porque sabes que mereces um amor melhor que o meu.
De um passado irreversível,
Pedro Rebocho.”

Depois de escrever a carta, deixou-a sobre a almofada e decidiu pela primeira vez afastar-se de Matilde, daquela cama e daquele hospital e ir descansar para casa, e para a sua cama e, no dia seguinte, iria voltar aos treinos, embora tivesse ordem do treinador de dispensa até entender que era estava em plenas condições de voltar, ele iria voltar, tinha de continuar a sua vida.

Quando irá acordar Matilde?

Será que Sofia entregou a carta a Filipe? E quem será o pai do bebé de Sofia?

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Capítulo 24: "Sofia, talvez um dia mas hoje não"


(Pedro)
Parecia que o mundo iria ruir sobre os seus pés, que tudo iria descambar sobre si, a vida dificultara-lhe os planos, os sonhos, roubava-lhe quem mais amava e quem mais queria, a dor era tamanha mas a felicidade também deveria sentir-se, nem que fosse pela rapariga, afinal Sofia ia realizar o seu maior sonho, a vida dera-lhe uma segunda oportunidade de ser mãe e ele devia ficar feliz por ela, mas ele não era o pai daquela criança… Estava certo disso. Ela iria ser mãe e Filipe o pai daquela criança, assim como ele seria pai… De um filho de Matilde. Não a iria abandonar, iria viver uma vida inteira ao lado dela apenas para fazer do filho o ser mais amado do mundo e Sofia iria ficar sempre com Filipe, afinal ele era a única pessoa que a conseguira fazer recuperar a felicidade e mais que isso, era ele o pai do seu filho. Sentou-se no sofá e começou a chorar, sentia uma mão apertar o seu coração e uma aflição para respirar, a vida não podia ser tão madrasta, o destino não poderia ser tão duro para eles. Respirou fundo, voltou a respirar e mais uma vez tentou acalmar-se mas parecia impossível.

-Pedro, eu quero que saibas… - Foram interrompidos pela fechadura a abrir que os assustou, mas mesmo assim a reacção era a mesma, Pedro só chorava e Sofia sentada ao seu lado, sem saber o que fazer, queria falar mas não conseguia.
-O que é que fazes aqui?!
Ficaram ambos assustados com aquela voz... Não, seria demasiada coincidência ela aparecer ali, naquele momento e vê-los.

-Eu não acredito Pedro! Juro que não acredito! - Disse revoltada. -No dia de Natal, Pedro! No próprio dia de Natal tu traiste-me! Traiste-nos, a mim e ao teu filho! Não tens vergonha?!
-Não é nada disso que estás a pensar... - Disse Sofia, tentando defender o seu amado.
-Tu não te metas! A culpa disto é toda tua! Antes de apareceres estava tudo bem! És o meu pior pesadelo, o pior pesadelo de toda a gente, não fazes falta nenhuma, só vens fazer estragos ainda não percebeste?!
-Estás a ser injusta Matilde!
-E tu que não a defendesses, Pedro!
-A Sofia é adotada, simplesmente estou a dar-lhe apoio!
-A menina não podia chorar no ombro do irmãozinho ou do namorado? Tinha de vir chorar para os ombros do meu namorado?

Pedro sentia que tinha de optar por uma das raparigas, ou a mãe do seu filho, ou a mulher que mais amava... Que estava grávida de um filho que não era seu.

-Matilde, ouve-me por favor. - Pediu Pedro tentando acalmar a situação. - Nenhum dos dois sabe o que é ser adotado e o que a Sofia deve estar a passar e, como reagiamos se fossemos nós no lugar dela, entendes isso? Então não pudemos julgá-la, nem apontar o dedo. Além do mais, não tens razão para nada daquilo que estás a dizer, é contigo que estou não é verdade? És tu a mãe do meu filho! - Fez-lhe um pequeno carinho na face. - Já vinha a chegar de Évora quando encontrei a Sofia aqui e dei-lhe apoio, agora vou levá-la para Évora para aproveitar uns dias e depois vai para Manchester passar a passagem de ano, mais que nunca,a Sofia precisa de espaço, tempo e compreensão! Tu tens um coração enorme e no fundo gostas dela mas estás ferida, mas esquece isso por uns tempos e foca-te no bem-estar de uma pessoa a quem já chamaste amiga. - Pedro acabou por "falsificar" uma parte do que disse, mas não valeria a pena enervar e chatear uma grávida por algo que achava desnecessário. - E antes que perguntes, sim, vai para Évora para junto da minha família que a conhece bem e de quem foi muito próxima para tentar recuperar que eu volto para os treinos amanhã e não posso apoiar-te a ti e a ela em simultâneo e com treinos.
-Já falaste com o Filipe e com o Diogo? Eles devem estar preocupados e até ter uma resposta...
-Não... Não quero que falem com o Diogo. Por favor.
-Está descansada. - Respondeu Pedro. - Não te importas de ir buscar umas roupas para a Sofia levar para Évora, enquanto eu fico aqui a tratar da Sofia.
-Estou a ir. Até já e muita força Sofia, és muito forte, mais do que pensas, acredita em mim. - Deu-lhe um beijo na testa e saiu, deixando o ex-casalinho sozinho.
-Não lhe contaste da minha gravidez...
-Ela não precisa de saber, Sofia, não tem nada haver com isso, além do mais é uma opção tua contares a mais alguém que não ao pai da criança. - Sofia calou-se, se ao menos ele soubesse o que dizia. - Queres ir para Évora ou preferes ficar com o Filipe?
-Sinceramente não sei... Eu queroo ir, quero mudar de ambiente, tirar uns dias longe de tudo e todos, pensar e repensar, mas como direi ao Filipe que estou longe... Ao pé da tua família?
-Tenho a certeza que ele vai compreender que vás para longe, que te distraias, além disso, também vais ter com o Rony a Manchester, e vai-te fazer bem.

-Devia falar com ele.
-Convida-o para vir cá almoçar, tenho a certeza que ele vai aceitar.
-Ele vai ficar magoado se perceber que eu liguei-te a ti quando precisei e não a ele.
-Ele não precisa de saber, diz-lhe que fui eu que te liguei, sei que não se deve mentir mas foi é a única forma de não os magoarmos.
-Mas também não é mentira dizer que já não nos amamos?
-Sofia, sabes tão bem quanto eu que só isso não basta.
-Basta sim. Basta juntarmo-nos os dois e deitarmos tudo para trás das costas e focarmo-nos no que apenas nós sentimos e na vontade de estarmos juntos, de nos lembrarmos dos planos que tínhamos e os sonhos em comum.
-Sofia, simplesmente não pudemos, agora não, neste momento, nem num futuro próximo pudemos, as nossas vidas seguem caminhos em separados, ainda não percebeste que a vida está a dar-nos uma lição? Que nos está a tentar ensinar algo e esse algo é que não devemos estar juntos. Tu estás com o Filipe, e estás grávida de um filho dele e eu estou com a Matilde e estamos à espera de um filho. - Para Sofia tudo se tornou claro quanto água, a questão não eram eles, mas sim o melhor para os filhos que mereciam ter os pais juntos e não iriam pagar por um erro deles e ela depois do que ouvira não tivera coragem para lhe contar a verdade.

-Pedro... - Sofia queria contar-lhe mas sentia a voz ficar presa nas cordas vocais e uma nó atravessar-lhe a garganta.
-Sofia, talvez um dia mas hoje não.
A rapariga engoliu em seco e colocou a mão sobre a sua barriga, amava mais o(s) seu(s) filhos que qualquer outra pessoa no mundo e era neles que se inspirava e arranjava força.

-Está descansado que eu ligo ao Filipe e fico com ele para me dar forças, não precisas de me levar para lado nenhum.
-Sofia, sabes que talvez isso não seja o melhor...
-Eu sei o que é melhor para mim e para o meu filho. - Respondeu rudemente e Pedro calou-se. - Leva-me até minha casa apenas e depois podes ir para os braços da Matilde, obrigada mas já estou bem.

As hormonas deixam uma mulher com pensamentos esquisitos, desculpou-se interiormente Pedro e ia fazer-lhe a vontade, afinal nunca se contraria uma grávida não é verdade?
O rapaz fez-lhe a vontade e levou-a até sua casa... E de Filipe. Estacionou o carro e Sofia já ia despedir-se dele.

-Nem penses, vou levar-te até mesmo tua casa e ter a certeza que tu ficas bem... E o bebé.

Sofia queria refilar com ele mas acabou por aceitar e deixar-se ir acompanhada até chegar a casa e enquanto iam para a cozinha acabaram por reparar que não estavam sozinhos. Estava um rapaz deitado sobre o sofá com uma pequena manta a cobrir-lhe o corpo e uma perna dentro da manta e outra fora e com o corpo todo desajeitado no sofá, tinha passado mal a noite, com certeza, e tinha adormecido com roupa de rua, nada confortável para uma noite... Que pena que Sofia sentira de Diogo naquele momento mas fora apenas durante uns segundos, depois decidiu despertá-lo da pior forma possível.

-Podes pegar nas tuas coisas e sair daqui para fora, meu caro. - Tirou a manta do corpo dele e fê-lo cair no chão. Pedro não aguentou e soltou uma gargalhada enquanto Sofia riu-se mas apenas durante um segundo, depois retornou à cara séria e antipática de outrora.
-Não sejas tão agressiva com o teu irmão, Sofia! - Advertiu Pedro.
-Eu não tenho família!
-Tens sim! - Respondeu pela primeira vez Diogo. - Tens família e sempre terás! Não somos família biológica mas somos de coração, não podes limitar-te a esquecer-te disso, Sofia! Foram quase 18 anos!
-Sofia... - Pedro tentou chamar-lhe a atenção para se acalmar por causa do bebé que acarretava no ventre.
-Não me venhas com calmas, nem meio-calmas, desapareçam-me os dois da vista, por amor de uma santa!

Pedro acabou por acarretar o pedido dela e sair de casa, mas apenas porque sabia que os irmãos falassem.

-Porque razão o Pedro te pediu para ter calma? O que se passou Ana Sofia?
-Enfia a Ana num sítio que eu cá sei e não sei se percebeste mas mandei-te desaparecer da minha vista!
-Escuta-me por favor. - Pediu mas Sofia não acatou a ideia e deslocou-se até à porta de saída de casa e abriu-a.
-Sais a bem ou queres que te empurre?
-Não vou sair daqui nem que a vaca tussa, Sofia! Para de ser casmurra!

A rapariga fechou a porta e foi até à sala, Diogo acompanhou-a e ambos sentaram-se no sofá e depois de alguns minutos em silêncio, ela rompeu o silêncio.

-Estou grávida... De quatro semanas. - As feições de Diogo modificaram-se por completo a ouvir o tempo de gestação da irmã.
-Isso quer dizer...?
-Sim. - Baixou a cabeça. - Mas ele não sabe... Deste pequeno pormenor.
-Não lhe vais dizer?
-Não. - Respondeu desanimada. - Só tu e o Pedro é que sabem. O Filipe ainda não sabe de nada.
-Mas ele tem o direito de saber.
-Eu sei, vou dizer-lhe hoje.
-Sofia, sei que é uma pergunta estúpida mas... Vais ficar com o bebé?
-Sim. Neste momento é a única certeza que tenho na minha vida.
O irmão abraçou-a e deu-lhe um beijo na testa.
-Admiro-te por isso e por nunca desistires do que queres.
-É o que amo e quero mesmo fazer, sabes? - Começou a chorar. - Diogo, apesar de tudo gostava que este bebé fosse teu afilhado e tivesse uma parte de ti.
-Eu aceito ser padrinho do teu filho mas apenas se disseres ao pai do teu filho que ele o é.
-Diogo... Sabes que é difícil.
-Tanto um como o outro merecem saber.
-Vou fazê-lo, pode é demorar algum tempo.
-Antes do puto nascer, sim?
-Combinado. - Sorriram. - Porque não me disseste... Que não éramos realmente irmãos?
-Eu não sabia... Juro que não sabia. - Respirou fundo. - Eu fui apanhado tão de surpresa quanto tu foste.
-Diogo, eu sinto-me traída... Sinto-me a viver numa mentira. Sinto-me enganada. Sinto-me acima de tudo sozinha. - A rapariga desde que voltara a Lisboa que não sabia o que era sentir-se realmente sozinha e incompreendida no mundo mas agora sentia-o, sentia-o a redobrar, a única pessoa que ela acreditaria na vida, acima de qualquer coisa e qualquer pessoa, afinal não era seu irmão e mais do que qualquer mentira, aquela dor era mais forte.

-Sofia, nunca estarás sozinha. Tu tens este bebé. - Colocou-lhe a mão sobre a barriga. - O Júnior. - Apontou para o céu. - E sempre estarei aqui para ti! - Deu-lhe um beijo na testa e abraçou-a. - Não somos irmãos de sangue e daí? O amor não mudou, a amizade e a confiança também não, somos e seremos sempre irmãos num sítio mais importante. O coração. - Apontou. - E esse bebé vai nascer e vai dar-te ainda mais força e vai juntar-te ao Pedro e aí do meu afilhado que dê noites mal dormidas!
-Sabes que os bebés mesmo que sejam calminhos acordam a meio da noite para comer ou para mudar a fralda, não sabes?
-Sei, mas prefiro pensar que vou ter umas noites descansado antes de levar o puto ao futebol.
-Como vou explicar ao Filipe que o filho não é dele? Ele não merece, não depois de tudo o que fez por mim e pela nossa relação.
-Detesto dizer-te isto, mas tu podias tê-lo evitado, agora estão todos a sofrer.
-Eu sei, eu juro que sei. - Baixou a cabeça. - Mas como poderia adivinhar que depois de tantas vezes com o Filipe, iria engravidar de uma única vez com o Pedro?
-Tenho de te perguntar... - Diogo hesitou e a rapariga rapidamente entendeu.
-Não o faço com o Filipe desde que o fiz com o Pedro... Então desde que começamos a namorar pior ficou... A esse nível íntimo. A chama apagou, parecemos dois velhos. Dois amigos que dormem juntos.
-Vocês pareciam tão ardentes...
-E éramos, antes de começarmos a namorar. Tentei fazer com ele no dia da gala mas ele não quis, tivemos um desentendimento e desde aí que quase existe o medo do contacto, é tão estranho... Eu desejava aquele corpo mas agora que o conheço e assumimos esta relação que as coisas mudaram.
-Já pensaste que talvez tenha sido o teu coração a mandar-te parar que o que estavas a fazer não era o correto?
-Não... Não de todo. - Admitiu. - Eu acho mais que é a nossa relação a amadurecer, nós a encararmos de forma diferente a relação que temos... Deixou de ser apenas o desejo de carne para ser algo mais... Romântico talvez. Eu já tentei mesmo fazê-lo com ele, mas ele simplesmente não quis, disse-me que só o queria para me mentalizar que já esqueci o Pedro, mas como sei que não o esqueci, o estou a usar para fazê-lo.

-O Filipe sempre soube o que tu sentias pelo Pedro.
-E mesmo assim continuou do meu lado e quis namorar comigo, dormir comigo e estar comigo, sabendo que não era por ele que o meu coração batia... E apesar de estar apaixonado por mim desde o início. - Foi apenas a pensar em voz alta que Sofia percebeu os erros que tinha cometido e a influência que estes tinham na vida das pessoas de quem também gostava e a rodeavam. - Eu acreditei mesmo que estava apaixonada pelo Filipe, sabes mano? - Diogo abraçou-a e a rapariga chorou. - Mas como posso organizar a minha vida se ainda estou tão presa ao passado?
-Se tu tentaste superar o Pedro e não conseguiste e se o amas como tu me dizes, deves lutar por ele e não desistir, não é só o filho da Matilde que precisa de um pai, o teu também precisa.
-E vou enganar o Filipe e dizer que o filho é dele quando sei que é do Pedro?
-Não é nada disso que te estou a dizer, Sofia. - Advertiu. - Primeiro que tudo, vais avisar o Filipe que já estás em Lisboa, mas que não vais dormir a vossa casa, eu falo com a Rita, e podes ir para casa dela em Espinho e passas lá uns dias pelo menos até à passagem de ano, onde vais ter com o Rony, durante esse tempo pensas e logo no que é melhor fazer, pode ser?

-Como deixei que a minha vida chegasse a este ponto, mano?
-Sofia, não te culpabilizes por nada disso, lembra-te que o Júnior está a torcer por ti e que só tens este desafio na tua vida porque Deus e o teu filho mais velho sabem que a vais ultrapassar, lembraste?
-Obrigada por apesar de tudo, estares aqui e nunca desistires de mim.
-Nunca o faria, por nada deste mundo. - Abraçou-a e deu-lhe um beijo na testa.
-Se te disser qual é o meu primeiro desejo, não vais acreditar.
-Sofia, és a minha irmãzinha, conheço-te demasiado bem e não me surpreendia nada, sabes disso, certo?
-Sexo. Eu quis sexo. - Disse levantando a cabeça e olhando para o irmão, e aquele olhar era algo diferente... Era muito mais que uma troca de olhares sem intenção de irmãos. O rapaz aproximou a sua face da dela e tinham os lábios a apenas alguns milímetros e ambos olhavam para os lábios um do outro numa tentativa de ganhar coragem para o que iam fazer. - Um momento louco de prazer, selvagem. - Mordeu o lábio.

-Somos irmãos, Sofia...
-É só para experimentarmos.
-Uma vez, sem exceção, sem ninguém mais saber, prometido?

Será que Diogo e Sofia vão realmente fazê-lo?

Será que isso interfira na relação deles? E será que alguém vai perceber do que aconteceu/poderia ter acontecido?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Capítulo 23: "É mais um sinal do destino"


(Sofia)
Sofia acordou naquele dia de Natal bem disposta e feliz, iria reunir a família toda e festejarem aquele dia tão especial, e parecia uma criança com as prendas, apalpava e remexia, separava as suas prendas de todas as outras e e abanava-as na tentativa de descobrir o que era, e os seus olhos brilhavam sempre que as abria. Naquele dia de Natal não era exceção, acordou com o toque da mãe no seu ombro e o sorriso diário que a mãe lhe disponibilizara sempre que a acordara, mas desta vez também o pai ali estava, e deu-lhe um beijo na testa. Ao seu lado na cama estava o irmão, sentou-se e sorriu:

-Bom dia família, não poderia ter melhor acordar.
-Precisamos de falar, filha.

Sofia engoliu em seco, sabia que não poderia ser boa notícia mas que espécie de má notícia seria assim tão má para lhe dar no dia de Natal?! Despiu o pijama e vestiu a roupa que havia decidido usar para aquela ocasião e sentou-se junto à família, olhou para o irmão mas ele não descodificava, nem ajudava, parecia estar tão surpreso quanto ela.

-Que se passou? Estão a assustar-me.
-Não sei como te dizer isto... - Disse a mãe.
-Não se ponham com rodeios por favor, sabem que eu detesto isso.
-Decidimos dar-te esta notícia hoje porque sabemos que é um dia muito importante para ti e talvez te ajudasse a ultrapassar melhor a dor e que possas compreender o nosso lado, que também não é fácil.
-Deixem-se de rodeios, o que se passa?!
-Tu és adotada, Sofia. - Sofia sorriu. Era uma partida, era impossível ser verdade.
-Agora a sério por favor.
-Estamos a falar a sério, filha. - Disse a mãe pousando a mão sobre a sua.

Sofia gelou com o que ouvira, como assim não era filha biológica das pessoas que toda uma vida chamou pais? Como não era irmã de sangue de Diogo? Como lhe haviam escondido este segredo durante quase dezoito anos? Sentou-se no chão sem energias e a digerir o que tinha ouvido.

-Sei que neste momento te deve estar a passar por um turbilhão de sentimentos e perguntas pela cabeça, mas ouve-nos por favor.

Sofia não queria ouvir mais nada, nem mais uma única palavra, nunca mais queria ver nenhum deles ao pé de si, nem queria estar ali. Pegou no telemóvel e saiu a correr, sem rumo ou destino, apenas para longe, mesmo quando as lágrimas inundavam-lhe os olhos e não a deixavam ver o que a rodeava. Andou durante algum tempo até sentir a areia tocar-lhe nos pés, e o vento que corria do mar bater-lhe na cara, sentia o cheiro a maresia e fazia-a sentir melhor mas em simultâneo pior, sentou-se à beira de água com as pernas erguidas e abraçou-as e chorou durante longos minutos... O telemóvel fartava-se de fazer barulho, de tocar e tocar, mas ela nem olhava, nem queria saber, apenas queria chorar e relembrava-se sempre das palavras do seu pai:

-Tu és adotada, filha.” - Mas como é que ele se atrevia a chamar-lhe filha? Mentiram-lhe toda a vida! Tinham-na feito acreditar em tudo o que lhe diziam, talvez nunca a tivessem sequer amado. Só queria esquecer tudo e recuperar a boa fase que vivia anteriormente, queria poder arrancar do seu ombro a tatuagem que havia feito para o seu pai, queria poder dizer a todos que os odiava e não os queria mais ver à frente. E Diogo? Como é que Diogo lhe havia escondido isto? Eles eram irmãos! Talvez não o fossem na verdade, mas ele não poderia ter escondido nada assim...
O mar falava consigo, as ondas molhavam-lhe o corpo e vinham baixinhas e fracas, e por isso diziam apenas um nome, mesmo sem dizer, refletiam uma personalidade e ela sabia bem quem era, a única pessoa que conseguia dar luz ao seu dia, mesmo num dia de trovoada. Pegou no telemóvel, ignorando todas e quaisquer chamadas, limpou as lágrimas e telefonou. Não precisou de ouvir mais de dois toques para o seu dia ganhar luz.

-Sofia. - Não conseguiu segurar mais o desespero e a mágoa e rompeu em lágrimas. - Onde estás? Que se passou?
-Pedro... Pedro... Eu preciso de ti.
-Onde estás?
-Em Espinho... Na nossa praia.
-Vou-me já fazer ao caminho.
-Desculpa. Desculpa de coração. - Sabia que era dia de Natal e iria estragar um dos poucos dias que Pedro conseguia estar com a família e por isso pedia apenas desculpa.
-Sofia, tu precisas de mim é apenas isso que preciso de ouvir.
Ouviu o motor do carro ligar.
-Amo-te.
-Também te amo.

Por muito que sentisse gostar de Filipe, e de se sentir-se feliz com ele, a verdadeira felicidade e por quem dava a vida era apenas e só, Pedro. Era ele quem ela amava e amaria sempre.
Passado pouco mais de duas horas, Pedro chegou a Espinho, o que era pouco para quem teve de percorrer o país de sul a norte, desde Évora até Espinho. Estacionou o carro e foi a correr até à praia onde estava a sua amada, e pegou-a ao colo e levou-a até ao carro, onde abriu a porta do banco traseiro e sentou-se e pousou Sofia no seu colo. Toda ela tremia de frio, deveria estar ali há horas e estava cansada, terrivelmente cansada, Pedro conseguia percebê-lo, deveria ter chorado todo aquele tempo desde que lhe telefonara e quem saberia quanto tempo tinha chorado sozinha antes de lhe ligar, provavelmente também ainda não teria nada no estômago e isso ainda a enfraqueceria mais. Ligou o aquecimento do carro e colocou-lhe uma manta no redor do seu corpo e fê-la colar-se ao seu corpo, a sua cabeça no peito e sussurrou-lhe:

-Sofia?A rapariga não tinha forças para lhe responder apenas teve força para pousar a mão sobre o peito dele e sentir pela primeira vez amor naquele dia.- Precisas de comer alguma coisa. Sofia não queria, sentia-se indisposta e apenas queria continuar sentada no colo de Pedro e assim permanecer até se sentir melhor, mas também sabia que ele não iria desistir, por isso abanou a cabeça devagarinho. Ele pegou num pequeno pacote de bolachas e tirou a primeira, e partindo pedaço a pedaço deu-lhe à boca. -Eu sei que te custa, mas tens mesmo de acabar estas bolachas. -Sofia terminou as bolachas e aconchegou-se ainda mais nos braços de Pedro, era exatamente daquilo que precisava, e foi sem pensar em nada mais e apenas a desfrutar daquele momento que adormeceu... Mas não tardou para acordar aos berros e a chorar. - Meu amor, eu estou aqui. - Agarrou-a e deu-lhe um beijo na testa e outro na ponta do nariz que a fez despertar e sorrir.

-Obrigada. - Pedro deu-lhe um beijo na testa e ambos sorriram. - Por nunca teres desistido de mim e por me amares.
-Nunca vou desistir de ti, nem deixar de te amar, sabes? - Deu-lhe um beijo na ponta do nariz. . Já me podes contar o que se passou?
-Eu sou adotada... Os meus pais não são realmente meus pais.

Assim que o disse rompeu-se em lágrimas e encostou-se ao peito de Pedro e agarrou a camisola enquanto chorava, ele passou o dedo indicador pela sua face e limpou-lhe as 
lágrimas que corriam na sua bochecha esquerda.

-Eu sei que custa, mas tens de ser mais forte que tudo isto.
-Eles mentiram-me toda uma vida, o meu irmão mentiu-me.

Pedro abraçou-a mais uma vez e deu-lhe mais um beijo na ponta do nariz, que sempre a fazia sorrir e sentiu-se um pouco melhor, mas mesmo assim a dor reinava o seu coração.

-Leva-me daqui por favor.
-Os teus pais... - Rapidamente entendeu que tinha errado. - Os Rochinha estão preocupados contigo.
-Não quero saber, de verdade.
-Vou mandar uma mensagem ao Diogo a avisar que estás bem.
-Não quero saber. - Disse aproximando-se e aproximando-se ainda mais do peito de Pedro. - Só quero sair daqui Pedro.

O rapaz pegou no telemóvel e mandou a mensagem a Diogo.

-Vamos para minha casa, em Lisboa?
-Sim, senão te importares.
Pedro pegou em Sofia ao colo e colocou-a no banco ao lado do condutor, depois colocou-se ao lado dela e seguiu caminho em direção a Lisboa.
-Ou preferes ir para tua casa?
-Quero ir para a tua, a minha trás-me demasiadas recordações.
-Assim será. - Sofia encostou a sua cabeça na perna de Pedro e endireitou a manta que cobria o seu corpo. - Não te faz impressão estar aqui?
-Não, deixa-te estar. Vou ligar o aquecimento para ficares mais quente.
-Obrigada, meu amor. - Pousou a mão sobre a mão sobre a perna dele e não demorou até adormecer.
Quando chegaram a Lisboa, e depois de estacionar o carro, Pedro passou a mão pela face de Sofia e despertou-a. Ela abriu os olhos e olhou diretamente para ele.

-Não te queria acordar, desculpa.
-Não tem mal, também temos de ir andado não é verdade?
-Ia pegar-te ao colo e ia levar-te. Já não seria a primeira vez.
-Mas os tempos eram outros... - Olharam um para o outro e não precisaram de dizer mais nada, ambos se lembraram dos tempos em que namoravam.
-Ia relembra-los sozinho.

Aproximaram-se e ele abriu a porta e puderam sentir o frio que assolava a casa inabitada naquela noite, ela gemeu de frio e ele percebeu.

-Sempre foste muito friorenta.
-Tornei-me ainda mais... Depois da gravidez.
-Ainda tenho umas roupas tuas de Inverno guardadas, vou lá buscá-las para usares, e vou preparar alguma coisa para comeres e vou tratar de aquecer o gelo desta casa. - Pedro ia virar costas mas ela agarrou-o no braço.
-Obrigada por abdicares de um dia com a tua família... Por mim.
-Sofia, tu precisavas de mim, teria abdicado de tudo para te deixar bem. - Ela corou, ele fazia-a sempre feliz com simples palavras mas tão boas. - Fico contente por ainda te fazer corar, sabes? Deixa-me estupidamente feliz.
-Tu abdicaste do dia de Natal com a tua família... Por minha causa. É algo que nunca vou esquecer.
-Sofia, tu não estavas bem e não iria aproveitar o dia só de pensar que não estarias bem.
-E a tua família? Como reagiu?
-Os meus pais adoram-te, sempre te adoram... Mesmo apesar de tudo. Compreenderam perfeitamente e disseram-me para ir.
-Agradece-lhes e manda um beijinho meu.
-Eles agradecem e devolvem-te, de certeza.
-Obrigada.
-Amanhã preciso de falar contigo.
-Não tenho forças Pedro... De verdade que não tenho. Eu estou em pé porque estás ao meu lado sinto-me demasiado fraca para aguentar sozinha.
-Amanhã Sofia. Amanhã conversamos mas é algo que não posso adiar muito tempo. - Pegou nela ao colo e levou-a até ao sofá da sala de estar. - Vou acender a lareira e pôr um aquecedor no meu quarto onde vais dormir e pôr uma bolsinha para te aquecer os pés e umas mantas a mais na cama.
-Podes dormir comigo por favor, Pedro? - Ele hesitou e Sofia percebeu. - Não se vai passar nada... Eu é que não consigo dormir sozinha. - Dito isto rompeu-se em lágrimas. Ele aproximou-se dela e limpou-lhe as lágrimas e deu-lhe um beijo na testa.
-Eu durmo. - Sofia sorriu agradecida. - Mas vais ter de comer umas torradas e um leite quente, combinado?
-Sim. - Disse aconchegando-se nas mantas que a embrulhavam, junto à lareira já preparada por Pedro.
-Ficas bem aqui? Eu não demoro.
-Sim. Não te preocupes.

Ele deu-lhe mais um beijo na testa onde preparou algo para ele e Sofia comerem. De seguida foi preparar a cama para receber Sofia, colocando mais mantas e mais rigorosas,tirou as roupas dela do armário onde guardava todas as memórias dela e levou-a até aos pés do sofá.

-Estas roupas eram tuas... Não sei se ainda te servem.
-Com certeza que ficam bem.

Ele fez-lhe uma pequena festa sobre a face e foi preparar algo para Sofia e ele comerem... Afinal ele pouco ou nada tinha comido e ela... Ela estava demasiado frágil. Depois de ter as torradas e os leites quentes, levou-os até à sala e deu-lhe vagarosamente à boca, aguardando que ela terminasse o que tinha na boca para lhe dar mais e fê-la beber o leite devagarinho, como se fazia às crianças para não se engasgar. Sofia... Ela tentava comer e beber por si mesma, mas assim que levantava os braços, eles caiam. E Pedro... Ele já sabia dos problemas de saúde que ela tinha tido. Já sabia da bulimia, das tentativas de suicídio, ele sabia e por isso não poderia facilitar. Quando terminou de lhe dar a comida suficiente, comeu também ele e depois, sem nada dizer, pegou em Sofia ao colo e levou-a até à cama onde a pousou e tapou-a com as mantas da cama.

-Não te importas? - Disse apontando para a roupa. Ela abanou com a cabeça negativamente e ele despiu a roupa que tinha no corpo e vestiu o pijama, sempre os olhos atentos de Sofia... Que não podia negar que aquele corpo havia desperto em si toda a atenção e até havia captado instintos que o corpo de Filipe já lhe havia adormecido, mas tinha de negá-los, tinha de recusá-los, dissera a Pedro que nada se iria passar e iria cumprir. Ele deitou-se na cama junto a ela, encostou-se e ela começou a chorar... A dor corroía, e iria sempre corroer. Vivera uma mentira por quase dezoito anos. Adormeceu cansada de chorar, e Pedro... Pedro sabia que não iria dormir. Há anos que não dormia assim junto a Sofia, queria admirá-la, queira beijá-la, queria tocar-lhe, queria desfrutar de todos aqueles momentos ao máximo, e decidiu fazer-lhe uma confidência:

-Sofia. - Respirou fundo. - Durante uns tempos odiei-te. Por me teres abandonado sem dizeres nada, do dia para a noite, por tanto te amar e por não conseguir esquecer-te. Que pensei em desistir da minha vida, foram tempos em que sofri. Sofri muito e pensei que não iria conseguir superar, mas tive de levantar a cabeça.
Arranjei forças no teu sorriso e em ti para continuar, porque te amo e quis acreditar que iria voltar a ver-te, e porque te amo mais que a mim, que arranjei forças em ti. E a Matilde apareceu na minha vida... E acabou por acontecer. Ela apaixonou-se por mim e eu deixei-me levar. Sei que não é desculpa mas eu estava fraco e acabei por também sentir algo por ela. Eu jurei, jurei a mim mesmo e ao mundo que sentia verdadeiramente algo, mas hoje... Hoje não sei. Mas não a quero magoar, ela não merece... Não depois de tudo o que fez por mim, por nós. Porque agora estou certo que vamos estar juntos até ao final das nossas vidas. Ela deu-me um filho. Que não foi pensado, nem desejado, ele simplesmente aconteceu... E eu vou ser o pai dele. Nunca o irei negar e ele será amado como foi, e é amado o Júnior, o nosso filho. - Limpou as lágrimas. - E acredita que quando soube dele jurei nunca te perdoar por tudo. Mas hoje... Hoje eu já sei de tudo. Sei que não me abandonaste, mas que foste obrigada a fazê-lo. Que o teu pai te obrigou e por muito que me amasses, amas-o também e não querias desiludi-lo. Que por me teres deixado que sofreste tanto ou mais que eu, que vomitavas tudo o que comias, e que por isso te tornaste bolémica, que te tentaste matar... Eu não viveria sem ti, sabias? - Deu-lhe um beijo na testa. - Dava a minha vida só para garantir que estavas bem e feliz. E agora estás feliz e por muito que te tenha garantido que era o que mais me importa, mas também me causa um misto de emoções contraditórias. Quero e gosto que sejas feliz, mais que ninguém, mereces, mas também me magoa muito o facto de seres feliz... Sem mim. Mas não posso ser tão egoísta. - Limpou as lágrimas. - Sofia, eu descobri o teu blogue e mais que nunca conheço-te e amo-te mais do que nunca. - Dito isto deu-lhe um beijo na testa e adormeceu agarrado à dona do seu coração.
-Não. Por favor não... Diz-me que é mentira, por favor. - Sofia chorou e gritou ao pedir para ser mentira. Pedro despertou segundos antes e abraçou-a.
-Meu amor, já passou. Eu garanto-te que já passou. Deu-lhe um beijo na testa. Sofia limpou as lágrimas que lhe corriam pelo rosto e pousou a cabeça no peito dele. -Sonhei que era adotada, diz-me, por favor, que era só um pesadelo. - Pedro olhou para ela e não teve coragem de lhe dizer a verdade, ela percebeu e encostou-se ao peito dele a chorar de uma forma descontrolava e ele abraçou-a. Sabia bem que quando chorava não deveria dizer nada, deveria sim dar-lhe os braços para abraçá-la e o peito para ela encostar e chorar, deveria deixá-la ficar assim até ela ganhar força para falar, ou até adormecer, o que acontecia na maioria das vezes.
-Porque me amas, Pedro? Porque continuas a amar-me e a estar ao meu lado... Depois de tudo? Porquê, Pedro?
-Prometi que iria sempre apoiar-te e iria amar-te sempre e para sempre e não vou quebrar essa promessa.
Sofia sorriu, era incrível a forma como ele a fazia sentir depois de tanto e tudo o que se tinha passado, quando vivera em Espinho pensara que ele já a tinha esquecido, que o magoara demasiado para ainda a amar, mas quando regressara e com o passar do tempo havia percebido que ele ainda a amava mais e estava ainda mais certa que ele sempre a amaria.

-Estavas a pensar em algo...
-Não te conseguia enganar, nem mesmo se tentasse.
-E posso saber no que estavas a pensar?
-No que fiz para te merecer.
Pedro corou e sorriu. Aquela havia sido a resposta mais genuína e intensa que ela lhe poderia ter dado, não havia pensado sobre ela, apenas lhe tinha dito, sem medos ou hesitações.
-Sofia... Nós não pudemos. Simplesmente não pudemos. Tu tens o Filipe, eu a Matilde, tu estás frágil e eu não posso aproveitar-me disso.
-Estou demasiado fraca, Pedro, preciso de ti mais do que nunca.
-Sofia, dorme, por favor. Não tornes as coisas mais difíceis do que elas já são.
-Tu sempre estarás aqui para mim, eu sei, mas promete-me que tudo isto é apenas um mau momento e amanhã quando acordar estarás aqui.
-Não te vou deixar sozinha Sofia, prometo. - Deu-lhe um beijo na testa. - Mas agora vamos dormir.

Fechou os olhos e deitou-se de barriga para cima, Sofia deu-lhe um beijo na testa e encostou a cabeça ao peito dele e fechou os olhos, sabia que Pedro não iria dormir e que estava apenas a tentar evitar o que poderia acontecer e ela também sabia que não podia ceder, que era apenas a fraqueza a falar, mas precisava dele... E ele pensava com a cabeça e ela precisava de todo o seu coração, mas não o podia condenar por mais, afinal já ele estava ali e dera-lhe tanto naquele dia sem o dever e foi com este pensamento que adormeceu.

Pedro apenas dormiu uma hora, passara horas a olhar para ela, a admirá-la, a senti-la bem junto de si, a admirar a perfeição que ela era e a admiração e o amor que nutria por ela, queria estar assim junto a ela para sempre mas não podiam... Queria acreditar que estavam destinados a ficar juntos, mas a vida parecia querer dificultar tudo, parecia querer juntá-los mas sempre com impedimentos e acabar por separá-los. Pedro iria ser pai, Sofia vivia com Filipe. 

Olhou para os lábios dela, os lábios que já tinha beijado milhares, ou milhões de vezes, os lábios irresistíveis que ela possuía e queria beijá-los mais uma vez, mas sabia que não o podia fazer, seria aproveitar-se dela enquanto dormia. Sofia arrepiou-se e Pedro pode sentir todo o corpo dela embater contra o seu e cativara-lhe todos os movimentos, sensações, todo o corpo "despertou" e ele embora já o conhecesse, queria sempre reconhecê-lo, e voltar a conhecê-lo. Queria mostrar-lhe fisicamente o que sentia por ela, mas não o iria fazer, iria esperar. Iriam fazer tudo bem, desta vez iriam fazer tudo para não magoar ninguém mas ele primeiro tinha que lhe dizer que já sabia de toda a verdade... Adormeceu já passava das 6h a muito custo mas vencido pelo cansaço. Acordou uma hora depois com um toque no ombro.

-Bom dia meu bem.
-Bom dia minha vida.

Sorriram.

-Fiz-te o pequeno-almoço, mas se bem te conheço mal dormiste.
-Acertaste. Mal consegui pregar olho preocupado contigo, só adormeci às 6h, vencido pelo cansaço.
-Então dorme, pouco faltam para as 8h.
-Sempre foste pessoa de acordar cedo, existem coisas que não mudam nunca, não é verdade?
-Pedro, talvez devas mesmo dormir, ontem foi um dia muito cansativo para os dois.
-Sofia, achas que irei pregar olho sabendo que estás acordada e podes precisar de mim?
-Então vamos os dois tentar voltar a dormir, pode ser?
-E o pequeno-almoço?
-Quando acordarmos, comemos.

Sofia pousou o tabuleiro na mesa de cabeceira e pousou a cabeça no peito dele e a mão ao lado. Esperou durante uns minutos e ainda outros.

-Não consegues dormir mais, pois não?
-Só queria que descansasses mais um tempo.
-Sabes bem que basta-me 10 minutos a dormir e acordo como novo.
-Mas devias descansar mais... Aproveitar enquanto não nasce o teu filho.
-Sofia, não vamos falar sobre isso.

Ela assentiu com a cabeça, iria acatar o pedido dele.

-Como estás? - Perguntou Pedro impedindo-a de pensar em algo mais.
-Acho que nunca vou recuperar, sabes?
-Claro que vais, és a pessoa mais forte que conheço.
-Obrigada. - Olhou-o nos olhos onde o azul dos seus olhos cor de mar se confundia com o castanho escuro dos olhos de Pedro. - Ontem nem rezei ao meu filho, deve estar a chamar-me mãe foleira.
-Tu rezas ao Júnior?
-Todos os dias, e falo muito com ele, ainda mais desde...
-Desde?
-Que eu e o Filipe moramos juntos.
-Sabes eu também falo com o Júnior todas as noites, além de meu filho, é meu amigo.
-Pelos vistos é mais um sinal do destino.
-Ou da vida. Somos uns bons pais para o nosso filho... Para o teu filho mais velho.
-Precisamos de falar sobre uma coisa. - Sofia sabia que ele só iria abordar o tema da adoção se ela quisesse, não o iria "puxar" e por isso só poderia ser outro tema e fazia receá-lo.

-Deixa-me falar primeiro, por favor. - Pedro calou-se. - Estou grávida.

Como irá Pedro reagir à notícia?
De quanto tempo estará ela? Será que ele vai ter coragem de lhe contar que já sabe de toda a verdade depois disto?