sábado, 12 de abril de 2014

Capítulo 03: “Ele... Ele... Tem... Outra...”


Filipe não estava á espera de uma história tão intensa, não podia nunca imaginar que o pai dela, lhe fizesse uma crueldade tão desumana. Diogo sabia de quase toda a história. Sabia que o pai nunca gostara de Pedro e que obrigara Sofia a ir para Espinho para a afastar dele, mas não podia nunca, nem imaginar, que a tinha forçado a abortar. O sonho da irmã podia-se ter tornado realidade, senão fosse as atitudes questionáveis do pai.
O primeiro a reagir foi Filipe, que limitou-se a abraça-la como não era abraçada há muito tempo. E Sofia chorou durante bastante tempo, não havia ninguém á excepção da mãe que sabia toda a história desde o começo. Por isso mesmo, não havia ninguém que lhe pudesse dar todo o apoio que necessitava.

-Sofia. – Sussurrou-lhe. – Não sei o que te dizer. Só me apetece abraçar-te e nunca mais te largar. – Disse apertando-a mais nos seus braços. Diogo pousou a mão sobre a mão da irmã.

-Eu não acredito que ele te fez isso. – Disse sem reação possível. –Ele não pode, não tinha coragem... – Disse agonizado e mal disposto só de pensar naquela hipótese. Sofia foi mais forte, controlou as lágrimas e encarou pela primeira vez o problema, não o evitando.

-Mas fez Diogo. Magoou-me muito e nunca pediu desculpa ou mostrou um sinal de arrependimento. Mereço este sofrimento, mas quem deixei para trás não merecia... – Sofia não conseguiu manter a pacificidade e começou a chorar, ainda não era forte o suficiente para conversar sobre o que se havia passado sem chorar, sem sentir uma repulsa e uma náusea por si própria. Sempre que falava sobre o que havia passado, era como se os cortes se voltassem a abrir e a dor agoniante voltasse. Depois de alguns largos minutos a chorar é que conseguiu acalmar-se e exausta por tantas lágrimas derramadas, da longa viagem que fizera e todas as emoções que sentira adormeceu com a cabeça pousada no colo do irmão e com os pés sobre as pernas de Filipe.
Acordou passado algum tempo com o corpo a doer-lhe, apesar de ter adormecido numa posição que lhe parecera confortável. Mas ao contrário de quando tinha adormecido, a sua cabeça não estava pousada no colo do irmão, mas sim numa almofada e os pés estavam descalços e sobre o sofá.

-Diogo, Pipo. – Levantou-se e começou a procurá-los pela casa.

-Querida vem á cozinha! – Ouviu uma voz bastante simpática e convidativa chamar por si e começou a percorrer a casa á procura donde viria aquela voz, assim que encontrou, deparou-se com uma senhora de meia idade que formou um sorriso na cara quando a viu.– Presumo que sejas a Sofia.

-Sim. – Respondeu envergonhada. –E presumo que seja a mãe do Filipe. – Disse não mencionado a alcunha pela qual o chamava.

-Sim, querida. O Filipe foi só levar o teu irmão ao centro de treinos e já deve estar a chegar.

-Obrigada e desculpe o incómodo. Vou só esperar que o Filipe chegue e já me vou embora.

-Sofia senta-te aqui. – Puxou uma cadeira da mesa da cozinha e apontou para a cadeira ao seu lado, como que convidando-a para se sentar. Sofia obedeceu. – O Diogo e o Filipe, Pipo como tu chamas, estiveram-me a explicar a tua situação e estou disposta a ajudar-te, podes ficar aqui o tempo que quiseres. – Disse voluntariamente. – Não temos mais camas cá em casa e o sofá não é tão confortável quanto parece. – Bem que o diga! Comentou Sofia para si mesma. – Mas logo á noite vou ter com o meu marido ao trabalho e vamos comprar um colchão para o Filipe dormir enquanto aqui estiveres. Tens é de partilhar o quarto com ele, e acredita quanto te digo que ele não é um bom exemplo de arrumação. – Sorriram.

-Só iria incomodar e dar problemas, não se incomode, arranjarei outro sítio para ficar.

-Levo a mal senão aceitares o meu convite. – Sofia deu-se por vencida.

-Então faço questão de lhe pagar, por enquanto não tenho muito mas é uma boa ajuda. E quando tiver mais, juro que pago todas e quaisquer despesas que dê.

-Deixa-te estar querida. Faço-o de boa vontade, não quero nada em troca.

-Não sei como lhe agradecer por tudo. De coração. E nem sequer sei o seu nome... – Disse ainda mais envergonhada.

-Maria. Maria Nascimento. E nada de donas, nem senhoras, o meu primeiro nome é Maria. – Sorriram e Sofia entendeu logo o que a mãe de Filipe queria dizer. – Queres ajuda para levares as tuas coisas para o quarto Sofia?

-Não se incomode. – Antes de virar costas repetiu. –Obrigada mais uma vez por tudo.

-É de boa vontade que te ajudo. Querida, tens no quarto do Filipe um armário que ele não usa, não é muito grande, mas sempre podes lá guardar as tuas coisas e as malas podem ir para o armário dele.

-Se lhe agradecer mais alguma vez é capaz de se chatear, por isso, se me dá licença vou arrumar as minhas roupas. – Sorriu e foi até á sala buscar as malas e foi até ao quarto e pousou-as no chão. O quarto era bastante grande, por isso havia espaço para deixar as malas e para colocar um colchão. Procurou o armário que Maria tinha falado e depois de o encontrar começou a arrumar as roupas.

-Olá Soff! – Disse Filipe a entrar no quarto. – Desculpa não te termos dito nada mas estavas a dormir tão bem que te deixei estar. E o Diogo teve mesmo de ir embora.

-Mas já é assim tão tarde?

-Não. São 19h e pouco.

-Tive pena de não lhe dar um beijinho mas eu depois falo com ele.

-Amanhã só temos treino á tarde, se quiseres podemos passar o dia juntos.

-Tenho é que ir á escola de manhã, preciso de saber se está tudo bem com a minha matrícula, ver qual é a minha turma e horário e quais os livros que preciso e claro, se há alguma forma de os ter sem pagar, ou a pagar menos.

-Estás a tirar que curso?

-Estou em letras, porquê?

-No décimo segundo ano, certo?

-Sim.

-Ficas então com os meus livros do ano passado, duvido que tenham mudado.

-Obrigada Pipo! Não sei como te agradecer por tudo!

-Para que servem os amigos?

-Mas os teus pais não têm e não deviam sustentar-me, e tu estás a ser incansável comigo. Obrigada! – Deu-lhe um abraço e um beijinho e com a proximidade que havia, acabou por tocar nos ombros de Filipe. Naquele último ano, tinha desenvolvido bastante. A voz estava mais grossa, o corpo outrora magro, dera lugar os músculos e os ombros estavam mais largos e Sofia não conseguiu evitar tocar-lhe. Era um grande amigo seu, talvez o melhor depois do seu irmão, mas como era possível ficar-lhe indiferente? Durante aquele último ano não tinha deixado que nenhum rapaz se aproximasse, afastara todos os interessados e não olhou para nenhum rapaz, iria ser fiel a Pedro. Mas Filipe era tão bonito, por dentro como por fora. E ela, estava carente. Mas não iria trair o seu namorado, não iria estragar uma amizade e magoar duas pessoas que tanto gostava somente por causa de uma atracção física.

-Meninos, mesa! – Anunciou a mãe de Filipe. Separaram-se e foram até á cozinha onde jantaram e Maria depois de terminarem a refeição, foi embora ter com o marido para comprarem o colchão e depois, começaram também a arrumar a roupa que Sofia havia trazido pelo quarto.

-Se soubesse que estavas em Espinho, tinha ido ter contigo.

-Não tinhas como saber. Mas acredita que nunca desconfiei do valor da nossa amizade.

-Podia ter feito tantas coisas mais, podia ter pressionado mais o teu irmão, podia ter ido até Espinho á tua procura, nem que fosse para perguntar aos teus pais.

-Não te sintas culpado, o meu pai nunca te iria dizer, e o meu irmão não te poderia dizer, porque nem ele sabia.

-Como é que e possível? Ele é teu irmão...

-Sim. Mas o meu pai disse-lhe que fui para um colégio interno.

-Os teus pais já te ligaram? – Perguntou Filipe, mudado de assunto rapidamente.

-Não. Não são meus pais. Ela é minha mãe, mas aquele... Monstro, não é meu pai. Demito-me a acreditar que ele é sangue do meu sangue, senão não me teria feito o que fez. Mas não quero falar sobre isto. – Disse com a mágoa bastante presente na voz.- Mas sim, já me ligaram umas quantas vezes mas nunca atendi.

-E algum dia, ou alguma vez vais atender?

-Não sei. Estou é a pensar mudar de número.

-Põe-te no lugar da tua mãe, não ias gostar de não saber onde está a tua filha.

-A minha mãe é a pessoa que menos culpa tem, e não merece isto. Mas por enquanto, não tenho coragem de falar com ela.

-Mas sabes que é provável que ela desconfie que estejas aqui.

-Depois penso nisso. – Disse claramente a mudar o rumo da conversa. E depois de arrumarem a cozinha, verificaram se os livros estavam todos em ordem, claramente usados mas em bom estado para serem reutilizados.
Sofia estava exausta e Filipe não parou quieto durante o dia, por isso estavam com sono e acabaram por se deitar na cama dele e adormecerem. Era uma cama de solteiro, não era confortável para duas pessoas, mas tentaram ao máximo manter a distância. Filipe acordou quando os pais chegaram, ao contrário de Sofia.
Com o cansaço deixaram-se adormecer até às 11h, e depois de prontos, puseram-se a caminho da escola, Filipe optou por ficar no carro a ler um livro, enquanto Sofia vou verificar a sua turma, os horários e se a transferência tinha sido totalmente aceite. Depois de tudo preparado saiu da escola confiante que iria recuperar a vida que tivera outrora, aquele era o primeiro passo. Quando ao sair deparou-se com algo que nunca imaginara. Algo que partiu o coração em milhões de pedaços.


Pedro estava a beijar outra rapariga. Pedro tinha outra pessoa... E Sofia sentiu  o seu mundo ruir mesmo por debaixo dos seus pés. Não o podia censurar por ter outra pessoa, ela tinha-o abandonado e ele estava a lutar pela sua felicidade. Ela não o iria abandonar, não iria matar um filho, talvez ele a merecesse como não merecia Sofia, e talvez ela iria limitar-se a amá-lo e a fazê-lo feliz. Ele estava feliz, era o que mais importava, mas não podia sentir-se feliz com a felicidade dele, ao lado de outra pessoa. Foi até ao carro, sem nunca derramar uma lágrima e entrou para o lugar do pendura.
Entrou no carro sem dizer uma única palavra, nem cumprimentar o amigo, só conseguia pensar no que acabara de ver. Ele estava feliz... Mas aquela felicidade, custara-lhe a sua felicidade.

-Que se passou Sofia?

-Não fales por favor. Leva-me apenas para casa. – Filipe obedeceu ao pedido de Sofia e conduziu até casa, ligou o rádio mas ela desligou-o. Queria apenas sair daquele sítio, em silêncio absoluto.
Filipe estacionou o carro enquanto caminhavam até casa, ele sentia-se a cada momento mais impotente, mas iria respeitar o pedido da amiga.
Quando chegaram a casa, almoçaram num silêncio assustador e profundo, depois de terminaram Sofia pediu para arrumar a cozinha sozinha e Filipe obedeceu, deixando-a sozinha. Mas ela sabia bem o porquê daquele pedido, iria pôr um termo á vida. Abriu a gaveta dos talheres e tirou de lá a maior faca que existia, olhou para ela e pensou:

“Se tu falhares não sei o que mais me mata”

Continuou a olhar e a perguntar a si mesma se faria mais cortes nos pulsos, como havia feito antes e tinha acabado por sobreviver, ou se faria na garganta,  que sem dúvida seria fatal.
Mas Filipe regressou á cozinha e disse:

-Tens a certeza que não queres ajuda? – Mas ao entrar na cozinha deparou-se com aquela cena.Sofia tinha uma grande faca na mão, e estava a olhar para ela e a colocá-la junto á pele. Correu até ao seu encontro e abraçou-a. – Sofia, não te vou perder outra vez, ouviste? – Disse atirando a faca para o chão, e abraçou a amiga com toda a força. –Por favor, explica-me o que se passou.

-Ele... Ele... Tem... Outra... – Sofia não conseguiu conter as emoções. 

-A única pessoa que merece as tuas lágrimas é a única que nunca te fará chorar. – E começou a limpar as lágrimas que corriam a face de Sofia, mas o corpo dela continuava a tremer, com os nervos que sentia. – Tem calma, eu protego-te. – Agarrou nas mãos de Sofia e olhou-a. – Não me voltes a deixar, promete-me. – Filipe suplicara-lhe com as palavras e com o olhar. Aquele momento tornou-se mais do que um momento de amizade, porque num impulso beijaram-se. Mas Filipe depois de inicialmente se ter deixado levar, acabou por separa os lábios e dizer. –Não Sofia, estás carente. – Mas ela não lhe deu ouvidos. Continuou a beijá-lo e desta vez mais nenhum parou com o que viria a ser uma série de beijos. Não exista um amor que os unisse, apenas existia um sentimento de desejo.
Filipe fez Sofia sentar-se na mesa da cozinha de pernas aberta para si, e enquanto se beijavam, começou a explorar-lhe o corpo. A tocar-lhe em zonas que nunca pensara, explorando as suas ancas e as pernas. Sofia conhecia bem qual era o rumo que tomava e decidiu despiu-lhe a t-shirt. Que lhe respondeu também despindo-a. Ergueu-se da mesa e colocou-se a mão no peito dele e fê-lo ir até ao quarto. Quando lá chegaram, Sofia saltou para o colo dele, ficando presa apenas com as pernas no corpo dele. Os beijos eram intensos mas deixavam de ser nos lábios, Filipe começou a ser mais ousado e a explorar o peito de Sofia, que a levava a sentir pequenos espasmos de prazer. Tão depressa como tinha tudo surgido aquele momento de loucura, as calças de Filipe sairam do seu corpo e os calções dela foram de encontro ao chão. Estavam já em roupa interior, e deitados na cama quando ele disse:

-Isto é um erro. – Tarde demais, pensou Sofia para si mesma.

-Cala-te! – Ordenou e beijou-o e com os desejos carnais bem presentes. Não pensaram em mais anda, apenas em saborearam aquele momento ao máximo. A (pouca) roupa que tinham no corpo desapareceu, e o desejo já antes presente começara a ganhar enormes preporções. Colocaram o preservativo bastante á pressa, sem tomarem em atenção o facto de ficar bem ou mal posto e começaram a fazer sexo. Não era amor, sabiam-no, era apenas os desejos carnais a vencerem a racionalidade e a lógica.
Sexo selvagem, louco e prazeroso foi o que viveram durante imenso tempo, de todas as formas loucas e imagináveis. Deram ouvidos a uma série de loucuras que tinham em mentes e conheceram sentimentos que de todo desconheciam. Nunca tinham vivido algo assim e nunca tinha acontecido envolverem-se com uma pessoa que não amassem. Ambos estavam apaixonados por outras pessoas e acabaram por deixar isso bem claro, enquanto Sofia gritava por Pedro, Filipe gritara também Jéssica. Nenhum deles deu importância ao que gritavam. Aquele era somente um momento prazeroso e sem compromisso da vida de ambos, que pela primeira vez se cruzara.

Não sabiam ao certo a que horas chegava a mãe de Filipe e a loucura da luta contra o tempo ainda lhes dava mais vontade de arriscar, de desafiar o perigo. Só terminaram quando os corpos já não aguentavam mais.

-Uau. – Disse Sofia sentando-se na cama enquanto Filipe vestia os boxers. –Isto foi uma loucura que soube mesmo bem.

-Mais tarde falamos sobre isto. - Disse envergonhado e nervoso á procura das roupas que estavam espalhadas pelo quarto e vestindo-as ao ritmo que as encontrava. Olhou para o relógio. – Vou chegar atrasado ao treino e neste estado. – Disse referindo-se á suor que lhe escorria pelo corpo. – Senão te importares dá um jeitinho ao quarto que eu tenho mesmo de ir. – Deu-lhe um beijo na testa e foi-se embora e Sofia ficou novamente sozinha, sem saber o que fazer.

Como ficará a relação de Sofia e Filipe?
Será que Diogo vai descobrir? Será que Sofia vai ter de deixar a casa dele?

domingo, 23 de março de 2014

Capítulo 02: “É uma longa história...”


-Sofia. – Disse com uma calma característica que possuía. – Tu tens noção do que estás a fazer? Do que estás a deixar para trás?

-Tenho, Diogo. Sei bem o que estou a fazer. Estou a lutar pela minha felicidade. E infelizmente, ao contrário do que sempre sonhei, a minha felicidade é longe do homem que chamas pai. Estou a deixar amigos e mais importante, os meus avôs e a minha mãe, mas não vou desistir sabes porquê? Porque ás vezes é preciso dar um passo atrás para, mais tarde, dar dois para a frente. Não vai ser fácil, vou ter que estudar e trabalhar para conseguir ter um tecto sobre qual dormir e comida, nem que seja só para ter uma refeição diária. Mas não vou desistir de viver, e em Espinho eu limitei-me a sobreviver.

-Só quero que tu percebas que nada está como tu deixaste e que muitas das coisas que até podias dar como certas, já não estão assim. Quero que percebas isso para evitar que sofras.

-Sei que não vai ser fácil, mas estou disposta a lutar. Não é apenas pelo Pedro, é pelos amigos que cá deixei como o Filipe, mas ainda mais em especial por ti Diogo, sei que não estarei sozinha se te viver á minha beira.

-Em Espinho também não estás sozinha, porque independentemente dos quilómetros que nos separem tens-me a apoiar-te, além dos teus amigos de infância, e também os avós e a mãe, e o pai apesar de tudo também.

-Tu sabes que não é bem assim. Os amigos, se forem verdadeiros não os perco, os avós sabem que os admiro muito e que estarão sempre no meu coração e a mãe... Ela não sabe onde estou mas eu deixei-lhe uma carta.

-Tu fugiste? – Perguntou incrédulo.

-Sim. Tive o último ano a poupar dinheiro suficiente para pagar a viagem para cá e tenho dinheiro para sobreviver durante uns tempos, não é muito mas chega.

-Só quero que percebas que por aqui as coisas também não são fáceis. Continuo a viver no Caixa por enquanto, mas estou á procura de uma casa para ir viver com o Filipe. Logo não te consigo dar uma casa e o dinheiro que ganho também não é muito. Mas dá para os dois, mas sem grandes luxos.

-Já pedi transferência para a minha escola antiga, senão ficava aqui a dormir pelas ruas ou assim e ia para a escola.

-Não. Eu ajudo-te, e apoio. Não te vou abandonar nem hoje, nem nunca. Só que me apanhaste desprevenido, nem tudo é tão fácil.

-Eu sei bem que não é fácil, Diogo. Não conheces a minha luta diária e ao longo do último ano. Aprendi que passo um obstáculo e logo de seguida vem um maior. Mas não vou desistir Diogo, não vou voltar para lá.

-Tu vais aprender com os teus próprios erros, vais entender que nem tudo é como pensas e que há lutas que não são para tu travares e que o passado está morto e enterrado.

-Diogo, não sou infantil a esse ponto. Conheço-te e sei que há algo que não me queres ou não consegues contar, mas não vou insistir. Quero apenas saber se conto contigo para me apoiares.

-Sem dúvida, aconteça o que acontecer não te vou deixar ficar mal, mana. Deixa-me só perguntar ao Filipe se podes ir almoçar a casa dele. – Pousou a mão sobre o telefone e trocou dois dedos de conversa com o amigo. – Eu mando-te a morada por mensagem, apanhas um táxi e vais lá ter pode ser?

-Sim, claro. Vai mais alguém convosco? – Perguntou ansiosa por saber se iria matar saudades de uma das pessoas que mais gostara na vida.

-Não Sofia, ele não vai connosco. Nem ele nem mais ninguém.

-Depois eu mato as saudades todas juntas! Não acredito vou estar com o Pipo! – Filipe era um dos amigos que Sofia mais lamentava de se ter afastado, era um verdadeiro amigo e companheiro. Por mais que uma vez disse-lhe que era como um irmão de sangue.

-E vais matar saudades minhas, não estás feliz? – Perguntou Diogo com uma pontinha de ciúmes.

-Ainda a semana passada te vi! – Respondeu brincando com o irmão. – Sabes perfeitamente que a pessoa que morro mais de saudades és tu!
-Eu bem que sabia, tu amas-me!

-Tu amas-me mais!

Acabaram por se despedirem pouco depois e Sofia pediu ao irmão para ser ela a surpreender Filipe.  Não era o primeiro grande desafio que enfrentava naquele dia. Tinha abandonado Espinho no mesmo dia, e grande parte da viagem de comboio fê-la a tentar arranjar um plano para refazer a sua vida, mas sabia que a partir do momento em que chegaria a Lisboa iriam existir milhões de outros conflitos e lutas, e a sua principal guerra era reconquistar a vida que tivera.

Acabou por dar a morada ao taxista e a partir em direção a casa do amigo. A viagem foi tranquila e nada conversadora, Sofia gostava muito de conversar e de ter uma boa e grande conversa mas desta vez não conseguiu falar com o também simpático taxista. Estava demasiado pensativa para o fazer. O irmão estava a esconder-lhe algo e ela queria saber o que era. Assim que chegou a casa do amigo, pagou ao taxista e começou a retirar as malas para fora do carro e contou com ajuda do condutor. Pareciam muitas malas e muita bagagem, mas para ela era pouco. Sentiu que tudo o que a representava estava ali. E apenas ali. E os dois objetos que trazia na mão direita, eram os que mais significado que tinham para si.  



Pedro comprou dois ursinhos de peluche semelhantes, guardou um e deu outro a Sofia. Comprou também dois anéis de prata. No interior existia a descição “23”, que representava mais que um número para aquele casal. Pedro havia nascido a 23 de Janeiro, e Sofia a 2 de Março (2/3), embora a sua data prevista de nascimento fosse a 22 de Abril (nasceu prematura), começaram também a namorar no 15ºaniversário de Sofia.  Por isso 23 era o número predilecto de ambos e significava muito e só conseguiam chegar a uma conclusão: se no passado, as vidas se haviam cruzado, nem que fosse por números, então o futuro também estava unido. Desde que o abandonara que não tinha voltado a tirar aquele anel do seu dedo anelar da mão direita e o peluche andava sempre na sua mão, todos os dias, a todas as horas.
Esperou alguns minutos pelos “irmãos” e enquanto Diogo acabava de estacionar o carro, Filipe saiu do carro, ainda em andamento e correu até aos braços da amiga e deram um abraço forte.

-Que saudades tuas Soff! – Era uma das alcunhas carinhosas que Filipe tinha dado a Sofia.

-E eu tuas Pipo! – Sofia ao contrário de todos os outros, não o tratava pelo nome, mas pelo alcunha que lhe dera.

-Que é que feito de ti boneca? Há mais de um ano que não tenho notícias tuas. – Disse pousando a amiga no chão depois do forte abraço que lhe deu.

-Há menos de um ano, fica sabendo. É uma longa história, depois conto-te. E tu como tens andado?

-Agora o que menos interessa sou eu, Soff. – Olhou para Sofia e admirou as suas diferenças. – Mas tenho que te dizer que este último ano fez-te bem. Olha só para ti, estás uma mulherzinha!

-Bem, acredita que não fez. Mas como te disse é uma longa história, estou muito diferente, cresci muito este último ano.

-Já percebi isso. Cadê o teu sorriso de antes? – Disse tentando imitar o sotaque brasileiro, mas como sempre, não lhe correra nada bem. Sofia sorriu timidamente e respondeu:

-Não mudaste nada! Quer dizer... Continuas a mesma pessoa, porque o teu corpo também desenvolveu bastante. Estás um homem! – Filipe sorriu envergonhadamente. Mas aquele momento constrangedor acabou por ser interrompido por Diogo.

-Já vi que tinhas mais saudades do teu maninho que do teu mano! – Disse enciumado Diogo.
Sofia surpreendeu-os e abraçou os dois em simultâneo. Sussurrou-lhes:

-Vocês são uma das razões pelas quais voltei! – Deu um beijinho na bochecha de cada um e passado alguns segundos soltou-os dos seus braços. Eram bom regressar até junto dos seus amigos, lutar pela sua felicidade e simplesmente sentira mais durante aqueles minutos, do que durante o último ano de vida
Dividiram as malas por todos e foram até casa de Filipe, por sorte, tinham trazido o almoço e até o terminarem foi rápido. Depois de lavarem a loiça e de arrumarem a cozinha, foram até á sala. No mesmo sofá sentaram-se Filipe á esquerda, Sofia no meio e mais á direita estava Diogo. Estava na altura de contar tudo:

-Pipo, acho que tens o direito de saber porque é que eu fugi e só regressei agora... E tu Diogo, mereças saber toda a verdade também. – Respondeu com frontalidade mas também com mágoa, sabia que tinham o direito de saber toda a verdade mas não era fácil contá-la e muito menos, no mesmo dia em que deixara Espinho.

-Sofia, aconteça o que acontecer, estarei ao teu lado, a apoiar-te e a ajudar-te. Pelo que percebi não é fácil, podes guardar para ti e um dia mais tarde, quando tiveres coragem e sem mágoa na voz, contas. – Respondeu Filipe calmamente.  

-Vocês têm de saber tudo, merecem como ninguém. – Respirou fundo e beijou o anel, apertou bastante o peluche, a quem chamava Miguel, que era o segundo nome de Pedro e continuou. – Eu mudei muito neste último ano, aprendi a ver as coisas de forma diferente e que a vida trás-nos sempre obstáculos, até de onde não esperamos. Há um ano atrás, estive grávida. – Fez uma breve pausa. – Mas perdi o bebé. Não, eu matei o meu filho. Tive a minha oportunidade de realizar o meu sonho de ser mãe, mas desperdicei-a. O homem que me fez – Desde o que acontecera nunca mais o tinha chamado de pai. Obrigou-me a abortar e a matar um ser que vivia no meu ventre que não tinha culpa nenhuma de ter vida, de ter sido formado. Mas a culpa foi minha, se eu tivesse lutado mais, talvez hoje fossemos uma família, eu, o meu filho e o pai. Mas as maldades daquele homem não ficaram por aí. – Engoliu em seco. – Ele obrigou-me a abandonar tudo e a limitar-me a ir embora sem poder dizer nada a ninguém. Não me pude despedir ou lutar contra isso. – Limpou as lágrimas que atravessavam o rosto. – E não consegui viver com tudo. Tentei ser feliz em Espinho, a sério que tentei, mas não consegui. E por isso... – Apontou para os pulsos onde foi visível os cortes que tinha nos pulsos que nunca desapareceriam. – Cortei-me, mas o meu corpo venceu a minha alma e não morri, mas não desisti. Tentei matar-me duas vezes no mar. – Diogo e Filipe eram as primeiras pessoas com quem Sofia tinha partilhado esta informação. -Mas fui tão fraca que nem consegui matar o maior monstro que conheço. – Apontou para si mesma. – Mereço sofrer desta forma, e de todas as torturas que existem. Mas não os que amo. E por isso, no último ano tentei ao máximo poupar dinheiro para voltar para me certificar que os que amo são felizes, sem mim, mas com uma justificação para tudo o que aconteceu e por vos ter abandonado. – Disse sem conseguir conter as lágrimas. Podia passar um ano, ou uma vida, Sofia nunca se iria perdoar pelo que fizera e pela mágoa que causara aos que amava. Em especial a Pedro e sentir que deixava o filho orgulhoso no céu.

Como irão reagir Diogo e Filipe?
Será que vão continuar a apoiá-la? Será que vai encontrar reconquistar a felicidade? 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Capítulo 01 “Vou lutar pela minha felicidade”



“Querido Pedro,

Tu és o meu melhor amigo e namorado, és alguém que eu preciso para ser feliz e foi graças a ti também, que aprendi a amar alguém com esta intensidade. Que preciso dela para viver e não apenas para sobreviver, como me tenho limitado a fazer. Tenho que te agradecer por todas as palavras, por todo o carinho, por todos os beijinhos, todos os gestos de amizade e amor, pelos momentos que vivemos lado a lado, por me fazeres feliz, mesmo sabendo que mereces melhor. Ficar-te-ei grata para o resto da minha vida. 

Desde o começo que senti que eras especial, e aos poucos e poucos comecei a perceber que estava certa. O que começou com uma bonita amizade acabou por se tornar num ainda mais bonito romance. Nunca tive medo que me magoasses, que traisses os meus sentimentos ou simplesmente me abandonasses, apenas queria que fosses feliz com o melhor e eu simplesmente não o sou. Mas tu abdicaste do teu melhor por mim. E eu apenas te posso agradecer do fundo do meu coração, por tudo. 

Esta carta pode nunca te chegar ás mãos, mas escrevo-a com esperança que, algum dia, a leias. Seria incapaz de te abandonar, de te deixar á mercê, mas fui forçada a fazê-lo, fui obrigada a desistir de nós. Pedro, nunca foi a minha vontade. Tive de deixar para trás a vida que vivia, a deixar-te e a desistir de um sonho nosso, em especial uma ambição que sempre tive, desde os meus tempos de infância. Sofri um aborto. Não, matei um filho, matei o nosso filho, uma criança, um bebé que vivia no meu ventre, fruto do nosso amor, e que não tinha culpa do nosso “erro”. Posso culpar o meu pai por tudo, ele forçou-me a matar o Benjamim, que tinha pelo menos a dignidade de ter um nome. Tu perguntas como foi possível ter engravidado, sinceramente não sei, foi obra do destino. Aconteceu.

Peço-te desculpa por te ter magoado, desiludido, abandonado, por ter morto o nosso filho e por ter abdicado de nós, por te ter deixado para trás, sem dizer uma palavra, mas não consegui fazê-lo. Não culpes o Diogo, ele não sabe de nada, nem a ele consegui dizer. Toda a culpa é somente minha e vou viver com esse peso na consciência para o resto da minha vida, a vítima nesta história não sou eu. És tu. E o nosso filho. Tudo o que aconteceu foi por minha culpa e nem um milhão de desculpas, perdões e justificações desculpam o que fiz, mas apenas gostava que soubesses o que verdadeiramente aconteceu. 

Nunca te deixei por minha vontade, por não te amar, ou por cobardia, nunca tive intenção de te magoar, ou deixar, queria apenas que fosses feliz e nem isso consegui fazer, por isso falhei. Mas quero que sigas com a tua vida e que sejas feliz, sem mim. Tenho a certeza que nunca vou esquecer o que sinto por ti, e muito menos te irei esquecer, mas peço-te que me esqueças, que sejas feliz. Encontra alguém que te mereça e não tenha atitudes infantis, que te abandone ou que mate um filho teu. Apenas alguém que te dê o que mereces.

Amo-te, sempre.

Ana Sofia Costa Roch(inh)a”

Esta carta foi escrita há um ano, no dia em que foi forçada a abandonar a vida que vivia e recomeçar, noutro local, com outras pessoas, com outros amigos e dar outro rumo à sua vida, contra a sua vontade. Sem puder defender-se ou fazer uma despedida aos que deixara para trás. Chorou durante dias a fio, sem se alimentar e a involuntariamente vomitar tudo o que tentava comer, sentia-se a pior pessoa do mundo, a mais infeliz e também a mais cobarde. Sentia-se fraca e a pouca auto-estima que nutria por si mesma, desapareceu. Detestava a sua forma de ser, a sua forma de estar na vida, o seu exterior, detestava tudo o que descrevia a Sofia Rocha. A culpa não era sua, fora somente do seu pai, mas ela sentia que era sua, porque tinha sido cobarde. Sentia-se culpada pela volta de 180º graus que a vida dera. 

Abandonou o namorado, matou um filho, desapareceu de perto dos seus amigos e do seu melhor amigo, o irmão Diogo, simplesmente desapareceu... 

O pai forçara-a, mas Sofia sentia que podia se ter defendido melhor. Que podia ter evitado toda aquela situação.

Ana Sofia Rocha nasceu em Espinho, a 3 de Março, 10 meses depois do irmão, Diogo. E sempre foram cúmplices. Os melhores amigos e companheiros em todas as aventuras da vida. Tiveram uma infância feliz e muito irrequieta, com muitas aventuras que viveram lado a lado e por isso, quando ele recebeu o convite para ir viver para o Seixal, ela não hesitou em acompanhá-lo também. 

Para Sofia foi mais difícil a adaptação, deixou para trás amigos de infância, a terra que a viu nascer e a família que era o seu grande suporte. Sempre tivera o hábito de ir todos os dias à praia, ora sozinha, outrora com o irmão, ou por vezes, também com os melhores amigos, mas quando se mudou para o Seixal, viu a sua rotina ser esquecida, ou melhor, alterada. Amava sentir a areia a arrastar-se por entre os seus dedos dos pés e as ondas fortes cheias de sal e bastante frias, a baterem nos tornozelos, mas para ela era uma ótima sensação, tanto durante o Verão como em qualquer outra estação. 

O seu signo era peixes, tudo o que envolvia água, transmitia-lhe uma sensação de confiança e carinho, era como um amigo, que a escutava e nunca a julgava. Por isso mesmo, conseguia ficar horas a fio, sentada na areia apenas a conversar. Quem a observava, julgava que conversava sozinha, mas Sofia desabafava com o mar, e sentia que era este lhe respondia, através das ondas. 

E dois dias depois, do regresso forçado, a Espinho, foi até a uma das praias da cidade e sentiu-se aliciada a ter uma atitude, que mais tarde, classificou como erro. O mar aliciou a fazer algo que nunca antes lhe tinha passado pela mente. Despiu a roupa que cobria o corpo e entrou na água. Mas não era apenas com o objetivo de tomar banho. Sofia tentou matar-se.

Entrou na água e começou a sentir a diferença de temperaturas, a água estava muito fria enquanto o seu corpo estava bastante quente. Foi entrado, pouco a pouco e quando cobriu os cortes que fizera dias antes, nos pulsos, é que sentiu a dor mais uma vez, bem presente no corpo.

Mas mesmo assim, continuou. Tentou sufocar-se com a escassez de ar que existia naquele local. Mas não conseguiu ir adiante e mais uma vez sentiu-se fraca e impotente. Repetiu o acto, mas faltou novamente a coragem, na altura em que o corpo pedia para respirar, a mente acabou por empurrá-la de novo para um sacrifício ainda maior, a vida. Saiu da água, a chorar e voltou a vestir a roupa, os cortes que tinha no pulso doíam-lhe como quando os fizera, mas pior era a dor que sentia na alma. Vestiu-se e regressou a casa, a partir desse momento, nunca mais teve coragem de regressar á praia ou de enfrentar o mar. Sentia que o mar a traira.

Regressou a casa e estava o seu avô á sua espera. Deu-lhe um beijo apenas, sem existir uma troca de palavras e foi até á cozinha, cuidar dos seus cortes, que tinham voltado a sangrar. A dor era agoniante, mas Sofia tentava ao máximo escondê-la. Não queria que ninguém soubesse que se tentara matar. Ao contrário dos cortes, esta atitude podia ser facilmente escondida. 

Facto que nunca contou a ninguém, nunca quis partilhar nem com o irmão o que se passara com a sua cabeça, coração e alma. Queria apenas sofrer em silêncio e durante a noite, antes de dormir, chorava até adormecer, muitas vezes sem saber ao certo com que forças acordava no dia seguinte. Limitava-se a sobreviver, como tinha feito antes de conhecer Pedro.

Mas continuava bem presente na sua cabeça, os pensamentos que a levaram até aos cortes que havia feito no pulso.

“Não sei como consigo simplesmente respirar, como consigo sobreviver, depois de ter perdido o meu universo, depois de sentir que me tiraram os pés do cão. O meu corpo e a minha mente têm uma discussão acessa, a minha mente chora, desfeita com esta atitude e com esta consequência, enquanto o meu corpo não apresenta nenhuma dor física. O problema não sou eu, o problema é tudo o que me envolve, o meu coração bombardeia a cada milésimo de segundo, mas o meu sangue, impuro e de uma cobarde continua a correr-me pelas veias. E só se o tirar de mim é que me consigo purificar.

A faca espetada que havia na cozinha era convidativa e acabei por lhe dar o uso, servi-me dela para cortar um animal. O maior animal que conheço eu,. Ambos os pulsos ficaram com cortes com aproximadamente 3 centímetros e começaram a deitar sangue de uma forma, que Sofia nunca tinha visto. E também não demorou muito para perder os sentidos. E já só os recuperou, quando haviam enfermeiros á sua volta, prestando auxílio. Que também a transportaram para o hospital, de onde só saiu, 3 dias depois. Mas sem alta psicológica, tinha de visitar um psiquiatra regularmente.”

Mas também acabou por ter alta rapidamente, Sofia era uma rapariga bastante inteligente e conseguiu enganar toda a gente, em relação á sua saúde mental. E até a nível físico, porque de outras formas, tentara aleijar-se no corpo, mas escondendo ao máximo, as marcas que ficavam.

No ano que se seguiu, Sofia poupou ao máximo dinheiro com um só objetivo, ter dinheiro suficiente para regressar ao Seixal. E quando finalmente o conseguiu, uns dias antes de fazer um ano da sua despedida, arrumou os pertences mais importantes e escreveu uma carta:

“Querida mãe,

Durante um ano menti-te, dei a conhecer uma parte de mim que morreu, limitei-me a demonstrar um lado bom que não tinha, um sorriso na cara e uma felicidade que não sentia, mas por dentro, o sangue continua a correr-me e a mágoa a atravessar-me o corpo. Nunca te quis abandonar, mas não consigo mais viver com este aperto no meu coração, com este sufoco. 

Quero apenas ser feliz, como tenho direito e aqui não o serei. E também não o serei no Seixal. Não quero que me procurem, apenas que me deixem lutar pela minha vida, tenho a certeza que ficarei bem, feliz e segura. Apenas preciso disto mãe, espero que entendas.. 

Não é uma atitude infantil, antes fosse. É uma atitude matura, estou a lutar pelo meu bem e da minha felicidade, e ao contrário do que sempre sonhei, não é junto da minha família que o serei. Não, depois de tudo o que o pai me fez, de quem nunca ouvi um pedido de desculpas e nunca, nem por um segundo, deu a demonstrar qualquer sinal de arrependimento, por me ter colocado neste poço sem fundo. Ficarei bem, prometo-te mãe.

Quando puder, darei notícias.

Amo-te muito, mãe.

Sofia Rochinha”


Sofia escreveu aquela carta apenas para a mãe, porque sentiu que tinha de lhe dar alguma justificação, por mais pequena que fosse. Em relação ao pai, preferia simplesmente pensar, que fora ele que lhe dera vida, e não tinha influência na mulher que era. E era impossível que tivesse influência na pessoa que Diogo era.

Despediu-se da sua casa e olhou, de soslaio para a praia, nunca mais tinha ido á praia desde o dia em que se tentara matar, e pegou nas malas que possuia, eram 7 no total e não poderia contar com qualquer ajuda, mas conseguiu transportá-las até á estação de comboios em Espinho que a levaria até ao Porto, onde mais tarde, apanharia o comboio até Lisboa. Já tinha decidido qual era o local que a iria receber de abraços abertos e esse local, era o Seixal, apenas aquele local fazia sentido. Estaria junto do irmão Diogo, é que iria ser feliz.

E quando chegou á estação de Santa Apolónia, em Lisboa, depois de respirar e admirar a capital portuguesa, agarrou no telemóvel e telefonou ao irmão. Que depois de ouvir o segundo toque, atendeu:

-Olá maninha!

-Olá Diogo! – Respondeu sorrindo, como quase nunca tinha feito no último ano. – É tão bom regressar a Lisboa. – Desabafou.

-Estás em Lisboa? A fazer?

-Em passeio não é de certeza. Vou regressar Diogo, vou lutar pela minha felicidade, aqui. 


Qual será a reação de Diogo?
Será que vai aceitar a irmã de braços abertos? Como irão reagir os pais dela?