sábado, 30 de maio de 2015

Capítulo 16 “Soff, queres namorar comigo?”



Recusar um beijo de Filipe, fora algo que nunca lhe passara pela cabeça, cada vez mais tornara-se um hábito sentir os seus lábios a tocarem nos seus, talvez fosse uma forma de calar o que sentiam, ou, pelo contrário, fosse uma forma de demonstrarem o que sentiam, sem ser por palavras. E apesar de tudo, deixaram o beijo calmo mas sentido, terminar apenas quando o ar começava a escassear, e ao contrário do que ele pensava, Sofia saiu do quarto a correr em direção ao seu, sentou-se na sua cama e começou a pensar:

Tudo na minha vida parece uma telenovela brasileira de mau gosto. Por um lado, Pedro, com quem fiz amor louco e prazeroso, mas que me desprezou logo depois, e que me disse que a dor que lhe deixei era superior ao amor que sentia por mim, e Filipe, que era um amigo, mas desde que começamos a envolver-nos, sejamos sinceros para ter uns bons momentos de prazer, que os meus sentimentos pareciam ter-se modificado. Já nos havíamos envolvido mais que uma vez, e repetimos e cada vez que o fazíamos parecia mudar, já não era mais sexo, mas também não era amor, era um misto. Sinto-me a trair os dois, embora verdadeiramente não o faça.”
-Soff. - Disse Filipe sentando-se ao lado da amiga e tocou-lhe no ombro. - Precisamos de falar.
-A minha vida já está uma confusão, porque tens de a tornar ainda mais complicada, Filipe? - Filipe não respondeu, deixou-se ficar em silêncio, consentindo as palavras que ela havia dito, e acenou com a cabeça, dando-lhe razão. -Já não sei o que sou, o que pensar e o que sentir. - O rapaz colocou a mão sobre a perna dela.
-Sofia tudo acontece por um motivo e talvez a resposta esteja mesmo à nossa frente, nós é que ainda não descobrimos. - Levantou-se da cama e foi em direção ao corredor.
-Logo à tarde vai-me buscar à escola e falamos.
Filipe abanou a cabeça, concordando e foi para o seu quarto. Sofia sentia-se afundar em si mesma, precisava de sair daquele ambiente, precisava de não pensar nos seus problemas, quando a rapariga com que ele se envolvera, acabou de tomar banho, enfiou-se na banheira e tomou um banho, depois vestiu-se e foi a pé até à sua escola, avisou apenas o irmão e a cunhada que não precisava de boleia. Pelo caminho aproveitou para parar numa pastelaria e tomar o seu pequeno-almoço. Quando chegou à escola, era cedo, aproveitou para colocar os fones nos ouvidos e assim ficar até ser hora da aula. No decorrer das aulas, Matilde respeitou o seu espaço e decidiu apenas falar o essencial. Quando as aulas terminaram Sofia saiu pacificamente para a porta da escola e encontrou Filipe sentando no seu carro, à sua espera. Sentou-se no lugar do pendura e bastou apenas uns segundos para ele falar.
-Estou de castigo do Benfica.
-Eu sei. - Respondeu calmamente. - Mas fiquei desiludida por só me teres dito hoje.
-Não sabia como te dizer, eu nunca tinha andado à porrada com ninguém... E sempre fui contra, sinto-me a pior pessoa do mundo.
-Não tens de te sentir assim. - Passou-lhe a mão pela face. - Não foste tu que começaste, tu limitaste-te a defender-te e a defender-me.
-Mas podia ter feito tantas outras coisas antes de responder, a violência não se paga com a violência.
-Pipo, tu foste apanhado no meio desta história, o Pedro veio ter contigo e começou logo a agredir-te, a culpa não é tua.
-O que é que tu sentes por mim, Soff? - A rapariga foi apanhada de surpresa, sabia bem demais o que ele queria perguntar, mas não lhe queria responder.
-O quê?
-Perguntei-te o que sentes por mim.
-Porque queres saber isso?
-Preciso de saber. - Era um momento crítico para Sofia. Era o momento da verdade, ou da mentira. Poderia mentir e dizer que ele lhe era indiferente, e que eram apenas amigos, ou dizer que sentia algo mais por ele, mas não sabia o que era, e que a fazia sentir-se ainda mais confusa, afinal continuava a amar Pedro, para si era impossível gostar de duas pessoas, mesmo que de formas diferentes.
-Somos amigos, mas amigos que fazem sexo, amor, o que tu quiseres chamar. - Mentiu, não era “apenas” amigos, nem era indiferente chamar amor ou sexo, mas não lhe poderia contar a verdade, com medo de se deixar envolver ainda mais e ele quisesse algo mais, e depois do que havia vivido com Pedro, no dia anterior, não poderia deitar tudo a perder, mas mesmo assim queria certificar-se que Filipe não sentia nada. - E tu?
-Também não... É apenas isso. - Mentiu, também.
O momento tornou-se constrangedor, tinham “tocado” num ponto importante, e não sabiam o que haviam de dizer.
-Até quando vai o teu castigo?
-Inicialmente eram duas semanas, sem jogar, nem treinar, mas hoje recebi uma chamada do mister, a dizer que passou apenas para uma.
-Talvez o mister tenha percebido que não mereciam estar tanto tempo de castigo
-Talvez, vai-me custar muito estar longe dos relvados, o futebol é a minha vida.
-Eu sei, mas pode ser que este fim-de-semana fora daqui faça bem.
-Queres que vá contigo a Espinho?
-Sim, ontem falei com o meu pai, e ele convidou para irmos lá passar o fim de semana.
-Pode não agradar ao teu pai a ideia de ir contigo.
-Acredita que o meu pai aceita toda e qualquer decisão e escolha da minha vida, e tu és a minha escolha e a minha decisão, não só nestes dias, como neste fim de semana, como por muito tempo, assim espero.

(Uns dias depois, nesse fim-de-semana)
Filipe, Rita e Sofia haviam feito a viagem até Espinho onde iriam passar o fim-de-semana, Diogo havia ficado em Lisboa porque teria jogo sábado mas assim que o jogo terminasse iria ter com eles. Depois de deixarem Rita na sua casa de família, que era à beira da praia, Sofia pediu:
-Pipo, gostava de ir até ao areal, não te importas?
-Mas os teus pais já devem estar à nossa espera...
-Tu já conheces os meus pais, não precisas de ficar tão nervoso.
-Não quero que desconfiem que nós, bem como dizer isto?
-Que já dormimos juntos? - Perguntou tranquilamente e como se falando de um assunto completamente natural para falar com os pais. - Eles sabem que não sou virgem, por isso não tem mal nenhum.
-Mas é sempre estranho. - Confessou. - Nós dormimos juntos e não namoramos, isso não é definitivamente algo que um pai ambicione para uma filha.
-Que eu saiba, eu é que sou mulher, eu é que devia pensar nisso, por isso anda para a praia. - Deu-lhe a mão e levou-o até ao areal, sentaram-se lado a lado. - É a primeira vez que volto a esta praia desde há um ano.
-Nós já estivemos numa praia... Onde nos envolvemos. - Filipe preferiu usar esta expressão em vez de fazer amor ou sexo, talvez porque nenhum deles sabia o que chamar.
-Sim, mas foi nesta praia que me tentei matar, há mais ou menos um ano.
-Ainda bem que não o fizeste, já não imagino a minha vida sem ti. - Sofia sorriu e deu-lhe um pequeno beijo nos lábios. Ergueu-se e deu-lhe a mão para ele se levantar também e foram a correr até ao mar. - Despe-te.
-Sofia, estão a passar pessoas ali. - Apontou para o percurso que havia próximo da praia. - Não vamos fazê-lo. - Sofia não se deixou ficar sossegada, despiu-se até ficar de lingerie e Filipe imitou-a, entraram para dentro de água. - Quero fazer isto, aqui e agora. - Beijou-o. - Eu preciso disto, Pipo. - Ele entendeu e deixou-se levar.
-Já alguém te disse que fazes isto cada vez melhor? - Perguntou enquanto se vestiam no areal, depois de se envolverem. -A outra ensinou-te algumas coisitas, não haja dúvida.
-Ela chama-se Jéssica, Sofia.
-Não estou muito interessada em saber isso na verdade. Ela foi só caso de uma noite, certo?
-Sim, está descansada. - Sorriu. - A próxima pessoa com quem me vou envolver és tu.
-Hoje à noite?
-Tu gostas de brincar com o fogo, não gostas?
-Nada que tu não saibas. - Sorriram e foram até ao carro onde partiram até casa dela. -A Jéssica é a tua Jéssica? - Perguntou com uma série de dúvidas metendo-se na sua cabeça e o coração a temer perder o que tinham mas também com medo de perdê-lo.
-Era a Jéssica que estava na minha vida antes de apareceres sim.
-E o que sentiste quando estiveram juntos?
-Isso é tudo insegurança?
-Diz-me. - Pediu em tom de súplica.
-Foi sexo, apenas isso. - Sofia suspirou de alívio. - Ela gosta de mim.
-Tu gostas dela?
-Não mais, ela faz parte do meu passado. Talvez tenha confundido tudo e nunca tenha realmente gostado dela.
-Porque dizes isso?
-Sentiu-o quando nos envolvemos, para mim foi apenas sexo.
-Pipo, eu apoio-te em qualquer decisão e escolha que fizeres, tu sabes bem disso.
-A minha decisão neste momento é ir para tua casa, quero tomar banho e descansar depois desta sessão de sexo.
-Intensa. - Acrescentou Sofia.
-Sim. Muito intensa.
Saíram do areal da praia e foram até ao carro, e bastaram apenas alguns minutos para chegarem à casa da família Roch(inh)a, onde os pais dela já os esperavam para almoçar, tiveram apenas tempo de ir pousar as malas aos quartos, Filipe pousou a sua bagagem no quarto de hóspedes, embora tanto ele como Sofia soubessem que iriam passar a noite juntos, no quarto dela. Almoçaram entre muita conversa e animação, Filipe até provará uma especialidade de Sofia, e tipicamente da cidade do Porto, francesinha e adorou. Quando terminaram, o pai dera-lhe a carta e Sofia foi juntamente com o seu “amigo” para o quarto lê-la. Estava ansiosa por lê-la desde que soubera da existência dela.

Querida Sofia,
Como tu sabes nunca me soube expressar através da escrita como tu o fazes tão bem, sempre preferi tratar a bola como minha guia e tu sempre foste o meu refúgio, a minha ilha paradisíaca e a minha musa, e se assim o sou a ti o devo, porque é a ti que amo, quero, desejo e ambiciono. Foste tu que me ensinaste tudo o que sei e se esta carta expressar tudo o que eu conseguir a razão és tu.
Quando os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez senti algo que nunca tinha sentido bater no meu coração, senti algo que não foi amor à primeira vista, foi algo muito forte a unir-nos, algo que não conseguia explicar por palavras... Soube logo que irias ser alguém demasiado importante na minha vida e irias marcá-la para sempre.
Desde que te conheci que a minha vida ganhou um novo rumo: Ensinaste-me a viver a vida, a saboreá-la e a valorizá-la, aprendi a viver melhor, nada é certo na vida, por isso devemos amar todos os dias com toda a intensidade, acreditar nos nossos sonhos, nunca desistir deles porque se podem tornar realidade. E tu eras o meu sonho tornado realidade, era o único “para sempre” que poderia ter, mas enganei-me. Sinto saudades de quando me abraçavas e me fazias sentir um príncipe, tu eras o meu mundo e eu com os meus braços conseguia segurar-te, fazias sentir-me incrivelmente feliz. Beijavas-me e fazias-me sentir como nunca achei ser possível e agora que estou na minha pior fase da minha vida, onde estás tu? Abandonaste-me quando mais precisava. Não sei onde estás, porque me deixaste e porque não me dizes nada, nada na minha cabeça parece explicar tudo o que se passa e o porquê da tua ausência, mas fazes-me falta de uma forma incrível e eu daria a minha vida nem que fosse para te ver uma última vez.
Já procurei em todos os sítios que mais gostavas de estar, nos locais que eram apenas nossos, já perguntei aos teus amigos onde estás, e já desesperei ao pé do teu irmão na tentativa de saber de ti. A minha necessidade é apenas de saber que estás bem para eu puder também ser feliz e não o serei até ter a certeza que seguiste com a tua vida para eu poder fazer o mesmo com a minha, porque amar-te faz-me pôr a tua felicidade à frente da minha. Nunca desistirei de procurar-te, mas esta carta foi o meu grito de desespero, talvez nunca a leias, mas saberei que fiz tudo o que estava ao meu alcance para saber de ti.
Acho que mesmo depois de tudo o que já passamos que tu não sabes o amor que sinto por ti, talvez nem eu mesmo saiba de tão grande que é. Mas queres saber Sofia? Eu tinha a certeza que serias o amor da minha vida, aquele que ia durar para sempre, que ias ser a minha mulher, a mãe dos meus filhos. Acreditava que íamos ser daquelas histórias de amor verdadeiro que acontecem raramente mas que são maravilhosas. Achei que eras a tal, aquela que me fez perceber que o amor existe e que é fantástico e por isso no nosso aniversário de namoro eu ia-te pedir para casares comigo pois não imaginava a minha vida sem ti. E agora? Passei de uma certeza inabalável para uma dúvida constante.

Amo-te,
Para sempre.
Pedro Rebocho

Sofia leu a carta em voz alta no colo de Filipe e começara a chorar desde o início do segundo parágrafo, era difícil acreditar que aquela carta tinha um ano e tudo havia mudado desde então, mas também pela forma como ele a amava de forma tão desmedida e louca, o sentimento era correspondido, mas apesar disso, era difícil aceitar que ele apesar de merecer melhor do que ela optara por ficar com ela, abdicando de quem o faria feliz e o merecia na sua totalidade.

-Soff. – Disse Filipe depois de terminar de ler a carta e de dar um minuto para ela digerir tudo o que havia lido. – Queres namorar comigo? – Foi apanhada completamente de surpresa, não entendera o porquê daquele pedido e porquê naquele timing, logo depois dela ler uma carta de Pedro. – Este pedido é pensado, e se vires bem tem lógica. O Pedro ama-te e não te esqueceu neste espaço de tempo, é impossível. Por isso se nós estivermos juntos, vais-lhe fazer ciúmes e ele vai perceber que te quer é a ti, e podem voltar a estar juntos, mais uma vez. – Filipe queria o melhor para Sofia, mas também queria ser feliz, embora aquele namoro fosse uma fachada, era uma oportunidade para provar que também gostava dela e lhe poderia fazer feliz, e se ela acabasse por perceber que realmente quem queria era Pedro, o rapaz ficaria feliz na mesma, afinal ela também estaria feliz, mesmo que lhe doesse e ficasse magoado.
-Aceito. – Deu-lhe um beijo nos lábios. – Mas não vamos noticiar aos meus pais está bem?
-Acho que é melhor assim, para eles ainda estou a tentar recuperar o Pedro.
-E não estás?
-Sim, mas não da forma como eles pensam. – Respondeu vagamente e Filipe acabou por ficar ainda mais curioso, queria saber o que ela queria dizer mas optou por ficar calado.
-O que vais fazer em relação a isto? - Retirou o anel de noivado do interior do envelope e colocou-o sobre a palma da sua mão.
-A carta vou guardar juntamente com as outras, que está numa caixa debaixo desta cama. - Baixou-se e tirou-a, colou-a juntamente com as outras, que estavam guardadas por ordem cronológica e Filipe ficou surpreendido.
-Tu não levaste isso para Lisboa contigo?
-Não, seria estar presa a um passado que é isso mesmo, passado, eu queria era investir num presente e num futuro, com ele.
-E vais usar esta aliança de noivado?
-Não. - Tirou-a da palma de mão de Filipe e retirou também a aliança de namoro que tinha no dedo anelar da mão direita. - É passado, são memórias para mim, quero é investir no meu presente e futuro. Vou guardar na minha caixinha das recordações. - Levantou-se e guardou tudo onde era devido, sentou-se entre as pernas de Filipe e ambos pegaram nos telemóveis. - Quero primeiro enviar-te duas fotografias.
-Duas?
-Sim, uma nossa e uma minha.

Enviou primeiro a fotografia mais antiga e roubou um sorriso a Filipe.


-Já tens uma fotografia minha no meu telemóvel, nos bons velhos tempos em que era linda e maravilhosa!
-Soff, tu ainda o és! - Desta vez fora a vez de Filipe de lhe roubar um sorriso. - Tu e o teu irmão são tão diferentes...
-Em termos físicos somos o oposto. Ele parece um cigano com aquele tom de pele e os olhos bem escuros, e eu sou branquinha de olho azul e quando era pequena era loirinha e tudo.
-Mas em termos físicos têm uma parecença única. - Piscou-lhe o olho.
-Temos? - Perguntou confusa.
-São os dois muito altos. - Sofia deu-lhe uma palmada no braço, brincando com ele.
-E agora roubaste-me a dica para a próxima foto!
-Estou calado, envia-me que estou curioso!



 -Como vês, tenho de me pôr em bicos de pés para não ficares com um torcicolo!
-Quando é que esta foto foi tirada?
-Há pouco, deixei o telemóvel ao pé da minha mala e dos nossos casacos, deixei o temporizador ligado e fui beijar-te.
-Então foi por isso que ainda demoraste algum tempo para vires ter comigo depois de me chamares.
-Sim. - Sorriu-lhe. -Queria uma foto nossa e confesso que ficou bastante bonita.
-Pois ficou. Queres publicá-la no facebook e no IG?
-Quero, mas não da forma como estás a pensar. - Filipe ficou confuso. - Quero publicar uma foto nossa mas é para demonstrar que estou feliz ao teu lado, somos namorados e amigos e é certo que não gostamos um do outro da forma como o meu irmão acredita, mas gostamos demasiado um do outro e eu quero que o mundo saiba.
-Não queres que saibas que namoramos mas que sou importante na tua vida?
-Sim.
-Então publica a que me mandaste que eu vou publicar outra nossa.
-Tens outra foto nossa?
-Claro, vou-te enviar. - Demorou alguns segundos mas assim que Sofia viu a fotografia sorriu.

-Quando é que tiraste esta fotografia, Filipe Guterres Nascimento?
-Lembraste quando acordaste mais cedo e eu acordei também e com vontade de fazer sexo?
-E tu me chateaste tanto até o teres, mesmo com os teus pais a dormirem no quarto ao lado da cozinha? E insististe que querias fazer no balcão?
-E tu aceitaste sem pensar duas vezes?
-Importaste de parar de ter resposta na ponta da língua?
-Calei-me. Vamos mas é publicar as fotos.
Publicaram as fotos no Instagram e no Facebook, inclusivé Sofia fê-lo no Twitter. E como legenda puseram apenas “SR4” e “FN4”, não identificando-se. Quatro era o dia que viviam, o dia que começaram a namorar e quem sabe outrora que poderia marcar o resto da vida de ambos, as letras eram as iniciais de cada um.

Abandonaram o quarto e foram até à sala onde o pai dela já estava sentada no sofá em frente à televisão, e onde se sabia o 11 inicial do jogo de Diogo, e para ocultar a ausência de Filipe e Pedro acabaram por dizer que ambos haviam disputado uma jogada complicada e falhavam este jogo por lesão, se o departamento médico os permitisse começariam novamente os treinos segunda-feira. E Diogo? Era titular e capitão de equipa, e isso deixava toda a família babada, inclusivé a mãe que deixou as lidas domésticas para assistir ao jogo do filho, mas os comentadores acabaram por noticiar que Pedro aparecia nas bancadas, de mão dada com uma rapariga, talvez a sua namorada, e tanto a mãe, como o pai olharam para Sofia, talvez à espera de uma reação ou de algum comentário.
-Eu sei que ele tem namorada. - Respondeu calmamente. - Mas a relação deles também já teve dias melhores.
-E como é que estás a recuperar da lesão, rapaz?
-Que lesão? - Filipe havia-se esquecido e Sofia deu-lhe um toque no cotovelo, e olhou-o, tentando fazendo-lhe relembrar do que os comentadores haviam dito. - Foi só um toquezinho, mas o departamento médico recomendou-nos a ficar de fora neste jogo para estarmos aptos para o próximo jogo.
-A vossa equipa está bastante desfalcada hoje, vamos ver como corre. Além de ti e do meu ex-genro, o vosso capitão também está de fora e têm outro colega de fora porque foi expulso no último jogo.
-Sim, infelizmente não andamos com sorte, mas haverá de passar, para a semana já voltaremos todos se Deus quiser, mas vou ligar ao João, no último treino estava tudo bem, fiquei preocupado, se me dão licença. - Os pais acenaram, Filipe levantou-se e foi para o quarto de hóspedes e iniciou a chamada, enquanto isso o telemóvel de Sofia tocou e ela acabou por seguir o exemplo mas foi para o seu quarto.
-Matilde?
-Houve um dia desta semana que ias bastante em baixo e agora já tens namorado, que é que me anda a escapar? E FN? O único que conheço é o Filipe Nascimento.
-Pois... - Respondeu, sem dando uma resposta concreta. - Não queria contar a ninguém mas hoje comecei a namorar.
-E não achas que as pessoas iriam desconfiar depois da foto que publicaste? Ainda por cima ele também publicou.
-Nós começamos a namorar há uma hora, se tanto, queríamos dar mais tempo antes de confirmarmos, agora era só uma forma de dizermos que gostamos um do outro e estamos felizes.
-Fiquei super surpreendida, não fazia ideia que conhecias o Filipe, até comentei com o Pedro, e mostrei-lhe a foto e ele ficou tão surpreendido que teve de ir à casa de banho e tudo, imagina!
-A sério? - Sofia tinha o seu objetivo cumprido mas não se sentira bem a fazê-lo, não queria que Filipe senti-se que o estava a usar para fazer ciúmes e muito menos que continuava a amar Pedro loucamente, amava-o sim, mas a sua vida não se baseava apenas nele e era tão verdadeiro que já ponderara tapar a sua tatuagem no pulso para fazer algo que honrasse a família e os amigos, a sua vida era muito mais que Pedro e queria provar a si própria e a todos. - Não fazia ideia que iria surpreender assim tanto as pessoas.
-Mas surpreendeste! Digo-te já que tens bom gosto. - Sofia sorriu para si mesma, afinal as escolhas eram as mesmas em relação a Pedro.
-Se tu imaginasses o quanto. - Disse baixinho.
-Que é que disseste?
-Nada, nada, pensei em voz alta.
-Bem, só te posso desejar boa sorte e temos de combinar um jantar os quatro, sim, porque tu não conheces o Pedro e eu quero conhecer o Filipe!
-Depois combinamos isso, está bem?
-Sim, mas não me vou esquecer. Agora vou desligar que o jogo está a começar e ainda não soube nada do Pedro. Beijinhos.
-Beijinhos. - Desligou a chamada e sentiu umas mãos apoderarem-se da sua barriga.
-O João não atendeu e aproveitei para ouvir a conversa, desculpa.
-Não tem mal, somos amigos e namorados, não temos segredos. - Deu-lhe um rápido beijo nos lábios. -Vamos ver o jogo antes que o meu pai dê pela nossa falta. Tenho já a avisar-te que a minha mãe a ver futebol é muito engraçada, o meu pai resmunga com tudo e eu discuto com ele.
-Está visto que isto é de família. - Ia virar-se para voltar à sala, mas Sofia impediu-o, agarrando-o na mão. -É o último beijo pelo menos até ao final do jogo!
Trocaram um beijo, bastante demorado, por sua vez e voltaram para a sala e as horas passaram a voar, e o jogo terminou com um 3-1, uma vitória confortável mas renhida até ao final do jogo, assim que o jogo terminou decidiram dar a conhecer o melhor da cidade onde Sofia havia nascido e também o melhor da cidade do Porto e Filipe que embora já conhecesse ficou ainda mais impressionado, e prometeu que sempre que pudesse lá voltaria com Sofia.
Voltaram para casa e enquanto a mãe começou a preparar o jantar, o pai decidiu ir até ao seu escritório para trabalhar e Sofia e Filipe foram até ao quarto dela para arrumarem mais alguns pertences para levar para Lisboa.
-O meu carro não é nenhum autocarro, Sofia.
-Eu sei, por isso estou só a arrumar o suficiente.
-As mulheres têm uma definição muito diferente de “apenas o suficiente”.
-Senão levar mais roupa, fico sem ela, e depois tenho de andar despida pela casa.
-Não me parece nada má ideia. - Beijou-a no pescoço.
-Está sossegado que ainda entram os meus pais por ai.
-Sentei-me. - Dito isto sentou-se sobre a cama e deixou-a terminar de arrumar os seus pertences. - Vou ver os comentários e os gostos nas fotos. - Assim que ligou o facebook e foi ao Instagram assustou-se com a quantidade de informação que assistiu de uma só vez. Os gostos eram difíceis de contabilizar e os comentários eram bem superiores ao que estava à espera, mas decidiu não comentar nada com Sofia, ela iria acabar por saber por si mesma.
-São assim tantos comentários e gostos?
-Logo verás.
Quando terminou de arrumar os seus pertences, ambos decidiram ir ter a casa de Rita e chamá-la para ir até casa da família Rochinha, afinal não faltara assim tanto para Diogo chegar a Espinho, mas Rita estava nervosa, bastante nervosa. Iria conhecer os seus sogros e não sabia o que vestir, o que dizer e muito menos como se comportar, mas Sofia acabou por ajudá-la a escolher o que vestir e Filipe conseguiu, pelo menos, acalmar os nervos da rapariga, no fundo tinha o típico medo: que não gostassem de si, mas também tinha medo que os seus sogros não acreditassem que tinha mudado desde que fizera tantas maldades a Sofia... Mas ela acabou por conseguir afastar tais pensamentos com o apoio da cunhada, e Filipe olhava admirado para a sua namorada a pensar como era possível ela ser tão encantadora e maravilhosa e para ele não havia dúvidas, ela era a pessoa mais encantadora que ele já conhecera em toda a vida.
-Rita, não tens motivos para estar assim, os nossos sogros são fantásticos e vão gostar imenso de ti. - Sofia olhou para Filipe quase fuzilando-o com o olhar. - Quer dizer, os teus sogros.
-Os nossos sogros? - Rita era atenta e bastou o olhar de Sofia para Filipe para obter a informação que ele havia falado de mais. - Por isso é que vocês publicaram aquela foto no facebook e no Instagram, vocês namoram! E eu a pensar que o Filipe estava apaixonado pelo Sérgio Ramos, e o 4 até tinha confirmado a minha teoria, pelos vistos estava enganada...
-Não acredito que me confundiste com esse ser vivo! - Disse Sofia.
-Posso ter muitos defeitos mas nunca andei há porrada e seria incapaz de ser tão caceteira como ele!
-Obrigada às pessoas que já andaram à porrada, sim?
-Desculpa... Não era isto que queria dizer, tu sabes que não.
-Mas disseste. Além do mais, ele é um excelente central!
-Muito bom não haja dúvida... - Desabafou Rita e rapidamente foi olhada em tom de dúvida pelo casal. - Querem ver que só por namorar que sou cega? O rapaz é mesmo bom central.
-E caceteiro! - Acrescentou Sofia. - Além de ter de partilhar as iniciais do meu nome com esse sujeito, ainda tenho de partilhar o número, que bonito! - Disse sarcasticamente.
-Podes sempre usar o “A” de Ana!
-Claro que sim, Ana Rita! - A rapariga calou-se. - Com tantos bons dias para começarmos a namorar no mês de Dezembro, tu tinhas mesmo que escolher hoje, exatamente dia 4!
-Como imaginas, não foi algo planeado há meses, aliás muito pelo contrário.

Acabaram por terminar a conversa e ir até casa da família Rochinha, Diogo já havia chegado e apesar do jantar já estar pronto, pediu para Sofia e Filipe chegarem até ao seu quarto, e pediu para Rita o acompanhar, precisava de ter uma conversa com o casal, mas não queria que os pais o entendessem, por isso fechou a porta e trancou-a. Respirou fundo e não foi preciso mais para a sua irmã perceber que ele estava furioso.

-Sofia e Filipe, não sou vosso pai, mas sou vosso amigo e preocupo-me. Vocês não me deram ouvidos quando vos aconselhei, por isso agora vou ser o mais franco e direto que conseguir, pode magoar-vos mas eu não consigo continuar calado. - Olhou para Rita. - Sabem porque é que sempre fui contra a vossa relação à base de sexo? Além de saber que iam começar a namorar, o que hoje se confirmou, sabia que os sentimentos não iriam ser completamente esclarecidos e que iam sofrer. O Filipe não sabe o que é amor, só soube o que era ter umas relaçõezinhas, secalhar nem isso lhe pudemos chamar, foram quantas, Filipe? Quantas beijaste e com quantas foste para a cama? Tu nunca te apaixonaste na tua vida, e ias acabar por magoar a minha irmã, não queria que ela fosse mais uma para a tua lista. Sofia, tu és a minha irmãzinha, a minha pequena, tu amas o Pedro, ele ama-te, está à vista de todos, mas agora tu já nem tens a certeza se o amas, tu estás com o Filipe, tu gostas dele, vê-se no teu olhar e nas tuas atitudes. Vocês estão loucamente apaixonados um pelo outro mas não assumem, sabes porquê? Porque têm medo, porque o vosso passado não deixa, porque têm medo de apostarem num presente e num futuro só vosso, mas eu sabia no início que isto ia acontecer? Vocês namoram para quê? Para fazer ciúmes ao Pedro? Então e o sexo? E só para uns momentos de prazer? Não acham que é brincar com o fogo? Já pararam um bocadinho para pensar em todas as vossas atitudes e tudo o que se está a passar à vossa volta? - Sofia ia responder mas o irmão não deixou. - Tu andaste à porrada Filipe, à porrada! Com um colega de equipa e com um dos teus melhores amigos há meses, dito pela tua boca a mim, ninguém mo disse! Tu, passo a expressão, comeste a ex-namorada dele, e sabias bastante bem a história dele? Não achas que isso provou que nunca foste amigo dele? E tu Sofia? Tu ias-te matando por estares longe do Pedro, por teres abortado do vosso filho, tu abandonaste os teus pais e a tua terra para ires atrás dele! E agora? Estás na tua terra e trouxeste o Filipe contigo! Tu és amiga da atual namorada do Pedro, nunca pensei dizer isto mas não te reconheço, tu tentaste-te aproximar da rapariga para a afastares do Pedro e agora estás com um grande amigo dele. Expliquem-me tudo isto, mais importante expliquem a vocês mesmos e sejam sinceros, não quero saber da cabeça, quero ouvir os vossos corações!

O que irá responder Sofia?
E Filipe? Como irá ser o futuro desta relação e será que Diogo vai aceitar a relação dos dois?

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Capítulo 15 “O Filipe mexe comigo”


Sofia prometera a si mesma que não iria contar a ninguém o que se passara entre si e Pedro, iria defendê-lo, iria impedir que as pessoas fizessem juízos de valor sobre a traição que eles fizeram a Matilde. Conhecia-o melhor do que conhecia a si mesma, sabia todos os traços do seu corpo, conhecia-o interiormente como conhecia a palma das suas mãos.
E por isso sabia que, ele não iria ficar bem com o que havia feito, que iria ficar com remorsos e iria querer contar a Matilde mesmo que isso lhe custasse a relação, só para viver melhor com a sua consciência. E isso doía-lhe, apesar de ter sido a melhor “noite” da sua vida, tudo o que havia sido resultado não eram boas sensações, amava-o e aquilo havia sido o mais próximo de amor que havia tido da parte dele nos últimos tempos, mas não poderia perdoar a si mesma. Não sabia se ele (ainda) a amava, não sabia se gostava de Matilde como já havia gostado de si, aquele dia havia sido demasiado confuso para tirar as suas primeiras conclusões.

-Então Sofia? Podes-me explicar o que se passou?

-Rita, não te consigo explicar o inexplicável.

-Conta-me tudo o que se passou e o que sentiste.

Sofia respirou fundo. Talvez Rita não a fosse julgar, nem a Pedro, talvez o melhor mesmo fosse desabafar e a opinião de um terceiro a ajuda-se a descodificar e a lidar com todos os sentimentos.

-Toquei à porta e ele abriu-me, e começou logo a dizer que se era para pedir desculpa podia voltar para a beira do Filipe, eu pedi para entrar e fomos até à sala e ele disse que não precisava de explicar nada, que nós não éramos nada e eu defendi-me, eu amo-o e depois de tudo, recuso-me pensar que agora tudo desapareceu, e ele disse-me que sofreu muito por me perder, por eu o ter abandonado, e que o que mais lhe doeu foi a minha carta, e o meu coração desfez-se por completo, Rita. Falou-me do que sentiu quando soube que eu e o Filipe nos envolvemos e do nosso filho e da morte dele, acusou-me de o ter enganado e disse que me amava e acusou-me de nunca o ter feito...

-E tu?

-Defendi-me. Disse uma asneira e disse que o amava, no presente, agora e aí voltei a ver no olhar do Pedro algo que vejo no olhar do Filipe, eu vi desejo, pode parecer estranho mas foi isso mesmo, e eu disse-lhe que também o desejava. Ele aproximou-se de mim e beijou-me com desejo e vontade, e eu só conseguia pensar na Matilde e perguntei-lhe, e ele disse que só queria saber de nós. Sofia, aquilo, foi a melhor noite de amor que alguém alguma vez me deu, eu fui multiorgásmica, aquilo foi “a” noite, se alguma vez terei filhos será de algo assim!

-Tu usaste preservativo certo?

-Não, mas não têm problema que não estou no período fértil.

-Diz-me que tomas a pílula.

-Não, nem nunca a tomei.

-Tu tens noção que pode neste momento estar a formar-se um bebé dentro de ti não tens?

-Não estou grávida, confia em mim, mas continuando... A Matilde mandou mensagem preocupada e percebeu que não estava bem e... E …

-E?

-Acabamos por ir almoçar juntas.

-Tu foste almoçar com a rapariga a quem tinhas acabado de meter um valente par de cornos?

-Não punha a situação nesses termos...

-Sofia, isso foi o golpe mais baixo que te vi dar até hoje.

-Esqueceste-te que fui para a cama com um grande amigo do meu ex-namorado.

-Mas isso é diferente! Isso aconteceu e quando olhas para o Filipe é fácil perceber!

-O que queres dizer com isso?

-O Filipe não é um deus grego porque é português!

Sofia não conseguiu conter o riso, realmente Filipe era realmente bonito, mas aos seus olhos nada era mais bonito que Pedro.

-O Pedro é melhor!

-São opiniões, meu amor, para mim o melhor é mesmo o teu irmão, mas tu tens olho para a coisa não haja dúvida!

-A minha cunhada é uma tola! - Sorriram. - Mas a visita da Matilde não durou muito, eu não sabia como lidar com ela e como não poderia desabafar combinado juntarmo-nos outro dia, mas eu vou atrasá-lo o quanto mais puder melhor. E o mais estranho de tudo e me fez sentir tão estranha foi que depois de fazermos amor adormecemos e quando acordei ele estava a vestir-se e disse-me tal e qual assim “a tua roupa está na casa de banho, podes tomar banho mas despacha-te que o Raphael deve chegar daqui a pouco tempo”, e sabes como eu me senti? Senti-me usada, inútil e burra.

-O Pedro disse-te isso?

-Sim.

-Bem... - Rita ia começar a falar mas Sofia lembrou-se que não havia contado tudo.

-Espera, ainda há algo que não te contei. Eu estava na praia onde eu e o Pedro começamos a namorar e ele apareceu vindo não sei de onde, e sentou-se à minha beira, ficamos em silêncio durante algum tempo e ele perguntou-me porque me tinha envolvido com o Filipe e eu não respondi, não sabia o que lhe dizer e ele insistiu e eu disse que estava carente, tinha acontecido e disse que o amo e ele disse que também me amava mas a dor que lhe deixei era maior que o amor que sentia por mim. Eu devia ter morrido Rita, eu devia ter morrido quando me tentei matar na praia em Espinho, quando me tentei matar a cortar-me.

-Tu não ouses voltar a dizer um disparate desses ouviste Ana Sofia? - Ergueu o tom de voz e utilizou os dois nomes. -Achas que não fazes falta? O teu irmão ama-te, tu és a mulher da vida dele, a menina dos olhos dele, mesmo que ele não o demonstre muito. Tu e o teu irmão são a vida dos teus pais e ias levar a vida deles contigo se partisses, eu sei que fiz muita porcaria contigo mas és alguém importante para mim, és a minha cunhada, és uma amiga, uma confidente, quanto aos teus rapazes, eu não queria dizer-te isto mas tu obrigaste-me. O Filipe gosta de ti, de uma forma que nem imaginas, e o Pedro? O Pedro pode dizer o que quiser, mas as atitudes dele vão sempre provar o óbvio, que te ama.

Aquelas palavras atravessaram que nem uma flecha no coração de Sofia. Ela era muito mais importante para aquelas pessoas do que pensava.

-O Pedro ainda me ama? - Foi a única coisa que conseguiu dizer.

-Sofia eu não o conheço bem, não sei dizer, nem justificar tudo aquilo que ele fez e faz, mas posso ver tudo de uma perspetiva diferente, tentei evitar dizer-te isto para não te alimentar falsas esperanças, mas tu tens e mereces saber. O Pedro gosta da Matilde, acredito que uma pessoa para estar com outra, tem de gostar o mínimo que seja, mas é necessário haver algum sentimento, mas ele ama-te é a ti, senão porque a teria traído? Logo aí prova que não a ama, e a tê-lo feito contigo significa que nunca te esqueceu.

-Já não sei o que pensar. Eu amo o Pedro, como nunca amarei ninguém, ele está para sempre comigo, no meu coração, mente e até no meu corpo. - Apontou para a tatuagem com o nome do rapaz no pulso. -E não acreditas o quanto me vai magoar dizer isto, e que isto mexe com todo o meu interior, sinto-me a trair o Pedro, e serás a primeira e única pessoa a saber isto. O Filipe mexe comigo. Não te sei explicar bem, nem como o dizer, mas ele mexe comigo.

-Não te vou dar na cabeça, descansa. - Sorriram. -Basta e bem o teu irmão. Mas já sabes o que vai fazer em relação... - Não sabia como o pronunciar. - A isso?

-Nada. Sei o que sinto pelo Pedro e quero voltar a ter uma oportunidade com ele, hoje tive a prova que ele não está verdadeiramente feliz com a Matilde e eu sou a chave para a felicidade dele, vou sempre preferi-lo ao Filipe. E antes de fazer o que quer que seja, vou passar-me por água e esvaziar a banheira que já está a ficar frio e quero ajudar a fazer o jantar.

Rita saiu da casa de banho e começou a ir preparar o jantar enquanto a cunhada vestia-se, mal terminou foi ajudá-la.

-Falaste com o Pipo hoje?

-Sim, um pouco antes de vir para casa, ele disse que não vinha jantar e não sabia a que horas chegava.

-Acreditas que ficamos de almoçar juntos e ele mandou-me uma mensagem a cancelar e não disse nada até agora? Supostamente eu não sei que ele está castigado.

-Não compreendo o Filipe.

-Eu não compreendo os rapazes, que é bem pior.

Ambas sorriram e passado alguns minutos chegou Diogo e juntos jantaram.

-Eu levanto a mesa, vão lá ver um filme.

-Tens a certeza? - Perguntou a cunhada.

-Claro! Depois vou-me deitar e escrever alguma coisa.

-Obrigada Sofia! - Deu-lhe um beijo na bochecha.

-E está descansada que já preparo as pipocas e uns sumos para vocês, por isso não comecem já a treinar os meus sobrinhos! - Rita limitou-se a sorrir e a ir até à sala onde o seu namorado já a esperava.

Sofia colocou os fones nos ouvidos e começou a dançar ao som da música enquanto arrumava a cozinha e preparava os petiscos para o casalinho, quando terminou foi levar-lhos e interrompeu um beijo entre eles com o fingir de tosse, deu-lhes o que havia prometido e foi até ao quarto onde não tardou a vestir o pijama e começar a escrever.

Querido Pedro,
Amar alguém é quando somos capazes de dar uma vida pela outra pessoa, quando colocamos a felicidade da outra à frente da nossa, quando nos tornamos transparentes aos olhos de quem amamos. É estar presente na mente da outra pessoa, passe o tempo que passar, e continuar a amar, mesmo que nos tenham magoado profundamente. Foste tu que me ensinaste isto, foste tu que me ensinaste o que era amar-te, foi por tua causa que o vivi e sinto-o a arder no peito, todos os dias, em todos os momentos.
Estás com a Matilde e queria acreditar que estavas feliz, queria provar a mim mesma que estavas feliz, sem mim, mas hoje provaste-me que não é realidade. Mesmo que já não me ames, não amas a Matilde como me amaste a mim, sempre me disseste que quando amamos somos incapazes de trair e tu fizeste-o. Comigo. E digo-o e repito, se houve momento em que não tive dúvida absoluta do que sentia por ti e queria lutar por nós, foi quando o fizemos. Não foi apenas amor, nem sexo, foi a união de dois corações que estavam separados, foi o momento em que deixou de existir um passado e um futuro, para haver um esquecimento da razão e da lógica, para afastarmos os passados do presente, que damos pelos nomes de Filipe e Matilde para apenas nos concentrarmos no presente, no momento em que deixou de haver uma Sofia e um Pedro, mas um nós.
Sempre foste um livro aberto para mim, sempre conheci todos os traços da tua personalidade e do teu corpo e depois do dia de hoje sinto que tudo mudou, nunca acreditei que eras capaz de fazer isto, não apenas a mim, mas à Matilde, e ao fim ao cabo, magoares-te, porque a dor dos remorsos irá atormentar-te até ao último segundo e irá prosseguir-me sempre. Sei que foi um erro teres traído a Matilde, mas será que foi um erro envolvermo-nos, esquecendo tudo o resto?

Amo-te para sempre,
Sofia Roch(inh)a”

Pousou a carta sobre a sua mesa de cabeceira e olhou para as duas molduras que ali estavam presentes. Uma com Filipe e outra com Pedro.

Aquela fotografia havia sido tirada recentemente por ela e Filipe havia-lhe dado e emoldurado, na parte de trás da fotografia podia ler-se o que ele tinha escrito:


A amizade é um amor que nunca morre”

Filipe escolheu aquela frase como poderia ter escolhido tantas outras, mas porque optara por aquela? Era uma pergunta para a qual Sofia não tinha resposta. E pode reparar na outra fotografia emoldurada que tinha ao lado da anterior:


Aquela havia sido uma surpresa que Pedro lhe havia feito. Tinham-se desentendido porque ele tinha feito uma crise de ciúmes por causa de Filipe, e passado um ano, eles haviam-se envolvido, a vida era demasiado curiosa por vezes. E Pedro preparara-lhe esta surpresa para lhe pedir desculpa e foi a partir daquele dia que a relação dele tornara-se magnífica e mágica.

E na parte de trás da fotografia e da moldura que Pedro lhe havia dado, poderia ler-se:

It's not a bird,
Not a plane,
It's my heart and it's going gone away”

Aquela música descrevia o que era amar, porque deste o início que gostavam muito um do outro, mas foi com o tempo que descobriram e começaram a amar-se, mesmo que a tenra idade fizesse muitos duvidar do que sentiam, até mesmo os que viam que existia algo único entre ambos. Não conseguiu deixar de deitar uma lágrima teimosa, abraçou-me à moldura que Pedro lhe havia dado e adormeceu abraçada a ela.

Acordou de manhã antes do seu despertador tocar, e espreguiçou-se, sentia-se feliz e bem-disposta, estava disposta a lutar pelo que queria e ao contrário de outros dia sentia uma nova esperança apoderar-se de si, a sua história de amor não tinha acabado, estava longe de ter terminado. Levantou-se da cama e foi em direção à casa de banho quando viu uma rapariga sair do quarto de Filipe com uma camisola dele vestida, caminhava até à casa de banho e apenas queria dizer algo. Eles tinham dormido juntos. Assim que a rapariga fechou a porta da casa de banho correu até ao quarto de Filipe, onde ele estava sentado de lado na cama e empurrou-o com os braços, extremamente enervada e revoltada, mas acima de tudo magoada e desiludida, depois do que haviam falado na noite anterior, ele atrevera-se a ir para a cama com a primeira rapariga que lhe aparecera à frente.

-Como foste capaz de me magoar desta maneira sabendo melhor do que ninguém por tudo o que tenho passado?

Dito isto Filipe puxou-a para si e beijou-a.

Porque terá Filipe beijado-a?
Como irá reagir Sofia? Como ficará a história da rapariga com os seus “dois rapazes”? 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Capítulo 14 “Nunca o errado soubera tão bem”



Para Sofia o tempo parou. Várias hipóteses passaram-lhe pela cabeça naqueles segundos em que esperava por uma resposta do outro lado da porta. Talvez Pedro nem tivesse em casa, talvez nem abrisse a porta, talvez fosse Matilde a abri-la e se assim fosse, não saberia como reagir. Pedro abriu a porta e os olhares cruzaram-se, pela primeira vez desde que houvera o momento de conflito entre ele e Filipe e nenhum deles se mexeu, parecia nada ter mudado naquele ano.

-Se é para pedires desculpa, podes voltar rapidamente para junto do Filipe. - Pedro contradizia-se, com os olhos demonstrava amá-la e com palavras demonstrava um enorme desprezo.

-Posso entrar? - Sofia queria pedir-lhe desculpa e ter a oportunidade de falar com ele mas não queria partilhá-lo com todos os moradores dos prédios.

-Entra. - Desviou-se da porta e Sofia entrou e fechou-a, seguiu-o até à sala e sentou-se num sofá enquanto Pedro sentou-se de frente para ela, mas no chão. - Não precisas de me explicar nada Sofia, não me deves satisfações. Nós não somos nada.

-Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas?

-É a realidade! - Respondeu sem erguer o tom de voz, com uma calma arrepiante. Levantou-se e dirigiu-se a ela. - Sabes o que sofri por te perder, o que sofri quando me abandonaste? Tu não imaginas! - Os olhos deles transmitiam um sentimento que ela não conseguia traduzir, ela pensava que o conhecia como ninguém mas iludira-se. Tirou a mão do bolso e ergueu a carta já amachucada. - A tua carta foi o que mais me doeu! - Disse com as lágrimas nos olhos. - Sabes o que senti quando percebi que o Filipe te andava a comer? E que tiveste um filho meu e te limitaste a matá-lo, como queres que reaja? Depois de tudo o que vivemos, tu limitaste-te a enganar-me a dizer que me amavas quando nunca chegaste a saber o que era isso!

-Fodasse Pedro, eu amo-te! - De repente Pedro olhou para ela e o seu olhar mudou. - Eu também te desejo. - Respondeu.

Pedro percorreu o caminho até Sofia com o desejo marcado no seu olhar e assim que estava à distância suficiente beijou-a com toda uma série de sentimentos que os unia, ela cruzou as pernas no seu tronco e entre momentos encostou-a à parede.

-Pedro. - Disse entre beijos. - E a Matilde?

-Neste momento não quero saber dela, nem do Filipe. - Voltou a beijar Sofia e ela não hesitou, iria sentir remorsos mais tarde mas naquele momento queria apenas desfrutar do momento. Era errado, ambos sabiam mas nunca o errado soubera tão bem.

As mãos de Pedro começaram a tocar na pele de Sofia, e a querer explorar todos os detalhes daquele corpo que tão bem conhecia mas que se modificara no último ano, não a queria apenas porque a desejava, era muito mais que isso. Queria voltar a sentir o corpo dela, o seu perfume, queria tocar-lhe e sentir-se amado, queria ser dela e ela seu, nem que fosse uma ilusão, mas queria que fossem um só, nem que fosse por minutos. Caminharam entre beijos e carícias até ao quarto, onde Pedro pousou-a na cama e deitou-se sobre ela, desapertou-lhe o soutien e ele começou a beijar-lhe nos seus pontos fracos, onde sabia que ela não conseguia resistir, onde ela gostava de ser beijada e ele tão bem os conhecia. Emocionalmente e fisicamente podiam ter mudado durante aquele último ano mas havia certas características que nunca mudariam e o sentimento parecia não ter mudado. Pedro tirou do corpo da Sofia a última peça de roupa e Sofia ia tirar a sua mas lembrara-se.

-E o preservativo? - Pedro não parou de a beijar e continuou com a investida.

-Esquece! - Suplicou Pedro e tomou os seus lábios e ele próprio tirou a última peça de roupa que tinha no corpo e começou a invadir o corpo de Sofia. Não era apenas sexo, aquilo era amor e cada momento era mágico, ambos sabiam que não era o mais correto mas era o que precisavam e mais tarde haveriam de lidar com o arrependimento.Cada energia que possuíam foi gasta naqueles momentos de prazer, foram dados beijos, beijos apaixonados, beijos de saudades, beijos de amor, de carícia e carinho, foram trocados mimos como não trocavam há demasiado tempo. Aquele momento parecia o culminar de todo aquele ano, de todos os sentimentos bons e maus, era um momento único e apenas deles. Cada um deles sentiu prazer como nunca havia sentido na vida e gritaram, gemeram e aproveitaram aquele momento como se fosse o último e como se fosse daquilo que dependesse a vida de ambos. Gritaram, afinal como poderiam não dizer o nome da pessoa de quem mais gostavam? Nada mais importava, apenas queriam aproveitar aquele momento de prazer, nunca se lembraram de Filipe ou Matilde.

Passado cerca de uma hora, Sofia despertou e sentiu a cama fria e vazia, sentou-se na esperança de saber onde estava Pedro e pode observá-lo a vestir as calças, observando o seu tronco ainda despido, conhecia aquele corpo e acabara de ser seu, conhecia todas as particularidades do seu corpo e amava cada uma delas. Sofia começou a pensar nas palavras certas para pronunciar, mas foi interrompida.

-A tua roupa está na casa de banho, podes tomar banho mas despacha-te que o Raphael deve chegar daqui a pouco tempo.

Nada mais magoara Sofia, sentia-se usada. Sentia-se verdadeiramente uma prostituta, tinha ido até ali só para lhe dar um momento de prazer depois fingiram que nada se havia passado, era verdade que tudo começara por causa dela. Tinha sido ela a deslocar-se até ali e tinha sido a autora da frase “eu também te desejo”, não esperava que tudo ficasse bem e que tudo fosse apagado e esquecido mas não esperava... O que sucedera. Tomou um banho rápido, vestiu-se e encaminhou-se até à porta da entrada, Pedro seguiu-a e já na porta ia dizer o quanto havia sentido a sua falta e o quanto o amava e que nunca o tinha esquecido, mas ele limitou-se a fechar a porta e sem dizer mais uma palavra. Sofia ficou estática, em frente à porta, talvez à espera que ele a reabrisse mas ele não o iria fazer e ela sabia disso, por isso acabou por sair em direção a rumo incerto.

Tinha combinado com Filipe encontrarem-se à porta da sua escola, por volta da hora da saída, não tinha sido apenas ele a contar-lhe uma mentira, ela também dissera que iria para a escola mas não o fez e ele limitou-se a cancelar. Não lhe telefonou a justificar-se, mandou apenas uma mensagem a cancelar, será que os rapazes com quem se envolvera gostavam de a magoar? Não queria telefonar a Diogo, ele ficaria terrivelmente magoado e até a podia perdoar, mas iria afastá-lo ainda mais de Pedro, Rita estava ocupada a tratar da inscrição na sua faculdade, não tinha a quem recorrer, não tinha um amigo a quem pudesse confiar, sentia-se sozinha como se havia sentido naquele último ano em Espinho. Podia sempre ligar ao pai, mas ele iria preocupar-se desnecessariamente e o mais certo seria avisarem o seu irmão e eles viajarem até ao Seixal no próprio dia só para a animarem, mas mesmo assim decidiu correr o risco.

-Olá meu anjo! - Disse o pai depois de dois toques no telemóvel.

-Olá meu amor! - Respondeu tentando fingir que estava feliz ou pelo menos... Bem, mas na verdade ela não sabia bem como me sentia, era um misto de sentimentos contraditórios no seu coração, quem diria que seria tão difícil descodificar sentimentos?

-Que se passou? Sabes que sou uma besta e não mereço nada, mas amo-te acima de tudo e tudo o que faço é para te proteger. - Com estas palavras Sofia teve a certeza que não deveria contar nada ao pai, ele nunca iria perdoar Pedro e iria repudiar Filipe.

-Não és uma besta nada, tomaste más decisões, todos nós cometemos mas é apenas, uma dádiva de alguns, arrependerem-se, como tu disseste, amas-me e apenas fizeste o que fizeste com a intenção de me proteger! Eu nunca deveria ter dito que te odeio e disse e estou arrependida e se pudesse voltava atrás.

-Se há coisa que me orgulho é de ti e do teu irmão, foram o melhor trabalho que eu fiz! Tu és uma mulher extraordinária, ainda nem os 18 anos tens e já tens uma maturidade impressionante, tu perdoaste-me logo que te pedi desculpa e isso arrepiou-me.

-E por ter uma família tão boa que sou como sou, pai! - Sofia sorriu. - O Diogo já te disse que alugou uma casinha para nós?

-Sim, já me mandou fotografias e tudo, mas vê lá se o convences a aceitar o dinheiro das tuas despesas, aquele rapaz é teimoso!

-Eu falo com a Rita de certeza que ela lhe sabe dar a volta!

-Quem e é a Rita? O que me está a escapar?

- Ups.. Parece que falei demais.

-Estou a brincar, o teu irmão está apaixonado, com a quantidade de vezes que o teu irmão me falou dela, já a conheço tão bem como qualquer um de vocês! Ela gosta muito dele, Sofia?

-A Rita abdicou da faculdade no Porto e da vida que ai tinha para estar mais próxima do Diogo, acho que isso diz tudo!

-Ela tem o nome daquela rapariga com quem não te davas o ano passado...

-Ela é essa rapariga, pai.

-Tu vives com essa rapariga? Tu vives com a Rita?

-Sim, ela pediu-me desculpa e está arrependida, agora até somos amigas.

-Porque não consegues parar de me surpreender?

-A culpa é da família! - Riram-se.

-Tenho dois pedidos para te fazer. - Fez uma curta pausa. - A primeira é que te queria sugerir a vires passar o fim de semana aqui com os teus pais.

-Vou pensar nisso, mal decida dou-te uma resposta!

-Ótimo! Eu e a tua mãe estamos a morrer de saudades, e o teu irmão tem jogo no sábado vinha no domingo e estávamos todos juntos mais uma vez. - Rita sorriu, queria estar com a família, queria sentir o espírito familiar que não sentia desde que estivera internada no hospital. - E queria saber a tua morada, não é para uma surpresa ai, simplesmente tenho uma coisa que te pertence.

-O quê pai?

-O Pedro mandou-te uma carta poucas semanas depois de saíres dai e eu nunca ta dei, acho que tens direito a lê-la, e não a abri nem a irei ler, quero que a recebas e a leias.

-Vou mandar-te por mensagem.

-Está bem filhota, amo-te!

-Também te amo pai!

-Fico à espera da tua resposta quanto à viagem e à carta. 

-Sim, senhor! Beijos

-Beijos.

Desligaram a chamada e Rita tratou de enviar a mensagem ao pai com a sua morada e deparou-se com outra mensagem, desta vez de Matilde. Será que Pedro lhe havia contado do que se passara entre ambos? Não podia, Pedro havia-a traído sim. mas não a iria magoar contando naqueles curtos minutos de intervalo o que se havia passado, e Sofia não sabia se havia de dizer a alguém o que se havia passado ou se deveria ficar calada, talvez devesse manter segredo, era o melhor assim era a única magoada com ele.

"Olá princesa! Está tudo bem? Estou preocupada contigo, não foste as aulas e não me avisaste. Sabes que podes contar comigo linda! Beijinhos Matilde Varela :) "

Sofia não sabia o que responder, Matilde estava direta e indiretamente ligada a todos os seus problemas, havia sido extremamente querida e simpática, mas se ela não tivesse chegado à vida de Pedro, reconquistá-lo não seria tão difícil.

"Olá linda! Infelizmente não está... Criei conflitos e tentei resolvê-los hoje mas acho que piorei a situação :/ "

Sofia não tardou em responder.

"Tens planos para o almoço e para a tarde? Não vou estar com o Pedro e pudemos aproveitar para nos conhecermos melhor e desabafares! Aproveito e ensino-te o que demos hoje na aula"

Acabaram por encontrarem-se e Sofia sentia necessidade de falar mas não conseguia fazê-lo com Matilde. Como haveria de lhe dizer que estava assim por causa do seu namorado? Que ela havia sido traída por sua causa? Matilde acabou por respeitar o espaço de Sofia e depois do almoço foi embora. Que aproveitou para ir até à praia que havia servido como palco para tantos momentos marcantes na sua vida. Tinha sido no mar que se havia tentado suicidar, tinha sido no areal que tinha vivido momentos íntimos com Filipe, numa das primeiras vezes, e tinha sido exatamente naquela praia que começara a namorar com Pedro. Sentou-se no areal e tirou da sua mala um papel e uma caneta, e ia começar a escrever sobre aquele dia, mas Pedro sentou-se ao seu lado e desistiu. O silêncio apoderara-se dele, mas o ambiente estava calmo. Não pareciam dois ex-namorados, nem duas pessoas que haviam tido momentos loucos e prazerosos de amor, estranhamente pareciam dois... Amigos. Observavam o mar lado a lado e ela perguntava-se se o amor falava com eles, afinal também ele estava calmo.

-Porque te envolveste com o Filipe?

Sofia não sabia o que responder, não havia resposta certa nem errada, não haveria apenas uma justificação que surgisse na sua mente a pensar nisso, por isso optou por deixar que o silêncio fala-se por si.

-Por favor Sofia, diz-me.

Sofia respirou fundo, preparando-se para responder.

-Sei que não é desculpa mas estava carente, deixei-me levar. - Pedro nada respondeu, doía-lhe conversar sobre o seu passado. Não o conseguiria fazer sem chorar, ela limitara-se a abandoná-lo e a trai-lo com um grande amigo seu, tinha morto um bebé e tinha-lhe dito tudo isto... Numa carta. Sofia sempre dissera que o amara, e ele acreditara sempre que estiveram juntos, mas desde que se ela o deixara, começara a duvidar.

-Eu amo-te Pedro.

-Eu também te amava, mas a dor que me deixaste é maior que o amor que sentia por ti.

Pedro levantou-se e deu um beijo na testa de Sofia e foi-se embora. Aquele momento era estranho e nenhum deles sabia o que sentir e o que pensar. Ele sentia-se feliz porque além de si, Sofia apenas se havia envolvido com Filipe e havia sido recentemente, ela continuava a amá-lo, isso fazia-o estranhamente sorrir... Tinha traído Matilde mas fizera amor com Sofia, de uma forma louca, apaixonada e com total entrega. 
Para Sofia a situação era estranha e diferente. Vivera momentos inesquecíveis com Pedro, sentira-se amada como nunca se havia sentido desde que o abandonara, mas também se sentira desprezada, ela sentira-se usada quando acabaram de o fazer. Sentira-se enganar Matilde, que havia sido sua amiga, tinha desperdiçado uma oportunidade de esclarecer tudo com Pedro mas não conseguia contar-lhe toda a verdade, não iria prejudicar o pai, mesmo que para isso saísse ela lesada. E Filipe deixara-a sozinha, quando ela mais precisara, sem uma única justificação. Apanhou um autocarro e foi até casa, despiu-se e entrou no chuveiro, deixou a água correr e aproveitou para fazer espuma. Precisava de um banho, de mudar as suas ideias, ou clarificá-las. Tirou uma fotografia e partilhou nas redes sociais:


Não há nada como um banho relaxante depois de um dia cansativo”

Sofia acabou por pousar o telemóvel e desligar a música, não queria escutar nenhuma música, queria apenas escutar a sua mente mas viu a porta da casa de banho abrir-se e assustou-se.

-Diz Rita.

Rita entrou para a casa de banho e encostou a porta, sentou-se e observou-a.

-Como não ouvi barulho e parecia que alguém se tinha esquecido da luz ligada vim aqui dentro, nem dei por ti desculpa, mas vou-me já embora. - Ia a sair novamente da casa de banho quando se deparou com algo que a fez voltar atrás. - Que chupão é esse no teu pescoço? Sofia, é aquilo que estou a pensar?


O que irá responder Sofia?
Será que vai contar a verdade? Porque terá Filipe desaparecido durante o dia?