sexta-feira, 6 de junho de 2014

Capítulo 05: “Já tinha dito que era a última vez”


Sofia sabia que ia desiludir o irmão, e que não merecia o seu perdão. Traira a sua confiança. Acreditava que, mais cedo ou mais tarde, ele iria acabar por descobrir e tinha de lho dizer. Filipe sabia que o que tinham feito não era o correcto, e o melhor a fazer era assumir o erro.
Estavam sentados lado a lado sob a cama dele enquanto Diogo estava sentado no colchão onde a irmã dormira. O silêncio reinou aquele quarto durante algum tempo, até que Diogo o irrompeu:

-O gato comeu-vos a língua? – Perguntou impaciente Diogo.

-Contas tu ou conto eu? – Perguntou Sofia a olhar para Filipe.

-É melhor contares tu. –Sofia levantou-se da cama e foi fechar a porta do quarto.

-Acredita que nunca pensei que isto acontecesse e penso que a Sofia também não. E não te peço para esqueceres nem para compreenderes, mas antes de tomares uma decisão precipitada ouve-me com atenção. Nenhum de nós planeou, simplesmente aconteceu. Nós envolvemo-nos... Duas vezes.

-Não me digas que simplesmente aconteceu, não é desculpa. Vocês têm idade, maturidade e responsabilidade para controlar os vossos impulsos. Sabiam muito bem o que estavam a fazer e continuaram. E ainda tiveram a lata de repetir! – Diogo demonstrava bastante bem a sua fúria, a sua tristeza, a sua desilusão e a sua magoa. –Eu confiei-te a minha irmã Filipe, pedi-te para tomares conta dela e tu... Levaste-a para a cama, menos de vinte e quatro horas depois de viverem juntos. E tu Sofia... – Olhou para a irmã. – Tu amas o Pedro, lutaste um ano para teres a oportunidade de voltares a estar com ele, deixaste tudo para trás por ele. E fizeste isto. É natural que estejas carente, compreendo, mas não achas que devias ter esperado? Sabes que só com ele serás feliz. Como é que achas que ele vai reagir quando souber?

-O Pedro já não quer saber de mim, senão tinha esperado por mim em vez de arranjar outra pessoa. – Confessou com a voz a tremer e a falhar. – Não tentes arranjar culpados, ambos temos culpa.

-Segundo a tua lógica, então eu também usei a Sofia. – Respondeu Filipe. –Também estou apaixonado e não deixei de ir para a cama com a tua irmã.

-Tu estás apaixonado? – Perguntaram em simultâneo Diogo e Sofia.

-Sim. – Respondeu calmamente. – Estou apaixonado pela Jéssica há dois meses, mas não tenho coragem de assumir. E também estava carente, há 9 meses que não tinha sexo! Nem só de pão e água vive um homem,  Diogo! – Filipe conseguiu acalmar a tensão que existia naquele quarto com aquelas palavras engraçadas.

-Querem mesmo falar sobre isso? – Perguntou Diogo olhando para eles. –Estou há ano e meio! – Filipe e Sofia olharam atentamente para Diogo e ela é que teve coragem para perguntar:

-Como é que sobrevives? – Perguntou divertida.

-Pode ser que arranje uma amizade com benefícios, como vocês.

-E depois quando tivermos a nossa casa levas-a lá para casa.

-Estou é a ver que vai ser mais o tempo que vou estar fora de casa para não ser vela, do que o tempo em que vou estar lá. – Disse Diogo suspirando.

-Pior vou ser eu! – Queixou-se Sofia. – Os meninos vão para estágio, seleção ou outra coisa e eu fico sozinha em casa. Para melhorar nem sequer saber cozinhar!

-Compras um cão, assim já não estás sozinha e já não tens medo! – Sofia olhou para Filipe fingindo não achar piada mas não conseguiu fingir durante muito tempo, sorriu e depois deu-lhe uma cotovelada trocando um olhar cúmplice.

-Mas vamos jantar que os teus pais já estão á nossa espera, além do mais, quero vir deitar-me, estou cansada.

-Porque será... – Sugeriu Diogo.

-Fica sabendo que as coisas são para se serem bem-feitas, ainda não tive queixas até agora.

-Até parece que foram muitas até agora, senhor playboy... – Sofia respondeu-lhe.
Levantaram-se para ir jantar, mas Diogo deixou que um pensamento seu fosse mais alto.

-E como é que vocês vão ficar depois disto? Afinal vamos viver os 3 juntos.

-Sinceramente.. Nem nós sabemos. – Admitiu Sofia.
Saíram do quarto e foram em direção á cozinha, os pais de Filipe já estavam á espera para o jantar. Sentaram-se á mesa e ficou Sofia ao lado do irmão e Filipe ao lado da mãe, enquanto António Nascimento se encontrava na cabeça da mesa. Durante a refeição a televisão encontrava-se sempre desligada para assim falarem melhor e foi Diogo que tomou iniciativa:

-Obrigada por tomarem conta da minha irmã, por a deixarem entrar na vossa casa e por lhe oferecem o que não lhe posso dar, por enquanto. Prometo que farei tudo para ser apenas uma situação breve, e vou-vos pagar toda e qualquer despesa que eu e a minha irmã demos.

-Diogo, não precisas de apressar nada, nós até gostamos de ter a Sofia connosco é boa rapariga e é sossegada. – Quem falou foi a mãe de Filipe, Maria. – E não precisas de pagar nada, aliás ficamos chateados se nos deres dinheiro. Temos é de pedir desculpa á Sofia por tudo. Tem de partilhar o quarto com o Filipe e dormir num colchão, mas vamos tentar melhorar e fazê-la sentir em casa.

-Nós já percebemos que se passou algo. – Disse António Nascimento e tanto os irmãos como Filipe ficaram sem reação possível, como seria possível que tivesse descoberto o que se havia passado entre eles? –Algo com o vosso passado e que envolve a vossa família. E vocês não querem falar, mas talvez fizesse melhor falar, talvez vos pudéssemos ajudar. E talvez precisem, afinal vocês ainda são dois miúdos, a Sofia ainda nem deve ser maior de idade. – Talvez Sofia estivesse a ser procurada pela polícia e o mais certo era já ter sido dada como desaparecida pelos pais, mas não iria voltar para perto do homem que lhe deu a vida, iria lutar pela sua felicidade junto do irmão e do seu amigo Pipo, não iria desistir do que a trouxera de volta. Iria reconquistar Pedro ou pelo menos contar-lhe o que se tinha passado para a obrigar a afastar-se dele.

-Sim, é verdade que se passa algo. – Respondeu Diogo. –É um assunto bastante complicado, para além de envolver a nossa família, envolve o nosso passado e o nosso presente. Agradeço-lhe, mas em relação a este assunto, só nós e os nossos pais podemos resolver.

-Mas diz-me só uma coisa. A Sofia é menor não é?

-Sim, sou. – Desta vez quem respondeu foi a própria.

-Os teus pais sabem que estás aqui? – O silêncio apoderou-se da cozinha, ninguém sabia muito bem o que responder. Não queria mentir mas também não podiam dizer a verdade.

-Nós queremos procurar uma casa para moramos os 3. – Anunciou Filipe, tentando fazer esquecer aquela pergunta que ficou no ar.

-Não estás bem cá em casa filho? – Perguntou Maria.

-Estou mãe, estou muito bem até, mas eles vão viver juntos e eu quero ir também, quero começar a lutar pela minha independência e viver com as responsabilidades de ser um adulto, com a minha casa e pagar as contas, fazer as compras e sustentar-me, e acho que chegou a altura certa e a oportunidade é excelente.

-E tens a certeza que é isso mesmo que queres? – Perguntou António. – Podemos bem fazer umas mudanças cá em casa e dá para vivermos todos.

-Nós só não queremos dar trabalho. – Disse Sofia. – E vão ficar em despesas muito maiores por nossa causa.

-Não pai, sabes que não é a mesma coisa.

-E já andaram a ver casas? – Perguntou Maria, claramente emocionada.

-Eu fui hoje a uma agência imobiliária tratar de tudo e amanhã já tenho agendada visitas a duas casas.

Maria ficou claramente emocionada pelas palavras do filho, por ele querer ir viver para a sua própria casa, por querer ser “independente” dos pais, era o filho mais novo, já não era a primeira vez que ouvira aquelas palavras, mas não estava preparada para ouvi-lo. Queria proteger o filho, queria proteger os irmãos Rochinha como se fossem seus filhos, até porque eles estavam sozinhos, sem contar com o apoio dos pais. Diogo não demonstrava necessidade de afeto, mas Sofia “gritava” que precisava de carinho e só o apoio de um irmão mais velho não era suficiente, faltava-lhe maturidade para poder ajudar a irmã, faltava-lhe um instinto paternal que só conseguia ter depois de ser pai. Maria era uma pessoa atenta e uma mãe carinhosa, apesar de Sofia ter escondido os cortes com todo o cuidado, a mãe de Filipe já tinha visto os cortes mas não sabia como abordar o tema.

-Mas já sabem que a porta da nossa casa estará sempre aberta. – Disse tentando esconder as emoções que sentia. –E Sofia quando eles tiverem fora, para não ficares em casa sozinha, sabes que podes vir á vontade.

-Obrigada dona Maria. – Respondeu Sofia.
Continuaram a conversar durante todo o jantar, Sofia não conseguia parar de pensar nas surpresas que aquele dia lhe trouxera, enquanto Maria tentava dar a entender que o facto de Filipe quer ir viver para a sua própria casa não a afetara. Quando acabaram de jantar, todos arrumaram a cozinha e iam para a sala conversar mais um pouco, mas Sofia estava cansada, além do seu corpo, até a sua mente pedia descanso, por isso despediu-se de todos e foi até ao quarto. Vestiu o pijama e deitou na cama, começou a ouvir música mas o sono não aparecia, embora o corpo e a cabeça sentissem cansaço, todos os pensamentos centravam-se numa pessoa, Pedro.
Sofia sabia que ainda era cedo e no dia seguinte poderia ficar a dormir até mais tarde, mas queria permanecer deitada, queria ouvir as letras das músicas que a animavam, mas também a deixavam triste, não queria incomodar ninguém com os seus problemas, queria apenas chorar sossegada. 

Mas em simultâneo queria sentir que alguém a amava, mas não queria falar, não queria explicar nada, por isso ficava apenas sozinha.
Sofia tentou adormecer e conseguiu durante alguns minutos, mas assim que o irmão e Filipe chegaram ao quarto voltou a acordar. O irmão tirou-lhe os fones dos ouvidos e pousou o telemóvel na mesa de cabeceira, e deitou-se ao seu lado, mas como o colchão não era suficientemente grande, tinham que se tocar. E aquele quente do contacto com o corpo do irmão faziam-na sentir estranhamente protegida, mas mais carente. Pedro era uma pessoa tão quente como o irmão e era aquele toque que ela sentia saudades como de mais nada sentira saudades antes.


Esperou algum tempo, até sentir o silêncio profundo naquela casa, silêncio que revelava que tudo dormia profundamente e deixou cair as lágrimas pela sua face, primeiro mais devagar, até um nível mais rápido e desesperante, queria que os olhos deitassem fora toda a dor que sentia, toda a dor e mágoa que aquele dia lhe tinha dado. Sabia que não conseguia chorar até as forças acabarem, que não conseguia libertar todo o seu sentimento com aquelas pequenas gotas de água, mas quando o fazia sentia-se mais liberta de si mesma e do mundo.

-Sofia. – Aquela voz assustara-a. Pensava que toda a gente naquela casa dormia profundamente mas enganava-se. – Estás a chorar?

Limpou as lágrimas e tentou falar disfarçar o nervosismo que sentia, não queria partilhar com ninguém o que sentia, não queria que ninguém soubesse que chorava sozinha á noite na cama, enquanto todos os outros dormiam.

-Não Filipe, não estou.

-Se estivesses bem tinhas-me chamado Pipo.

-Eu estou bem Pipo, a sério.

-Sofia anda para aqui. – Hesitou, não sabia se deveria aceitar ou não.

-Não sei... É melhor não.

-Anda lá Soff. – Sofia sorriu. – Eu sei que não estás bem que estás apenas a tentar mostrar que estás.

-Estou a ir. – Levantou-se e tentou não incomodar o irmão que dormia pacificamente. Saiu da cama e deitou-se ao pé de Filipe, frente a frente mas tentando que não existisse contacto.

-Que se passou Sofia? Porque choras?

-É tudo Pipo, tudo junto. Eu sei que o meu pai. – Era a primeira vez que o chamava assim desde que ele a obrigara a abortar. – Pode ser cruel, insensível e mau, mas não deixa de ser meu pai, é graças a ele que nasci, ele não deixa de ser sangue do meu sangue. Mas não consigo compreender e aceitar porque é que ele me obrigou a fazer o que fiz. E no fundo tenho medo de me tornar o monstro que ele é. E ao mesmo tempo também é a minha mãe. Porque é que não lutou a meu lado? Ela sabia que o meu sonho sempre foi ser mãe, sabia o quanto amava e amo o Pedro e mesmo assim.. Mas ao mesmo tempo também tenho saudades deles, foram eles que me criaram, são eles os meus pais, foram eles que me deram vida, são eles o sangue do meu sangue e eu limitei-me a desaparecer. Sei que vou ter saudades deles e podia ter feito as coisas de outra forma, mas a forma como a fiz, foi um grito de desespero. E é o Pedro, eu sei que o devo ter magoado imenso, mas também sei que ele me amava e agora... Está com aquela rapariga. Porque é que ele não esperou por mim? Porque é que está com ela? Será que a ama mais do que amou a mim? E o Diogo? Será que ele sabia de tudo e não me disse nada com medo de me magoar? Preferia que me tivesse dito tudo do que ter descoberto desta forma. – Desabafou tudo aquilo que sentia com as lágrimas a atravessarem-lhe o rosto.

-O teu pai... Ele ama-te muito e talvez tenha sido a forma dele te proteger do que achava um erro. Claro que deveria ter agido de outra forma e o que fez não tem perdão, mas secalhar na cabeça dele faz sentido. E a tua mãe talvez não tenha feito nada por receio e talvez porque no fundo concordava com ele e não conseguiu reagir. O Pedro... Bem, ele pode estar com essa rapariga, não porque a ama, mas porque precisava de alguém para amparar a queda. E talvez ela o tenha apoiado quando precisava de ti. Tu desapareceste e vocês andaram durante imenso tempo e ele estava carente. Reagiu como nós reagíamos Sofia. E o Diogo talvez não soubesse de nada, ou se sim, talvez não te tenha conseguido contar, ele também não tem um papel nada fácil no meio desta história toda. Tu és irmã dele, mas também são os pais dele, talvez ele e o Pedro sejam amigos. Porque tu estás mal mas o Diogo também não está bem sabendo como tu estás. E ele tenta ajudar-te no que pode e ainda há pouco tiveste a prova, quando lhe demos a notícia, ele mostrou bem como ficou desiludido connosco.

-Obrigada Pipo! – Como era mais baixa que Filipe deu-lhe um beijo no pescoço que lhe causou um calafrio que ela também sentiu.

-Sofia... – Sussurrou. Ela pousou o dedo indicador sobre os lábios dele.

-Não digas nada Filipe. – Começou a beijar-lhe o pescoço e rapidamente ele ficou arrepiado. Percorreu a delinear linha do pescoço com beijos e chegou até aos lábios, que beijou fugazmente. Pegou nas mãos dele e colocou-as sobre o fundo das suas costas. Ele separou os lábios e disse:

-Já tinha dito que era a última vez.

-Tu disseste, eu não. – Voltou a beijá-lo e colocou as mãos sobre o peito a descoberto de Filipe. Ele agarrou-a e colocou-a deitada sobre si. Beijaram-se fugazente e com desejo bem presente e acesso entre eles. Filipe dormia apenas com uns calções enquanto Sofia tinha vestido um pijama bastante reduzido. Ele despiu-lhe a camisola e percorreu a sua barriga com beijos, massajou-lhe o peito e quando notou que Sofia o desejava, despiu-lhe os já curtos calções. Ela não se deixou ficar para trás, colocou-lhe a mão sobre as nádegas e conseguiu também tirar-lhe os calções.


Estavam apenas em roupa interior e loucos de desejo, mas Sofia lembrou-se que não poderiam ser descuidados, senão poderia mais tarde arrependerem-se, por isso ele colocou o preservativo (por sorte tinha um último na mesa de cabeceira) e fizeram o que o desejo os mandava fazer. Por sorte, Sofia antes de se deitar junto a Filipe tinha ido encostar a porta do quarto e Diogo tinha um sono pesado e não acordava facilmente, e com o ressonar conseguiu “abafar” os sons provocados por aquele “casal”.

Quanto terminaram vestiram-se e Sofia adormeceu, bastante exausta, junto a Filipe e ele com medo que ela acordasse durante a noite e se sentisse sozinha deixou-a ficar e colocou o despertador um pouco mais cedo do que era habitual, de forma a conseguir acordá-la e a fazê-la deitar-se junto ao irmão. Adormeceu pouco depois, também exausto pelo dia que tivera.
No dia seguinte, quem os acordou foi António, que se deparou com aquela situação e ficou tão surpreendido como  Diogo. E fez questão de dizer:

-Bom dia meninos. – Olharam os três. – Sofia que fazes na cama do Filipe?


Porque é que o despertador não tocou?
Irão dizer a verdade? Ou vão arranjar uma desculpa plausível?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Capítulo 04: “Simplesmente... Aconteceu”


Sofia sentia-se sozinha no mundo. Tinha de enfrentar, uma vez mais, uma dura e triste realidade. Mas, ao contrário da primeira vez, tinha de enfrentar olhos nos olhos uma realidade que escolhera. Ninguém a obrigara a “dormir” com Filipe, tinha sido ela a escolher fazê-lo. E tinha de lidar com as consequências dos seus actos. O que acontecera com Filipe, tinha sido um impulso, um desejo de se sentir amada, porque depois de ver Pedro a beijar outra rapariga e a tocar-lhe como tocava a si, sentiu-se traída e humilhada. E tentou tapar a ferida, nem que fosse durante algum tempo, com Filipe. Mas a ferida iria abrir e sangrar mais uma vez. 
As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto e Sofia não conseguia pará-las, sentia que tinha traído Pedro, que tinha “usado” Filipe e tinha magoado a si própria, não tinha resistido aos seus pensamentos e aos seus desejos carnais, embora o coração dissesse que amava Pedro e que sempre o amaria. Sofia sentia que tinha falhado, que não o devia ter feito. Por isso só podia fazer uma coisa, ir-se embora, Era o melhor que fazia. Detestava despedidas como ninguém e não consegui-a dizê-lo em voz alta, por isso enviou uma mensagem de texto a Filipe a dizer:

“Pipo, desculpa a forma como me despeço, tu sabes tão bem como eu o que aconteceu e que o melhor é agradecer-te por tudo e seguir o meu caminho. Sabes que és um dos meus melhores amigos e que apesar de tudo não quero perder esta amizade. Agradece aos teus pais e obrigada também por tudo. Beijinhos”

Depois de enviar a mensagem, pegou também num papel para deixar uma mensagem para os pais de António e Maria Nascimento.

“Obrigada pela vossa simpatia, pela estadia, e pela atenção que me deram. Motivos mais fortes, obrigaram-me a despedir-me de vocês mais cedo do que o previsto. Desculpem mais uma vez o incómodo e prometo que não me esquecerei de vocês. Quando poder pago a despesa que causei e com juros!
Beijinhos e mais uma vez obrigada, Sofia Rochinha”

Deixou o papel em cima da cama de Filipe e começou a arrumar os seus pertences, não sabia para onde iria, e muito menos como ficaria, o mais certo era dormir na rua até encontrar um sítio onde viver. Sabia que podia contar com Diogo, mas não o queria desiludir. Arrumou o quarto e despediu-se daquela casa. Mas não sem antes, enviar uma mensagem a Filipe:

“Ficaram algumas coisas minhas em tua casa, quando puder e tiver como, vou buscá-las”

Saiu de casa, e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, magoava-a estar assim. Ainda conseguiu ver António a entrar em casa, mas fintou-o de forma a ele não a ver. Não conhecia muito bem o local onde estava, nem para onde ir, sabia apenas que queria um local minimamente seguro onde pudesse descansar.

Apenas se conseguiu lembrar de um sítio que seria o seu apoio, alguém que em tempos, fora como um melhor amigo. A praia. Como não conhecia nenhum local próximo e não podia contar com o apoio de ninguém, apanhou um táxi. A praia mais próxima era a meia-hora de carro, por isso teve de tentar falar com um taxista e negociar um preço mais baixo e conseguiu. Por 20€ conseguiu chegar até á Praia das Maçãs. Assim que chegou, tirou as malas do carro, pagou ao taxista e começou a caminhar o passeio que separava a estrada do areal, descalçou-se e sentiu a areia tocar nos seus dedos dos pés.

O areal... Era bom sentir a areia a tocar nos seus dedos dos pés, a brisa do mar a bater na sua pele e o cheiro intenso da maresia . Sentir a brisa fria do mar bater na sua pele e causar um calafrio, era bom sentir-se novamente em casa, sentir todas aquelas sensações que não sentia há um ano. A sua casa em Espinho era próxima do mar, mas nunca tivera a coragem de ir á praia depois do que tentou fazer e era bom matar saudades do mar, aquele que já fora um dos seus melhores amigos. Aproximou-se do mar e pousou as malas no chão, sentou-se e nada a fazia sentir-se melhor, era uma sensação de calma e pacificidade que não conseguia explicar. Respirou fundo e pela primeira vez, desde há muito tempo, sentiu-se verdadeiramente bem. Sorriu e ficou a conversar com o mar durante bastante tempo, sentia saudades daqueles momentos, daquelas respostas que o mar lhe dava através da força das ondas, ou da ausência delas.

As horas foram passando e o telemóvel continuava a tocar, Sofia nunca atendia. A mãe já lhe ligara várias vezes, o pai também, mas se á sua própria progenitora não atendia a chamada, não iria conversar com o homem que lhe dera vida, era em parte, ele o culpado por muito do que lhe acontecera. Mas continuava a olhar para o telemóvel e acabou por atender. Não o deveria fazer, mas não conseguiu ignorar a chamada de Filipe.

-Sim? – Disse Sofia mas não deixou o amigo responder. – Pipo se me vais pedir para voltar a tua casa desiste, depois do que aconteceu sabes que é o mais acertado que posso fazer.

-Diz-me apenas onde estás. – Respondeu calmamente.

-Praia das Maçãs.
Sofia não iria, nem conseguia mentir ao seu amigo Filipe. E também não teve de esperar muito tempo por ele. Bastaram apenas vinte minutos. Quando chegou sentou-se junto á amiga e falou:

-Sofia, não te vou obrigar a voltares para casa, já te disse que as portas de minha casa estarão sempre aberta para ti. – Ambos deixavam os olhares cravados no mar. -O que aconteceu, já passou, estou disposto a esquecer tudo. E espero que tu também estejas. Mas sabes que neste momento sou a única pessoa a poder ajudar-te e quero que aceites a minha ajuda, porque é de coração.

Olharam um para o outro, e sorriram. Aproximaram-se, sem nunca afastar os olhares e Sofia sussurrou, baixando a cabeça.

-Não pode voltar a acontecer. – Mas ergueu a cabeça olhando para Filipe.

-É a última vez. – Disse pousando a mão sobre a sua bochecha esquerda e beijando-a de seguida, e ela não recusou, retribuiu de igual forma inclusivé.
As roupas que traziam no corpo rapidamente voaram (mais uma vez), e acabaram por repetir a proeza daquela tarde. Sabiam que não o deveriam ter feito e aquele local, era público, qualquer pessoa podia aparecer, mas estavam dispostos a arriscar.
Quando terminaram o que já tinham feito por diversas vezes naquela tarde, vestiram-se sem nunca trocarem uma palavra, não sabiam o que dizer, por isso optaram por um silêncio profundo onde apenas se ouvia as ondas do mar. Filipe embora não tivesse pedido a Sofia para regressar a casa, ela incentivou-se a ir com ele. Pousaram as malas no carro e a jovem colocou-se no lugar ao lado do condutor, Filipe ligou o rádio e começou a conduzir em direção a casa. Não sabiam o que dizer, mas ele sabia que tinha de falar, tinha de fazê-lo.

-O Diogo está lá em casa. – Respondeu não tirando os olhos da estrada.

-Vai lá jantar? – Respondeu baixinho, quase que sem coragem de abordar qualquer tema com aquele que era um dos seus melhores amigos.

-Sim, vai lá jantar e dormir. – Respondeu sereno enquanto a jovem da jovem de Espinho tremia, assim como o seu corpo, devido a uma série de sentimentos que o seu coração a fazia sentir. – E acho que ele merecia saber, Sofia. Pelo que aconteceu... Duas vezes. – Sofia não queria nem pensar no que tinha acontecido, na desilusão que iria dar ao irmão, mas sabia que era o mais certo dizer, mas não queria desiludi-lo também a ele.

-Eu preferia não fazê-lo. Sei que o vou desiludir. Mas tu ainda não lhe disseste? – Tentava esconder o nervosismo e o medo que tinha a pensar nas palavras com que abordava aquele tema e na melhor forma de lhe dizer.

-Não, ele só vai saber se tu concordares em dizer. – Respondeu aproximando-se cada vez mais da vila onde moravam. – Eu acho que ele merecia saber, compreendo que não queiras dizer mas acho que é melhor ouvir pelas nossas bocas do que descobrir mais tarde.

-Tenho medo de o desiludir, só o tenho a ele e a ti do meu lado.

-Posso mentir-te e dizer que ele vai gostar do que vai ouvir, mas só sabemos depois de lhe dizer qual será a reação dele.

-E se ele deixar de me apoiar? E se ele me abandonar como fez o Pedro?

-O Diogo gosta imenso de ti, és mais que uma irmã dele, és uma amiga e ele nunca te vai abandonar.

-Claro que tenho medo que ele me abandone, preciso dele mas o meu maior medo é ver que o desiludi. E será uma dor maior que todos os cortes que fiz.

-Há pouco percebi dos teus cortes... – Não queria dizer quando o tinha descoberto e não precisou porque rapidamente entendeu. – E quem gosta de ti realmente, vai gostar acima de qualquer corte ou qualquer outra marca no teu corpo. Não sei como é que ele vai reagir e sei que vamos desiludi-lo, mas antes isso do que mentir ou omitir.

-Então vamos lá. – Filipe estacionou o carro e Sofia continuou a conversar. – Pipo, não quero que os teus pais saibam de nada do que aconteceu. – Referia-se á sua saída de casa e aos momentos que tinham vivido juntos.

-Nem eu quero que eles saibam, Soff. Sinceramente, acho que eles pensam que ainda sou virgem.

-Tu eras virgem?

-Não, claro que não.

-Eu também não, descansa. – Sorriu.

Filipe relembrou-se do momento em que Sofia contara a história do seu último ano de vida mas acabou por não dizer, sabia que a magoava e imaginava que fosse doloroso falar sobre ele. Por isso preferiu mudar o rumo da conversa.

-Não te importas de ficar sem as malas até amanhã? É que se as levarmos os meus pais vão perguntar.

-Não. Amanhã quando vieres do treino diz-me para vir buscá-las.

-Está bem. Pronta para falarmos com o Diogo?

-Não estou preparada mas vou fazê-lo.

-Vamos, Sofia. – Relembrou Filipe olhando para a amiga que sorriu. – Não vais fazê-lo sozinha, assim como também não o fizeste.

-Obrigada Pipo. – Tocou com os dedos na mão do amigo. – E se os teus pais perguntarem porque é que não tive em casa? – Abrandou enquanto subiam as escadas da vivenda.

-Dizes que foste tratar de umas coisas da escola mas que entretanto me esqueci de te ir buscar.

-É uma desculpa um bocado esfarrapada.

-Vai ter de servir Soff.

-Então vamos. – Acabaram de subir as escadas que davam acesso á casa.

-Olá a todos! – Disse Filipe entrando em casa e cumprimentou a mãe com dois beijos e cumprimentado o pai e o amigo com um “passou-bem”. Sofia aproximou-se de todos e cumprimentou com dois beijos.

-Então que te aconteceu Sofia? – Perguntou Maria, a mãe de Filipe.

-Fui tratar da minha transferência para a escola e o Pipo esqueceu-se de mim.

-Achas isso bem Filipe Guterres Nascimento?

-Esqueci-me, desculpem! – Respondeu envergonhado.

-Enquanto eu preparo o jantar, vão lá instalar o Diogo enquanto o teu pai também põe a mesa.

Obedeceram e foram até ao quarto.

-Vou ter de dormir no sofá ou há espaço aqui no quarto?

-Eu posso ir dormir para o sofá e tu dormes na minha cama. – Respondeu Filipe.

-Nada disso. – Respondeu Sofia. – No colchão cabemos os dois, até porque não és propriamente muito grande. – Disse Sofia brincando com a baixa estatura de Diogo e Filipe respondeu rindo-se juntamente com ela.

-Hei! – Disse Diogo chamando a atenção. – Deixem lá o meu 1,66 em paz!

-Mas agora falando de assuntos sérios. – Disse Filipe. Sofia levantou-se e sentou-se ao lado dele, deixando Diogo sozinho no colchão, que rapidamente entendeu que o assunto era bastante sério e envolvia ambos.

-Meninos para a mesa! – Disse Maria.

-Dá-nos 10 minutos e já vamos mãe!

-Que é que se passou? Foi algo de grave?

Será que vão conseguir dizer o que se passou?

Será que vai aceitar bem o que aconteceu ou ficará desiludido? O que ditará o futuro de Sofia?

sábado, 12 de abril de 2014

Capítulo 03: “Ele... Ele... Tem... Outra...”


Filipe não estava á espera de uma história tão intensa, não podia nunca imaginar que o pai dela, lhe fizesse uma crueldade tão desumana. Diogo sabia de quase toda a história. Sabia que o pai nunca gostara de Pedro e que obrigara Sofia a ir para Espinho para a afastar dele, mas não podia nunca, nem imaginar, que a tinha forçado a abortar. O sonho da irmã podia-se ter tornado realidade, senão fosse as atitudes questionáveis do pai.
O primeiro a reagir foi Filipe, que limitou-se a abraça-la como não era abraçada há muito tempo. E Sofia chorou durante bastante tempo, não havia ninguém á excepção da mãe que sabia toda a história desde o começo. Por isso mesmo, não havia ninguém que lhe pudesse dar todo o apoio que necessitava.

-Sofia. – Sussurrou-lhe. – Não sei o que te dizer. Só me apetece abraçar-te e nunca mais te largar. – Disse apertando-a mais nos seus braços. Diogo pousou a mão sobre a mão da irmã.

-Eu não acredito que ele te fez isso. – Disse sem reação possível. –Ele não pode, não tinha coragem... – Disse agonizado e mal disposto só de pensar naquela hipótese. Sofia foi mais forte, controlou as lágrimas e encarou pela primeira vez o problema, não o evitando.

-Mas fez Diogo. Magoou-me muito e nunca pediu desculpa ou mostrou um sinal de arrependimento. Mereço este sofrimento, mas quem deixei para trás não merecia... – Sofia não conseguiu manter a pacificidade e começou a chorar, ainda não era forte o suficiente para conversar sobre o que se havia passado sem chorar, sem sentir uma repulsa e uma náusea por si própria. Sempre que falava sobre o que havia passado, era como se os cortes se voltassem a abrir e a dor agoniante voltasse. Depois de alguns largos minutos a chorar é que conseguiu acalmar-se e exausta por tantas lágrimas derramadas, da longa viagem que fizera e todas as emoções que sentira adormeceu com a cabeça pousada no colo do irmão e com os pés sobre as pernas de Filipe.
Acordou passado algum tempo com o corpo a doer-lhe, apesar de ter adormecido numa posição que lhe parecera confortável. Mas ao contrário de quando tinha adormecido, a sua cabeça não estava pousada no colo do irmão, mas sim numa almofada e os pés estavam descalços e sobre o sofá.

-Diogo, Pipo. – Levantou-se e começou a procurá-los pela casa.

-Querida vem á cozinha! – Ouviu uma voz bastante simpática e convidativa chamar por si e começou a percorrer a casa á procura donde viria aquela voz, assim que encontrou, deparou-se com uma senhora de meia idade que formou um sorriso na cara quando a viu.– Presumo que sejas a Sofia.

-Sim. – Respondeu envergonhada. –E presumo que seja a mãe do Filipe. – Disse não mencionado a alcunha pela qual o chamava.

-Sim, querida. O Filipe foi só levar o teu irmão ao centro de treinos e já deve estar a chegar.

-Obrigada e desculpe o incómodo. Vou só esperar que o Filipe chegue e já me vou embora.

-Sofia senta-te aqui. – Puxou uma cadeira da mesa da cozinha e apontou para a cadeira ao seu lado, como que convidando-a para se sentar. Sofia obedeceu. – O Diogo e o Filipe, Pipo como tu chamas, estiveram-me a explicar a tua situação e estou disposta a ajudar-te, podes ficar aqui o tempo que quiseres. – Disse voluntariamente. – Não temos mais camas cá em casa e o sofá não é tão confortável quanto parece. – Bem que o diga! Comentou Sofia para si mesma. – Mas logo á noite vou ter com o meu marido ao trabalho e vamos comprar um colchão para o Filipe dormir enquanto aqui estiveres. Tens é de partilhar o quarto com ele, e acredita quanto te digo que ele não é um bom exemplo de arrumação. – Sorriram.

-Só iria incomodar e dar problemas, não se incomode, arranjarei outro sítio para ficar.

-Levo a mal senão aceitares o meu convite. – Sofia deu-se por vencida.

-Então faço questão de lhe pagar, por enquanto não tenho muito mas é uma boa ajuda. E quando tiver mais, juro que pago todas e quaisquer despesas que dê.

-Deixa-te estar querida. Faço-o de boa vontade, não quero nada em troca.

-Não sei como lhe agradecer por tudo. De coração. E nem sequer sei o seu nome... – Disse ainda mais envergonhada.

-Maria. Maria Nascimento. E nada de donas, nem senhoras, o meu primeiro nome é Maria. – Sorriram e Sofia entendeu logo o que a mãe de Filipe queria dizer. – Queres ajuda para levares as tuas coisas para o quarto Sofia?

-Não se incomode. – Antes de virar costas repetiu. –Obrigada mais uma vez por tudo.

-É de boa vontade que te ajudo. Querida, tens no quarto do Filipe um armário que ele não usa, não é muito grande, mas sempre podes lá guardar as tuas coisas e as malas podem ir para o armário dele.

-Se lhe agradecer mais alguma vez é capaz de se chatear, por isso, se me dá licença vou arrumar as minhas roupas. – Sorriu e foi até á sala buscar as malas e foi até ao quarto e pousou-as no chão. O quarto era bastante grande, por isso havia espaço para deixar as malas e para colocar um colchão. Procurou o armário que Maria tinha falado e depois de o encontrar começou a arrumar as roupas.

-Olá Soff! – Disse Filipe a entrar no quarto. – Desculpa não te termos dito nada mas estavas a dormir tão bem que te deixei estar. E o Diogo teve mesmo de ir embora.

-Mas já é assim tão tarde?

-Não. São 19h e pouco.

-Tive pena de não lhe dar um beijinho mas eu depois falo com ele.

-Amanhã só temos treino á tarde, se quiseres podemos passar o dia juntos.

-Tenho é que ir á escola de manhã, preciso de saber se está tudo bem com a minha matrícula, ver qual é a minha turma e horário e quais os livros que preciso e claro, se há alguma forma de os ter sem pagar, ou a pagar menos.

-Estás a tirar que curso?

-Estou em letras, porquê?

-No décimo segundo ano, certo?

-Sim.

-Ficas então com os meus livros do ano passado, duvido que tenham mudado.

-Obrigada Pipo! Não sei como te agradecer por tudo!

-Para que servem os amigos?

-Mas os teus pais não têm e não deviam sustentar-me, e tu estás a ser incansável comigo. Obrigada! – Deu-lhe um abraço e um beijinho e com a proximidade que havia, acabou por tocar nos ombros de Filipe. Naquele último ano, tinha desenvolvido bastante. A voz estava mais grossa, o corpo outrora magro, dera lugar os músculos e os ombros estavam mais largos e Sofia não conseguiu evitar tocar-lhe. Era um grande amigo seu, talvez o melhor depois do seu irmão, mas como era possível ficar-lhe indiferente? Durante aquele último ano não tinha deixado que nenhum rapaz se aproximasse, afastara todos os interessados e não olhou para nenhum rapaz, iria ser fiel a Pedro. Mas Filipe era tão bonito, por dentro como por fora. E ela, estava carente. Mas não iria trair o seu namorado, não iria estragar uma amizade e magoar duas pessoas que tanto gostava somente por causa de uma atracção física.

-Meninos, mesa! – Anunciou a mãe de Filipe. Separaram-se e foram até á cozinha onde jantaram e Maria depois de terminarem a refeição, foi embora ter com o marido para comprarem o colchão e depois, começaram também a arrumar a roupa que Sofia havia trazido pelo quarto.

-Se soubesse que estavas em Espinho, tinha ido ter contigo.

-Não tinhas como saber. Mas acredita que nunca desconfiei do valor da nossa amizade.

-Podia ter feito tantas coisas mais, podia ter pressionado mais o teu irmão, podia ter ido até Espinho á tua procura, nem que fosse para perguntar aos teus pais.

-Não te sintas culpado, o meu pai nunca te iria dizer, e o meu irmão não te poderia dizer, porque nem ele sabia.

-Como é que e possível? Ele é teu irmão...

-Sim. Mas o meu pai disse-lhe que fui para um colégio interno.

-Os teus pais já te ligaram? – Perguntou Filipe, mudado de assunto rapidamente.

-Não. Não são meus pais. Ela é minha mãe, mas aquele... Monstro, não é meu pai. Demito-me a acreditar que ele é sangue do meu sangue, senão não me teria feito o que fez. Mas não quero falar sobre isto. – Disse com a mágoa bastante presente na voz.- Mas sim, já me ligaram umas quantas vezes mas nunca atendi.

-E algum dia, ou alguma vez vais atender?

-Não sei. Estou é a pensar mudar de número.

-Põe-te no lugar da tua mãe, não ias gostar de não saber onde está a tua filha.

-A minha mãe é a pessoa que menos culpa tem, e não merece isto. Mas por enquanto, não tenho coragem de falar com ela.

-Mas sabes que é provável que ela desconfie que estejas aqui.

-Depois penso nisso. – Disse claramente a mudar o rumo da conversa. E depois de arrumarem a cozinha, verificaram se os livros estavam todos em ordem, claramente usados mas em bom estado para serem reutilizados.
Sofia estava exausta e Filipe não parou quieto durante o dia, por isso estavam com sono e acabaram por se deitar na cama dele e adormecerem. Era uma cama de solteiro, não era confortável para duas pessoas, mas tentaram ao máximo manter a distância. Filipe acordou quando os pais chegaram, ao contrário de Sofia.
Com o cansaço deixaram-se adormecer até às 11h, e depois de prontos, puseram-se a caminho da escola, Filipe optou por ficar no carro a ler um livro, enquanto Sofia vou verificar a sua turma, os horários e se a transferência tinha sido totalmente aceite. Depois de tudo preparado saiu da escola confiante que iria recuperar a vida que tivera outrora, aquele era o primeiro passo. Quando ao sair deparou-se com algo que nunca imaginara. Algo que partiu o coração em milhões de pedaços.


Pedro estava a beijar outra rapariga. Pedro tinha outra pessoa... E Sofia sentiu  o seu mundo ruir mesmo por debaixo dos seus pés. Não o podia censurar por ter outra pessoa, ela tinha-o abandonado e ele estava a lutar pela sua felicidade. Ela não o iria abandonar, não iria matar um filho, talvez ele a merecesse como não merecia Sofia, e talvez ela iria limitar-se a amá-lo e a fazê-lo feliz. Ele estava feliz, era o que mais importava, mas não podia sentir-se feliz com a felicidade dele, ao lado de outra pessoa. Foi até ao carro, sem nunca derramar uma lágrima e entrou para o lugar do pendura.
Entrou no carro sem dizer uma única palavra, nem cumprimentar o amigo, só conseguia pensar no que acabara de ver. Ele estava feliz... Mas aquela felicidade, custara-lhe a sua felicidade.

-Que se passou Sofia?

-Não fales por favor. Leva-me apenas para casa. – Filipe obedeceu ao pedido de Sofia e conduziu até casa, ligou o rádio mas ela desligou-o. Queria apenas sair daquele sítio, em silêncio absoluto.
Filipe estacionou o carro enquanto caminhavam até casa, ele sentia-se a cada momento mais impotente, mas iria respeitar o pedido da amiga.
Quando chegaram a casa, almoçaram num silêncio assustador e profundo, depois de terminaram Sofia pediu para arrumar a cozinha sozinha e Filipe obedeceu, deixando-a sozinha. Mas ela sabia bem o porquê daquele pedido, iria pôr um termo á vida. Abriu a gaveta dos talheres e tirou de lá a maior faca que existia, olhou para ela e pensou:

“Se tu falhares não sei o que mais me mata”

Continuou a olhar e a perguntar a si mesma se faria mais cortes nos pulsos, como havia feito antes e tinha acabado por sobreviver, ou se faria na garganta,  que sem dúvida seria fatal.
Mas Filipe regressou á cozinha e disse:

-Tens a certeza que não queres ajuda? – Mas ao entrar na cozinha deparou-se com aquela cena.Sofia tinha uma grande faca na mão, e estava a olhar para ela e a colocá-la junto á pele. Correu até ao seu encontro e abraçou-a. – Sofia, não te vou perder outra vez, ouviste? – Disse atirando a faca para o chão, e abraçou a amiga com toda a força. –Por favor, explica-me o que se passou.

-Ele... Ele... Tem... Outra... – Sofia não conseguiu conter as emoções. 

-A única pessoa que merece as tuas lágrimas é a única que nunca te fará chorar. – E começou a limpar as lágrimas que corriam a face de Sofia, mas o corpo dela continuava a tremer, com os nervos que sentia. – Tem calma, eu protego-te. – Agarrou nas mãos de Sofia e olhou-a. – Não me voltes a deixar, promete-me. – Filipe suplicara-lhe com as palavras e com o olhar. Aquele momento tornou-se mais do que um momento de amizade, porque num impulso beijaram-se. Mas Filipe depois de inicialmente se ter deixado levar, acabou por separa os lábios e dizer. –Não Sofia, estás carente. – Mas ela não lhe deu ouvidos. Continuou a beijá-lo e desta vez mais nenhum parou com o que viria a ser uma série de beijos. Não exista um amor que os unisse, apenas existia um sentimento de desejo.
Filipe fez Sofia sentar-se na mesa da cozinha de pernas aberta para si, e enquanto se beijavam, começou a explorar-lhe o corpo. A tocar-lhe em zonas que nunca pensara, explorando as suas ancas e as pernas. Sofia conhecia bem qual era o rumo que tomava e decidiu despiu-lhe a t-shirt. Que lhe respondeu também despindo-a. Ergueu-se da mesa e colocou-se a mão no peito dele e fê-lo ir até ao quarto. Quando lá chegaram, Sofia saltou para o colo dele, ficando presa apenas com as pernas no corpo dele. Os beijos eram intensos mas deixavam de ser nos lábios, Filipe começou a ser mais ousado e a explorar o peito de Sofia, que a levava a sentir pequenos espasmos de prazer. Tão depressa como tinha tudo surgido aquele momento de loucura, as calças de Filipe sairam do seu corpo e os calções dela foram de encontro ao chão. Estavam já em roupa interior, e deitados na cama quando ele disse:

-Isto é um erro. – Tarde demais, pensou Sofia para si mesma.

-Cala-te! – Ordenou e beijou-o e com os desejos carnais bem presentes. Não pensaram em mais anda, apenas em saborearam aquele momento ao máximo. A (pouca) roupa que tinham no corpo desapareceu, e o desejo já antes presente começara a ganhar enormes preporções. Colocaram o preservativo bastante á pressa, sem tomarem em atenção o facto de ficar bem ou mal posto e começaram a fazer sexo. Não era amor, sabiam-no, era apenas os desejos carnais a vencerem a racionalidade e a lógica.
Sexo selvagem, louco e prazeroso foi o que viveram durante imenso tempo, de todas as formas loucas e imagináveis. Deram ouvidos a uma série de loucuras que tinham em mentes e conheceram sentimentos que de todo desconheciam. Nunca tinham vivido algo assim e nunca tinha acontecido envolverem-se com uma pessoa que não amassem. Ambos estavam apaixonados por outras pessoas e acabaram por deixar isso bem claro, enquanto Sofia gritava por Pedro, Filipe gritara também Jéssica. Nenhum deles deu importância ao que gritavam. Aquele era somente um momento prazeroso e sem compromisso da vida de ambos, que pela primeira vez se cruzara.

Não sabiam ao certo a que horas chegava a mãe de Filipe e a loucura da luta contra o tempo ainda lhes dava mais vontade de arriscar, de desafiar o perigo. Só terminaram quando os corpos já não aguentavam mais.

-Uau. – Disse Sofia sentando-se na cama enquanto Filipe vestia os boxers. –Isto foi uma loucura que soube mesmo bem.

-Mais tarde falamos sobre isto. - Disse envergonhado e nervoso á procura das roupas que estavam espalhadas pelo quarto e vestindo-as ao ritmo que as encontrava. Olhou para o relógio. – Vou chegar atrasado ao treino e neste estado. – Disse referindo-se á suor que lhe escorria pelo corpo. – Senão te importares dá um jeitinho ao quarto que eu tenho mesmo de ir. – Deu-lhe um beijo na testa e foi-se embora e Sofia ficou novamente sozinha, sem saber o que fazer.

Como ficará a relação de Sofia e Filipe?
Será que Diogo vai descobrir? Será que Sofia vai ter de deixar a casa dele?