sexta-feira, 2 de maio de 2014

Capítulo 04: “Simplesmente... Aconteceu”


Sofia sentia-se sozinha no mundo. Tinha de enfrentar, uma vez mais, uma dura e triste realidade. Mas, ao contrário da primeira vez, tinha de enfrentar olhos nos olhos uma realidade que escolhera. Ninguém a obrigara a “dormir” com Filipe, tinha sido ela a escolher fazê-lo. E tinha de lidar com as consequências dos seus actos. O que acontecera com Filipe, tinha sido um impulso, um desejo de se sentir amada, porque depois de ver Pedro a beijar outra rapariga e a tocar-lhe como tocava a si, sentiu-se traída e humilhada. E tentou tapar a ferida, nem que fosse durante algum tempo, com Filipe. Mas a ferida iria abrir e sangrar mais uma vez. 
As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto e Sofia não conseguia pará-las, sentia que tinha traído Pedro, que tinha “usado” Filipe e tinha magoado a si própria, não tinha resistido aos seus pensamentos e aos seus desejos carnais, embora o coração dissesse que amava Pedro e que sempre o amaria. Sofia sentia que tinha falhado, que não o devia ter feito. Por isso só podia fazer uma coisa, ir-se embora, Era o melhor que fazia. Detestava despedidas como ninguém e não consegui-a dizê-lo em voz alta, por isso enviou uma mensagem de texto a Filipe a dizer:

“Pipo, desculpa a forma como me despeço, tu sabes tão bem como eu o que aconteceu e que o melhor é agradecer-te por tudo e seguir o meu caminho. Sabes que és um dos meus melhores amigos e que apesar de tudo não quero perder esta amizade. Agradece aos teus pais e obrigada também por tudo. Beijinhos”

Depois de enviar a mensagem, pegou também num papel para deixar uma mensagem para os pais de António e Maria Nascimento.

“Obrigada pela vossa simpatia, pela estadia, e pela atenção que me deram. Motivos mais fortes, obrigaram-me a despedir-me de vocês mais cedo do que o previsto. Desculpem mais uma vez o incómodo e prometo que não me esquecerei de vocês. Quando poder pago a despesa que causei e com juros!
Beijinhos e mais uma vez obrigada, Sofia Rochinha”

Deixou o papel em cima da cama de Filipe e começou a arrumar os seus pertences, não sabia para onde iria, e muito menos como ficaria, o mais certo era dormir na rua até encontrar um sítio onde viver. Sabia que podia contar com Diogo, mas não o queria desiludir. Arrumou o quarto e despediu-se daquela casa. Mas não sem antes, enviar uma mensagem a Filipe:

“Ficaram algumas coisas minhas em tua casa, quando puder e tiver como, vou buscá-las”

Saiu de casa, e as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, magoava-a estar assim. Ainda conseguiu ver António a entrar em casa, mas fintou-o de forma a ele não a ver. Não conhecia muito bem o local onde estava, nem para onde ir, sabia apenas que queria um local minimamente seguro onde pudesse descansar.

Apenas se conseguiu lembrar de um sítio que seria o seu apoio, alguém que em tempos, fora como um melhor amigo. A praia. Como não conhecia nenhum local próximo e não podia contar com o apoio de ninguém, apanhou um táxi. A praia mais próxima era a meia-hora de carro, por isso teve de tentar falar com um taxista e negociar um preço mais baixo e conseguiu. Por 20€ conseguiu chegar até á Praia das Maçãs. Assim que chegou, tirou as malas do carro, pagou ao taxista e começou a caminhar o passeio que separava a estrada do areal, descalçou-se e sentiu a areia tocar nos seus dedos dos pés.

O areal... Era bom sentir a areia a tocar nos seus dedos dos pés, a brisa do mar a bater na sua pele e o cheiro intenso da maresia . Sentir a brisa fria do mar bater na sua pele e causar um calafrio, era bom sentir-se novamente em casa, sentir todas aquelas sensações que não sentia há um ano. A sua casa em Espinho era próxima do mar, mas nunca tivera a coragem de ir á praia depois do que tentou fazer e era bom matar saudades do mar, aquele que já fora um dos seus melhores amigos. Aproximou-se do mar e pousou as malas no chão, sentou-se e nada a fazia sentir-se melhor, era uma sensação de calma e pacificidade que não conseguia explicar. Respirou fundo e pela primeira vez, desde há muito tempo, sentiu-se verdadeiramente bem. Sorriu e ficou a conversar com o mar durante bastante tempo, sentia saudades daqueles momentos, daquelas respostas que o mar lhe dava através da força das ondas, ou da ausência delas.

As horas foram passando e o telemóvel continuava a tocar, Sofia nunca atendia. A mãe já lhe ligara várias vezes, o pai também, mas se á sua própria progenitora não atendia a chamada, não iria conversar com o homem que lhe dera vida, era em parte, ele o culpado por muito do que lhe acontecera. Mas continuava a olhar para o telemóvel e acabou por atender. Não o deveria fazer, mas não conseguiu ignorar a chamada de Filipe.

-Sim? – Disse Sofia mas não deixou o amigo responder. – Pipo se me vais pedir para voltar a tua casa desiste, depois do que aconteceu sabes que é o mais acertado que posso fazer.

-Diz-me apenas onde estás. – Respondeu calmamente.

-Praia das Maçãs.
Sofia não iria, nem conseguia mentir ao seu amigo Filipe. E também não teve de esperar muito tempo por ele. Bastaram apenas vinte minutos. Quando chegou sentou-se junto á amiga e falou:

-Sofia, não te vou obrigar a voltares para casa, já te disse que as portas de minha casa estarão sempre aberta para ti. – Ambos deixavam os olhares cravados no mar. -O que aconteceu, já passou, estou disposto a esquecer tudo. E espero que tu também estejas. Mas sabes que neste momento sou a única pessoa a poder ajudar-te e quero que aceites a minha ajuda, porque é de coração.

Olharam um para o outro, e sorriram. Aproximaram-se, sem nunca afastar os olhares e Sofia sussurrou, baixando a cabeça.

-Não pode voltar a acontecer. – Mas ergueu a cabeça olhando para Filipe.

-É a última vez. – Disse pousando a mão sobre a sua bochecha esquerda e beijando-a de seguida, e ela não recusou, retribuiu de igual forma inclusivé.
As roupas que traziam no corpo rapidamente voaram (mais uma vez), e acabaram por repetir a proeza daquela tarde. Sabiam que não o deveriam ter feito e aquele local, era público, qualquer pessoa podia aparecer, mas estavam dispostos a arriscar.
Quando terminaram o que já tinham feito por diversas vezes naquela tarde, vestiram-se sem nunca trocarem uma palavra, não sabiam o que dizer, por isso optaram por um silêncio profundo onde apenas se ouvia as ondas do mar. Filipe embora não tivesse pedido a Sofia para regressar a casa, ela incentivou-se a ir com ele. Pousaram as malas no carro e a jovem colocou-se no lugar ao lado do condutor, Filipe ligou o rádio e começou a conduzir em direção a casa. Não sabiam o que dizer, mas ele sabia que tinha de falar, tinha de fazê-lo.

-O Diogo está lá em casa. – Respondeu não tirando os olhos da estrada.

-Vai lá jantar? – Respondeu baixinho, quase que sem coragem de abordar qualquer tema com aquele que era um dos seus melhores amigos.

-Sim, vai lá jantar e dormir. – Respondeu sereno enquanto a jovem da jovem de Espinho tremia, assim como o seu corpo, devido a uma série de sentimentos que o seu coração a fazia sentir. – E acho que ele merecia saber, Sofia. Pelo que aconteceu... Duas vezes. – Sofia não queria nem pensar no que tinha acontecido, na desilusão que iria dar ao irmão, mas sabia que era o mais certo dizer, mas não queria desiludi-lo também a ele.

-Eu preferia não fazê-lo. Sei que o vou desiludir. Mas tu ainda não lhe disseste? – Tentava esconder o nervosismo e o medo que tinha a pensar nas palavras com que abordava aquele tema e na melhor forma de lhe dizer.

-Não, ele só vai saber se tu concordares em dizer. – Respondeu aproximando-se cada vez mais da vila onde moravam. – Eu acho que ele merecia saber, compreendo que não queiras dizer mas acho que é melhor ouvir pelas nossas bocas do que descobrir mais tarde.

-Tenho medo de o desiludir, só o tenho a ele e a ti do meu lado.

-Posso mentir-te e dizer que ele vai gostar do que vai ouvir, mas só sabemos depois de lhe dizer qual será a reação dele.

-E se ele deixar de me apoiar? E se ele me abandonar como fez o Pedro?

-O Diogo gosta imenso de ti, és mais que uma irmã dele, és uma amiga e ele nunca te vai abandonar.

-Claro que tenho medo que ele me abandone, preciso dele mas o meu maior medo é ver que o desiludi. E será uma dor maior que todos os cortes que fiz.

-Há pouco percebi dos teus cortes... – Não queria dizer quando o tinha descoberto e não precisou porque rapidamente entendeu. – E quem gosta de ti realmente, vai gostar acima de qualquer corte ou qualquer outra marca no teu corpo. Não sei como é que ele vai reagir e sei que vamos desiludi-lo, mas antes isso do que mentir ou omitir.

-Então vamos lá. – Filipe estacionou o carro e Sofia continuou a conversar. – Pipo, não quero que os teus pais saibam de nada do que aconteceu. – Referia-se á sua saída de casa e aos momentos que tinham vivido juntos.

-Nem eu quero que eles saibam, Soff. Sinceramente, acho que eles pensam que ainda sou virgem.

-Tu eras virgem?

-Não, claro que não.

-Eu também não, descansa. – Sorriu.

Filipe relembrou-se do momento em que Sofia contara a história do seu último ano de vida mas acabou por não dizer, sabia que a magoava e imaginava que fosse doloroso falar sobre ele. Por isso preferiu mudar o rumo da conversa.

-Não te importas de ficar sem as malas até amanhã? É que se as levarmos os meus pais vão perguntar.

-Não. Amanhã quando vieres do treino diz-me para vir buscá-las.

-Está bem. Pronta para falarmos com o Diogo?

-Não estou preparada mas vou fazê-lo.

-Vamos, Sofia. – Relembrou Filipe olhando para a amiga que sorriu. – Não vais fazê-lo sozinha, assim como também não o fizeste.

-Obrigada Pipo. – Tocou com os dedos na mão do amigo. – E se os teus pais perguntarem porque é que não tive em casa? – Abrandou enquanto subiam as escadas da vivenda.

-Dizes que foste tratar de umas coisas da escola mas que entretanto me esqueci de te ir buscar.

-É uma desculpa um bocado esfarrapada.

-Vai ter de servir Soff.

-Então vamos. – Acabaram de subir as escadas que davam acesso á casa.

-Olá a todos! – Disse Filipe entrando em casa e cumprimentou a mãe com dois beijos e cumprimentado o pai e o amigo com um “passou-bem”. Sofia aproximou-se de todos e cumprimentou com dois beijos.

-Então que te aconteceu Sofia? – Perguntou Maria, a mãe de Filipe.

-Fui tratar da minha transferência para a escola e o Pipo esqueceu-se de mim.

-Achas isso bem Filipe Guterres Nascimento?

-Esqueci-me, desculpem! – Respondeu envergonhado.

-Enquanto eu preparo o jantar, vão lá instalar o Diogo enquanto o teu pai também põe a mesa.

Obedeceram e foram até ao quarto.

-Vou ter de dormir no sofá ou há espaço aqui no quarto?

-Eu posso ir dormir para o sofá e tu dormes na minha cama. – Respondeu Filipe.

-Nada disso. – Respondeu Sofia. – No colchão cabemos os dois, até porque não és propriamente muito grande. – Disse Sofia brincando com a baixa estatura de Diogo e Filipe respondeu rindo-se juntamente com ela.

-Hei! – Disse Diogo chamando a atenção. – Deixem lá o meu 1,66 em paz!

-Mas agora falando de assuntos sérios. – Disse Filipe. Sofia levantou-se e sentou-se ao lado dele, deixando Diogo sozinho no colchão, que rapidamente entendeu que o assunto era bastante sério e envolvia ambos.

-Meninos para a mesa! – Disse Maria.

-Dá-nos 10 minutos e já vamos mãe!

-Que é que se passou? Foi algo de grave?

Será que vão conseguir dizer o que se passou?

Será que vai aceitar bem o que aconteceu ou ficará desiludido? O que ditará o futuro de Sofia?

sábado, 12 de abril de 2014

Capítulo 03: “Ele... Ele... Tem... Outra...”


Filipe não estava á espera de uma história tão intensa, não podia nunca imaginar que o pai dela, lhe fizesse uma crueldade tão desumana. Diogo sabia de quase toda a história. Sabia que o pai nunca gostara de Pedro e que obrigara Sofia a ir para Espinho para a afastar dele, mas não podia nunca, nem imaginar, que a tinha forçado a abortar. O sonho da irmã podia-se ter tornado realidade, senão fosse as atitudes questionáveis do pai.
O primeiro a reagir foi Filipe, que limitou-se a abraça-la como não era abraçada há muito tempo. E Sofia chorou durante bastante tempo, não havia ninguém á excepção da mãe que sabia toda a história desde o começo. Por isso mesmo, não havia ninguém que lhe pudesse dar todo o apoio que necessitava.

-Sofia. – Sussurrou-lhe. – Não sei o que te dizer. Só me apetece abraçar-te e nunca mais te largar. – Disse apertando-a mais nos seus braços. Diogo pousou a mão sobre a mão da irmã.

-Eu não acredito que ele te fez isso. – Disse sem reação possível. –Ele não pode, não tinha coragem... – Disse agonizado e mal disposto só de pensar naquela hipótese. Sofia foi mais forte, controlou as lágrimas e encarou pela primeira vez o problema, não o evitando.

-Mas fez Diogo. Magoou-me muito e nunca pediu desculpa ou mostrou um sinal de arrependimento. Mereço este sofrimento, mas quem deixei para trás não merecia... – Sofia não conseguiu manter a pacificidade e começou a chorar, ainda não era forte o suficiente para conversar sobre o que se havia passado sem chorar, sem sentir uma repulsa e uma náusea por si própria. Sempre que falava sobre o que havia passado, era como se os cortes se voltassem a abrir e a dor agoniante voltasse. Depois de alguns largos minutos a chorar é que conseguiu acalmar-se e exausta por tantas lágrimas derramadas, da longa viagem que fizera e todas as emoções que sentira adormeceu com a cabeça pousada no colo do irmão e com os pés sobre as pernas de Filipe.
Acordou passado algum tempo com o corpo a doer-lhe, apesar de ter adormecido numa posição que lhe parecera confortável. Mas ao contrário de quando tinha adormecido, a sua cabeça não estava pousada no colo do irmão, mas sim numa almofada e os pés estavam descalços e sobre o sofá.

-Diogo, Pipo. – Levantou-se e começou a procurá-los pela casa.

-Querida vem á cozinha! – Ouviu uma voz bastante simpática e convidativa chamar por si e começou a percorrer a casa á procura donde viria aquela voz, assim que encontrou, deparou-se com uma senhora de meia idade que formou um sorriso na cara quando a viu.– Presumo que sejas a Sofia.

-Sim. – Respondeu envergonhada. –E presumo que seja a mãe do Filipe. – Disse não mencionado a alcunha pela qual o chamava.

-Sim, querida. O Filipe foi só levar o teu irmão ao centro de treinos e já deve estar a chegar.

-Obrigada e desculpe o incómodo. Vou só esperar que o Filipe chegue e já me vou embora.

-Sofia senta-te aqui. – Puxou uma cadeira da mesa da cozinha e apontou para a cadeira ao seu lado, como que convidando-a para se sentar. Sofia obedeceu. – O Diogo e o Filipe, Pipo como tu chamas, estiveram-me a explicar a tua situação e estou disposta a ajudar-te, podes ficar aqui o tempo que quiseres. – Disse voluntariamente. – Não temos mais camas cá em casa e o sofá não é tão confortável quanto parece. – Bem que o diga! Comentou Sofia para si mesma. – Mas logo á noite vou ter com o meu marido ao trabalho e vamos comprar um colchão para o Filipe dormir enquanto aqui estiveres. Tens é de partilhar o quarto com ele, e acredita quanto te digo que ele não é um bom exemplo de arrumação. – Sorriram.

-Só iria incomodar e dar problemas, não se incomode, arranjarei outro sítio para ficar.

-Levo a mal senão aceitares o meu convite. – Sofia deu-se por vencida.

-Então faço questão de lhe pagar, por enquanto não tenho muito mas é uma boa ajuda. E quando tiver mais, juro que pago todas e quaisquer despesas que dê.

-Deixa-te estar querida. Faço-o de boa vontade, não quero nada em troca.

-Não sei como lhe agradecer por tudo. De coração. E nem sequer sei o seu nome... – Disse ainda mais envergonhada.

-Maria. Maria Nascimento. E nada de donas, nem senhoras, o meu primeiro nome é Maria. – Sorriram e Sofia entendeu logo o que a mãe de Filipe queria dizer. – Queres ajuda para levares as tuas coisas para o quarto Sofia?

-Não se incomode. – Antes de virar costas repetiu. –Obrigada mais uma vez por tudo.

-É de boa vontade que te ajudo. Querida, tens no quarto do Filipe um armário que ele não usa, não é muito grande, mas sempre podes lá guardar as tuas coisas e as malas podem ir para o armário dele.

-Se lhe agradecer mais alguma vez é capaz de se chatear, por isso, se me dá licença vou arrumar as minhas roupas. – Sorriu e foi até á sala buscar as malas e foi até ao quarto e pousou-as no chão. O quarto era bastante grande, por isso havia espaço para deixar as malas e para colocar um colchão. Procurou o armário que Maria tinha falado e depois de o encontrar começou a arrumar as roupas.

-Olá Soff! – Disse Filipe a entrar no quarto. – Desculpa não te termos dito nada mas estavas a dormir tão bem que te deixei estar. E o Diogo teve mesmo de ir embora.

-Mas já é assim tão tarde?

-Não. São 19h e pouco.

-Tive pena de não lhe dar um beijinho mas eu depois falo com ele.

-Amanhã só temos treino á tarde, se quiseres podemos passar o dia juntos.

-Tenho é que ir á escola de manhã, preciso de saber se está tudo bem com a minha matrícula, ver qual é a minha turma e horário e quais os livros que preciso e claro, se há alguma forma de os ter sem pagar, ou a pagar menos.

-Estás a tirar que curso?

-Estou em letras, porquê?

-No décimo segundo ano, certo?

-Sim.

-Ficas então com os meus livros do ano passado, duvido que tenham mudado.

-Obrigada Pipo! Não sei como te agradecer por tudo!

-Para que servem os amigos?

-Mas os teus pais não têm e não deviam sustentar-me, e tu estás a ser incansável comigo. Obrigada! – Deu-lhe um abraço e um beijinho e com a proximidade que havia, acabou por tocar nos ombros de Filipe. Naquele último ano, tinha desenvolvido bastante. A voz estava mais grossa, o corpo outrora magro, dera lugar os músculos e os ombros estavam mais largos e Sofia não conseguiu evitar tocar-lhe. Era um grande amigo seu, talvez o melhor depois do seu irmão, mas como era possível ficar-lhe indiferente? Durante aquele último ano não tinha deixado que nenhum rapaz se aproximasse, afastara todos os interessados e não olhou para nenhum rapaz, iria ser fiel a Pedro. Mas Filipe era tão bonito, por dentro como por fora. E ela, estava carente. Mas não iria trair o seu namorado, não iria estragar uma amizade e magoar duas pessoas que tanto gostava somente por causa de uma atracção física.

-Meninos, mesa! – Anunciou a mãe de Filipe. Separaram-se e foram até á cozinha onde jantaram e Maria depois de terminarem a refeição, foi embora ter com o marido para comprarem o colchão e depois, começaram também a arrumar a roupa que Sofia havia trazido pelo quarto.

-Se soubesse que estavas em Espinho, tinha ido ter contigo.

-Não tinhas como saber. Mas acredita que nunca desconfiei do valor da nossa amizade.

-Podia ter feito tantas coisas mais, podia ter pressionado mais o teu irmão, podia ter ido até Espinho á tua procura, nem que fosse para perguntar aos teus pais.

-Não te sintas culpado, o meu pai nunca te iria dizer, e o meu irmão não te poderia dizer, porque nem ele sabia.

-Como é que e possível? Ele é teu irmão...

-Sim. Mas o meu pai disse-lhe que fui para um colégio interno.

-Os teus pais já te ligaram? – Perguntou Filipe, mudado de assunto rapidamente.

-Não. Não são meus pais. Ela é minha mãe, mas aquele... Monstro, não é meu pai. Demito-me a acreditar que ele é sangue do meu sangue, senão não me teria feito o que fez. Mas não quero falar sobre isto. – Disse com a mágoa bastante presente na voz.- Mas sim, já me ligaram umas quantas vezes mas nunca atendi.

-E algum dia, ou alguma vez vais atender?

-Não sei. Estou é a pensar mudar de número.

-Põe-te no lugar da tua mãe, não ias gostar de não saber onde está a tua filha.

-A minha mãe é a pessoa que menos culpa tem, e não merece isto. Mas por enquanto, não tenho coragem de falar com ela.

-Mas sabes que é provável que ela desconfie que estejas aqui.

-Depois penso nisso. – Disse claramente a mudar o rumo da conversa. E depois de arrumarem a cozinha, verificaram se os livros estavam todos em ordem, claramente usados mas em bom estado para serem reutilizados.
Sofia estava exausta e Filipe não parou quieto durante o dia, por isso estavam com sono e acabaram por se deitar na cama dele e adormecerem. Era uma cama de solteiro, não era confortável para duas pessoas, mas tentaram ao máximo manter a distância. Filipe acordou quando os pais chegaram, ao contrário de Sofia.
Com o cansaço deixaram-se adormecer até às 11h, e depois de prontos, puseram-se a caminho da escola, Filipe optou por ficar no carro a ler um livro, enquanto Sofia vou verificar a sua turma, os horários e se a transferência tinha sido totalmente aceite. Depois de tudo preparado saiu da escola confiante que iria recuperar a vida que tivera outrora, aquele era o primeiro passo. Quando ao sair deparou-se com algo que nunca imaginara. Algo que partiu o coração em milhões de pedaços.


Pedro estava a beijar outra rapariga. Pedro tinha outra pessoa... E Sofia sentiu  o seu mundo ruir mesmo por debaixo dos seus pés. Não o podia censurar por ter outra pessoa, ela tinha-o abandonado e ele estava a lutar pela sua felicidade. Ela não o iria abandonar, não iria matar um filho, talvez ele a merecesse como não merecia Sofia, e talvez ela iria limitar-se a amá-lo e a fazê-lo feliz. Ele estava feliz, era o que mais importava, mas não podia sentir-se feliz com a felicidade dele, ao lado de outra pessoa. Foi até ao carro, sem nunca derramar uma lágrima e entrou para o lugar do pendura.
Entrou no carro sem dizer uma única palavra, nem cumprimentar o amigo, só conseguia pensar no que acabara de ver. Ele estava feliz... Mas aquela felicidade, custara-lhe a sua felicidade.

-Que se passou Sofia?

-Não fales por favor. Leva-me apenas para casa. – Filipe obedeceu ao pedido de Sofia e conduziu até casa, ligou o rádio mas ela desligou-o. Queria apenas sair daquele sítio, em silêncio absoluto.
Filipe estacionou o carro enquanto caminhavam até casa, ele sentia-se a cada momento mais impotente, mas iria respeitar o pedido da amiga.
Quando chegaram a casa, almoçaram num silêncio assustador e profundo, depois de terminaram Sofia pediu para arrumar a cozinha sozinha e Filipe obedeceu, deixando-a sozinha. Mas ela sabia bem o porquê daquele pedido, iria pôr um termo á vida. Abriu a gaveta dos talheres e tirou de lá a maior faca que existia, olhou para ela e pensou:

“Se tu falhares não sei o que mais me mata”

Continuou a olhar e a perguntar a si mesma se faria mais cortes nos pulsos, como havia feito antes e tinha acabado por sobreviver, ou se faria na garganta,  que sem dúvida seria fatal.
Mas Filipe regressou á cozinha e disse:

-Tens a certeza que não queres ajuda? – Mas ao entrar na cozinha deparou-se com aquela cena.Sofia tinha uma grande faca na mão, e estava a olhar para ela e a colocá-la junto á pele. Correu até ao seu encontro e abraçou-a. – Sofia, não te vou perder outra vez, ouviste? – Disse atirando a faca para o chão, e abraçou a amiga com toda a força. –Por favor, explica-me o que se passou.

-Ele... Ele... Tem... Outra... – Sofia não conseguiu conter as emoções. 

-A única pessoa que merece as tuas lágrimas é a única que nunca te fará chorar. – E começou a limpar as lágrimas que corriam a face de Sofia, mas o corpo dela continuava a tremer, com os nervos que sentia. – Tem calma, eu protego-te. – Agarrou nas mãos de Sofia e olhou-a. – Não me voltes a deixar, promete-me. – Filipe suplicara-lhe com as palavras e com o olhar. Aquele momento tornou-se mais do que um momento de amizade, porque num impulso beijaram-se. Mas Filipe depois de inicialmente se ter deixado levar, acabou por separa os lábios e dizer. –Não Sofia, estás carente. – Mas ela não lhe deu ouvidos. Continuou a beijá-lo e desta vez mais nenhum parou com o que viria a ser uma série de beijos. Não exista um amor que os unisse, apenas existia um sentimento de desejo.
Filipe fez Sofia sentar-se na mesa da cozinha de pernas aberta para si, e enquanto se beijavam, começou a explorar-lhe o corpo. A tocar-lhe em zonas que nunca pensara, explorando as suas ancas e as pernas. Sofia conhecia bem qual era o rumo que tomava e decidiu despiu-lhe a t-shirt. Que lhe respondeu também despindo-a. Ergueu-se da mesa e colocou-se a mão no peito dele e fê-lo ir até ao quarto. Quando lá chegaram, Sofia saltou para o colo dele, ficando presa apenas com as pernas no corpo dele. Os beijos eram intensos mas deixavam de ser nos lábios, Filipe começou a ser mais ousado e a explorar o peito de Sofia, que a levava a sentir pequenos espasmos de prazer. Tão depressa como tinha tudo surgido aquele momento de loucura, as calças de Filipe sairam do seu corpo e os calções dela foram de encontro ao chão. Estavam já em roupa interior, e deitados na cama quando ele disse:

-Isto é um erro. – Tarde demais, pensou Sofia para si mesma.

-Cala-te! – Ordenou e beijou-o e com os desejos carnais bem presentes. Não pensaram em mais anda, apenas em saborearam aquele momento ao máximo. A (pouca) roupa que tinham no corpo desapareceu, e o desejo já antes presente começara a ganhar enormes preporções. Colocaram o preservativo bastante á pressa, sem tomarem em atenção o facto de ficar bem ou mal posto e começaram a fazer sexo. Não era amor, sabiam-no, era apenas os desejos carnais a vencerem a racionalidade e a lógica.
Sexo selvagem, louco e prazeroso foi o que viveram durante imenso tempo, de todas as formas loucas e imagináveis. Deram ouvidos a uma série de loucuras que tinham em mentes e conheceram sentimentos que de todo desconheciam. Nunca tinham vivido algo assim e nunca tinha acontecido envolverem-se com uma pessoa que não amassem. Ambos estavam apaixonados por outras pessoas e acabaram por deixar isso bem claro, enquanto Sofia gritava por Pedro, Filipe gritara também Jéssica. Nenhum deles deu importância ao que gritavam. Aquele era somente um momento prazeroso e sem compromisso da vida de ambos, que pela primeira vez se cruzara.

Não sabiam ao certo a que horas chegava a mãe de Filipe e a loucura da luta contra o tempo ainda lhes dava mais vontade de arriscar, de desafiar o perigo. Só terminaram quando os corpos já não aguentavam mais.

-Uau. – Disse Sofia sentando-se na cama enquanto Filipe vestia os boxers. –Isto foi uma loucura que soube mesmo bem.

-Mais tarde falamos sobre isto. - Disse envergonhado e nervoso á procura das roupas que estavam espalhadas pelo quarto e vestindo-as ao ritmo que as encontrava. Olhou para o relógio. – Vou chegar atrasado ao treino e neste estado. – Disse referindo-se á suor que lhe escorria pelo corpo. – Senão te importares dá um jeitinho ao quarto que eu tenho mesmo de ir. – Deu-lhe um beijo na testa e foi-se embora e Sofia ficou novamente sozinha, sem saber o que fazer.

Como ficará a relação de Sofia e Filipe?
Será que Diogo vai descobrir? Será que Sofia vai ter de deixar a casa dele?

domingo, 23 de março de 2014

Capítulo 02: “É uma longa história...”


-Sofia. – Disse com uma calma característica que possuía. – Tu tens noção do que estás a fazer? Do que estás a deixar para trás?

-Tenho, Diogo. Sei bem o que estou a fazer. Estou a lutar pela minha felicidade. E infelizmente, ao contrário do que sempre sonhei, a minha felicidade é longe do homem que chamas pai. Estou a deixar amigos e mais importante, os meus avôs e a minha mãe, mas não vou desistir sabes porquê? Porque ás vezes é preciso dar um passo atrás para, mais tarde, dar dois para a frente. Não vai ser fácil, vou ter que estudar e trabalhar para conseguir ter um tecto sobre qual dormir e comida, nem que seja só para ter uma refeição diária. Mas não vou desistir de viver, e em Espinho eu limitei-me a sobreviver.

-Só quero que tu percebas que nada está como tu deixaste e que muitas das coisas que até podias dar como certas, já não estão assim. Quero que percebas isso para evitar que sofras.

-Sei que não vai ser fácil, mas estou disposta a lutar. Não é apenas pelo Pedro, é pelos amigos que cá deixei como o Filipe, mas ainda mais em especial por ti Diogo, sei que não estarei sozinha se te viver á minha beira.

-Em Espinho também não estás sozinha, porque independentemente dos quilómetros que nos separem tens-me a apoiar-te, além dos teus amigos de infância, e também os avós e a mãe, e o pai apesar de tudo também.

-Tu sabes que não é bem assim. Os amigos, se forem verdadeiros não os perco, os avós sabem que os admiro muito e que estarão sempre no meu coração e a mãe... Ela não sabe onde estou mas eu deixei-lhe uma carta.

-Tu fugiste? – Perguntou incrédulo.

-Sim. Tive o último ano a poupar dinheiro suficiente para pagar a viagem para cá e tenho dinheiro para sobreviver durante uns tempos, não é muito mas chega.

-Só quero que percebas que por aqui as coisas também não são fáceis. Continuo a viver no Caixa por enquanto, mas estou á procura de uma casa para ir viver com o Filipe. Logo não te consigo dar uma casa e o dinheiro que ganho também não é muito. Mas dá para os dois, mas sem grandes luxos.

-Já pedi transferência para a minha escola antiga, senão ficava aqui a dormir pelas ruas ou assim e ia para a escola.

-Não. Eu ajudo-te, e apoio. Não te vou abandonar nem hoje, nem nunca. Só que me apanhaste desprevenido, nem tudo é tão fácil.

-Eu sei bem que não é fácil, Diogo. Não conheces a minha luta diária e ao longo do último ano. Aprendi que passo um obstáculo e logo de seguida vem um maior. Mas não vou desistir Diogo, não vou voltar para lá.

-Tu vais aprender com os teus próprios erros, vais entender que nem tudo é como pensas e que há lutas que não são para tu travares e que o passado está morto e enterrado.

-Diogo, não sou infantil a esse ponto. Conheço-te e sei que há algo que não me queres ou não consegues contar, mas não vou insistir. Quero apenas saber se conto contigo para me apoiares.

-Sem dúvida, aconteça o que acontecer não te vou deixar ficar mal, mana. Deixa-me só perguntar ao Filipe se podes ir almoçar a casa dele. – Pousou a mão sobre o telefone e trocou dois dedos de conversa com o amigo. – Eu mando-te a morada por mensagem, apanhas um táxi e vais lá ter pode ser?

-Sim, claro. Vai mais alguém convosco? – Perguntou ansiosa por saber se iria matar saudades de uma das pessoas que mais gostara na vida.

-Não Sofia, ele não vai connosco. Nem ele nem mais ninguém.

-Depois eu mato as saudades todas juntas! Não acredito vou estar com o Pipo! – Filipe era um dos amigos que Sofia mais lamentava de se ter afastado, era um verdadeiro amigo e companheiro. Por mais que uma vez disse-lhe que era como um irmão de sangue.

-E vais matar saudades minhas, não estás feliz? – Perguntou Diogo com uma pontinha de ciúmes.

-Ainda a semana passada te vi! – Respondeu brincando com o irmão. – Sabes perfeitamente que a pessoa que morro mais de saudades és tu!
-Eu bem que sabia, tu amas-me!

-Tu amas-me mais!

Acabaram por se despedirem pouco depois e Sofia pediu ao irmão para ser ela a surpreender Filipe.  Não era o primeiro grande desafio que enfrentava naquele dia. Tinha abandonado Espinho no mesmo dia, e grande parte da viagem de comboio fê-la a tentar arranjar um plano para refazer a sua vida, mas sabia que a partir do momento em que chegaria a Lisboa iriam existir milhões de outros conflitos e lutas, e a sua principal guerra era reconquistar a vida que tivera.

Acabou por dar a morada ao taxista e a partir em direção a casa do amigo. A viagem foi tranquila e nada conversadora, Sofia gostava muito de conversar e de ter uma boa e grande conversa mas desta vez não conseguiu falar com o também simpático taxista. Estava demasiado pensativa para o fazer. O irmão estava a esconder-lhe algo e ela queria saber o que era. Assim que chegou a casa do amigo, pagou ao taxista e começou a retirar as malas para fora do carro e contou com ajuda do condutor. Pareciam muitas malas e muita bagagem, mas para ela era pouco. Sentiu que tudo o que a representava estava ali. E apenas ali. E os dois objetos que trazia na mão direita, eram os que mais significado que tinham para si.  



Pedro comprou dois ursinhos de peluche semelhantes, guardou um e deu outro a Sofia. Comprou também dois anéis de prata. No interior existia a descição “23”, que representava mais que um número para aquele casal. Pedro havia nascido a 23 de Janeiro, e Sofia a 2 de Março (2/3), embora a sua data prevista de nascimento fosse a 22 de Abril (nasceu prematura), começaram também a namorar no 15ºaniversário de Sofia.  Por isso 23 era o número predilecto de ambos e significava muito e só conseguiam chegar a uma conclusão: se no passado, as vidas se haviam cruzado, nem que fosse por números, então o futuro também estava unido. Desde que o abandonara que não tinha voltado a tirar aquele anel do seu dedo anelar da mão direita e o peluche andava sempre na sua mão, todos os dias, a todas as horas.
Esperou alguns minutos pelos “irmãos” e enquanto Diogo acabava de estacionar o carro, Filipe saiu do carro, ainda em andamento e correu até aos braços da amiga e deram um abraço forte.

-Que saudades tuas Soff! – Era uma das alcunhas carinhosas que Filipe tinha dado a Sofia.

-E eu tuas Pipo! – Sofia ao contrário de todos os outros, não o tratava pelo nome, mas pelo alcunha que lhe dera.

-Que é que feito de ti boneca? Há mais de um ano que não tenho notícias tuas. – Disse pousando a amiga no chão depois do forte abraço que lhe deu.

-Há menos de um ano, fica sabendo. É uma longa história, depois conto-te. E tu como tens andado?

-Agora o que menos interessa sou eu, Soff. – Olhou para Sofia e admirou as suas diferenças. – Mas tenho que te dizer que este último ano fez-te bem. Olha só para ti, estás uma mulherzinha!

-Bem, acredita que não fez. Mas como te disse é uma longa história, estou muito diferente, cresci muito este último ano.

-Já percebi isso. Cadê o teu sorriso de antes? – Disse tentando imitar o sotaque brasileiro, mas como sempre, não lhe correra nada bem. Sofia sorriu timidamente e respondeu:

-Não mudaste nada! Quer dizer... Continuas a mesma pessoa, porque o teu corpo também desenvolveu bastante. Estás um homem! – Filipe sorriu envergonhadamente. Mas aquele momento constrangedor acabou por ser interrompido por Diogo.

-Já vi que tinhas mais saudades do teu maninho que do teu mano! – Disse enciumado Diogo.
Sofia surpreendeu-os e abraçou os dois em simultâneo. Sussurrou-lhes:

-Vocês são uma das razões pelas quais voltei! – Deu um beijinho na bochecha de cada um e passado alguns segundos soltou-os dos seus braços. Eram bom regressar até junto dos seus amigos, lutar pela sua felicidade e simplesmente sentira mais durante aqueles minutos, do que durante o último ano de vida
Dividiram as malas por todos e foram até casa de Filipe, por sorte, tinham trazido o almoço e até o terminarem foi rápido. Depois de lavarem a loiça e de arrumarem a cozinha, foram até á sala. No mesmo sofá sentaram-se Filipe á esquerda, Sofia no meio e mais á direita estava Diogo. Estava na altura de contar tudo:

-Pipo, acho que tens o direito de saber porque é que eu fugi e só regressei agora... E tu Diogo, mereças saber toda a verdade também. – Respondeu com frontalidade mas também com mágoa, sabia que tinham o direito de saber toda a verdade mas não era fácil contá-la e muito menos, no mesmo dia em que deixara Espinho.

-Sofia, aconteça o que acontecer, estarei ao teu lado, a apoiar-te e a ajudar-te. Pelo que percebi não é fácil, podes guardar para ti e um dia mais tarde, quando tiveres coragem e sem mágoa na voz, contas. – Respondeu Filipe calmamente.  

-Vocês têm de saber tudo, merecem como ninguém. – Respirou fundo e beijou o anel, apertou bastante o peluche, a quem chamava Miguel, que era o segundo nome de Pedro e continuou. – Eu mudei muito neste último ano, aprendi a ver as coisas de forma diferente e que a vida trás-nos sempre obstáculos, até de onde não esperamos. Há um ano atrás, estive grávida. – Fez uma breve pausa. – Mas perdi o bebé. Não, eu matei o meu filho. Tive a minha oportunidade de realizar o meu sonho de ser mãe, mas desperdicei-a. O homem que me fez – Desde o que acontecera nunca mais o tinha chamado de pai. Obrigou-me a abortar e a matar um ser que vivia no meu ventre que não tinha culpa nenhuma de ter vida, de ter sido formado. Mas a culpa foi minha, se eu tivesse lutado mais, talvez hoje fossemos uma família, eu, o meu filho e o pai. Mas as maldades daquele homem não ficaram por aí. – Engoliu em seco. – Ele obrigou-me a abandonar tudo e a limitar-me a ir embora sem poder dizer nada a ninguém. Não me pude despedir ou lutar contra isso. – Limpou as lágrimas que atravessavam o rosto. – E não consegui viver com tudo. Tentei ser feliz em Espinho, a sério que tentei, mas não consegui. E por isso... – Apontou para os pulsos onde foi visível os cortes que tinha nos pulsos que nunca desapareceriam. – Cortei-me, mas o meu corpo venceu a minha alma e não morri, mas não desisti. Tentei matar-me duas vezes no mar. – Diogo e Filipe eram as primeiras pessoas com quem Sofia tinha partilhado esta informação. -Mas fui tão fraca que nem consegui matar o maior monstro que conheço. – Apontou para si mesma. – Mereço sofrer desta forma, e de todas as torturas que existem. Mas não os que amo. E por isso, no último ano tentei ao máximo poupar dinheiro para voltar para me certificar que os que amo são felizes, sem mim, mas com uma justificação para tudo o que aconteceu e por vos ter abandonado. – Disse sem conseguir conter as lágrimas. Podia passar um ano, ou uma vida, Sofia nunca se iria perdoar pelo que fizera e pela mágoa que causara aos que amava. Em especial a Pedro e sentir que deixava o filho orgulhoso no céu.

Como irão reagir Diogo e Filipe?
Será que vão continuar a apoiá-la? Será que vai encontrar reconquistar a felicidade?